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Competência encenada: burnout e o medo de ser vista a aprender

Mulher a arrumar o casaco sentada numa secretária com computador portátil e caderno aberto.

Manter um ar sempre seguro, estar invariavelmente preparado, nunca parecer perdido: para muita gente com boa formação, isto já faz parte do quotidiano profissional. Uma pessoa afectada conta agora como passou sete anos a “representar competência” - e só demasiado tarde percebeu que não era o trabalho que a estava a destruir, mas o medo constante de ser vista a aprender.

Quando a competência vira uma armadura de protecção

A narrativa não começa numa sala de reuniões, mas num passeio com o cão. O parceiro faz uma pergunta inofensiva sobre uma ferramenta de software recente. Em vez de responder simplesmente “Ainda não comecei”, ela desvia-se automaticamente para outro programa que domina bem. Não está lá nenhum chefe, nem equipa, nem objectivos por cumprir - e, ainda assim, surge o mesmo reflexo: não dar parte fraca, não parecer ignorante.

Competente parecer torna-se a forma socialmente aceite de auto-anulação.

É aí que está o centro do fenómeno: não se trata de charlatães a disfarçar desconhecimento, mas de pessoas capazes que embrulham a competência real numa embalagem brilhante. Cada apresentação é planeada ao milímetro, cada e-mail é relido três vezes, cada pergunta é construída para soar a teste de qualidade - e não a insegurança genuína.

Em muitas empresas, isto recebe rótulos elogiosos: “profissionalismo”, “segurança”, “presença executiva”. Guias de carreira celebram estas atitudes. O reverso da medalha: ninguém chega a ver alguém a aprender pela primeira vez. Os processos de aprendizagem ficam escondidos atrás de resultados já polidos.

A fórmula secreta: “Se eu impressionar, estou segura”

A neurociência mostra que o cérebro leva ameaças sociais quase tão a sério como ameaças físicas. Quem interioriza cedo a ideia de que “não saber é perigoso” tem o sistema nervoso a disparar alarme sempre que a possibilidade de uma vergonha aparece no horizonte.

A protagonista descreve a conta inconsciente mais ou menos assim: se eu impressionar, estou segura. Se eu estiver segura, posso ficar. Por trás desta lógica há, muitas vezes, experiências de infância: quando só havia reconhecimento se a pessoa fosse útil, brilhante ou especialmente discreta, comportar-se de forma visivelmente imperfeita passa a soar a risco existencial.

  • Ser útil = poder ficar
  • Impressionar = receber atenção
  • Não dar trabalho = não sobressair, não incomodar

A investigação sobre perfeccionismo descreve precisamente este mecanismo: menos uma busca de excelência real e mais uma tentativa quase mágica de controlar vergonha, feridas antigas e medos do futuro. Até a tarefa mais pequena ganha um peso desproporcionado. O erro torna-se intolerável.

Competência encenada é perfeccionismo vestido para o escritório.

Burnout ou apenas o peso de um papel?

A certa altura aparecem sinais clássicos: cansaço de chumbo, ansiedade de domingo, a sensação de que, a partir de quinta-feira ao fim da tarde, o cérebro já é papa. Ela procura então estratégias anti-burnout: dormir melhor, menos ecrã, mais ar fresco com o cão.

Mas nada resulta. Porque a carga verdadeira não estava na quantidade de trabalho, e sim na pressão permanente sobre si própria. Estudos sobre “trabalho emocional” no emprego descrevem este cenário com precisão: quem tem de controlar a imagem exterior de forma contínua paga com exaustão, insatisfação e distanciamento interno.

Há uma palavra que a atinge em cheio: regulação. Não são as horas extra, nem os prazos, nem os conflitos - é a regulação ininterrupta do impacto que causa nos outros que devora energia. A realização interna continua mesmo depois de o portátil estar fechado.

O verdadeiro burnout não veio do trabalho, veio de me vigiar a mim própria.

Do que as pessoas realmente têm medo

Debaixo da competência representada raramente está o medo de um erro concreto. Mais fundo, vive a dúvida: serei amável sem desempenho? Sem brilho, chego? Alguém aceitaria a minha versão ainda por lapidar?

Quem aprendeu que o seu valor depende de ser funcional sente qualquer fase visível de aprendizagem como uma ameaça. Fazer uma pergunta numa reunião antes de ter todas as respostas não é vivido como um risco profissional; é sentido como um ataque ao próprio direito de existir.

Isto vai bem além do síndrome do impostor “clássico”. Aí, pelo menos por dentro, existe uma diferença: assim é como me sinto, assim é como pareço por fora. No teatro constante da competência, essa distância desaparece. Só se mostram resultados terminados. Deixa de haver espaço para o “ainda está a meio”.

A primeira frase que muda tudo

A viragem começa de forma surpreendentemente banal: numa reunião, ela diz pela primeira vez, sem rodeios: “Eu ainda não sei como isto se faz. Podes mostrar-me?” Não há discurso, não há manifesto interior. Apenas uma frase.

O corpo reage como se estivesse prestes a acontecer uma catástrofe: coração acelerado, pico de stress, alarme. E depois acontece - nada. O colega explica a ferramenta e, ao que parece, até agradece por dentro a honestidade; fica mais descontraído. Ninguém lhe retira responsabilidade. Ninguém põe em causa as suas competências.

Muitas vezes, basta uma insegurança honesta para os outros também deixarem cair os ombros.

É exactamente isto que estudos sobre autenticidade no trabalho confirmam: quando alguém fala abertamente das dificuldades, deixa de lutar sozinho. O alívio nasce menos de soluções perfeitas e mais de uma realidade partilhada.

O custo de estar sempre em “modo prontidão”

Quem passa anos no papel de “resolve-problemas” leva-o consigo para lá do horário. Ter sempre uma recomendação de restaurante, ter sempre um plano, ter sempre uma resposta. O preço não é o conhecimento em si; é a obrigação de nunca ficar sem resposta.

A psicologia do trabalho fala de duas identidades: a pessoal e a profissional. Quanto maior a distância entre as duas, mais energia é necessária para atravessar diariamente essa fenda interior. Aqui, o fosso estava entre a “pessoa que aprende” e a “pessoa que parece já ter percebido tudo há muito”.

Pequenos passos em vez de um grande striptease emocional

A saída não passa por despejar, de um dia para o outro, toda a vida privada no open space. A investigação sobre autenticidade saudável aponta noutra direcção: reduzir a distância entre o que se vive por dentro e o que se mostra por fora - sem derrubar limites.

No dia-a-dia, a pessoa em causa experimenta vários mini-testes:

  • Nomear uma vez por dia o não-saber: numa chamada, no chat, numa conversa a dois. Uma insegurança clara e suportável por dia.
  • Observar as reacções do corpo: suster a respiração antes de uma reunião, contrair o maxilar quando há perguntas, sentir o pulso a subir antes de uma apresentação - sinais de quando o velho papel entra em cena.
  • Separar preparação de controlo antecipado: planear com cuidado continua a fazer sentido. Mas não “matar” previamente todos os cenários possíveis só para nunca ter de pensar em voz alta.
  • Fazer a pergunta da adequação: o trabalho exige mesmo que eu brilhe o tempo todo? Ou fui eu que decidi que isso era obrigatório?

Muitas estratégias supostamente “racionais” revelam-se, vistas à luz do dia, mecanismos de protecção absurdamente caros.

Porque pensar sempre, sem sentir, desgasta

Na psicanálise, há descrições de pessoas impressionantemente produtivas que pagam um preço alto: pensar e fazer dominam de tal modo que quase não sobra espaço para sentir, para perceber o corpo, para brincar ou simplesmente para não fazer nada. Por fora, parece “alto desempenho”. Por dentro, soa a estado de cerco.

Quem vive em avaliações internas permanentes nunca descansa a sério. Cada tarefa vira palco; cada meia frase, uma potencial fragilidade. O trabalho emocional necessário para manter este nível de controlo excede, com o tempo, aquilo que o organismo consegue regenerar.

O que isto significa no nosso dia-a-dia

As lições desta história encaixam facilmente em muitos escritórios:

Superfície visível Preço escondido
Apresentações perfeitas Noites cheias de blindagem de pormenores
Respostas sempre cristalinas Nenhum espaço para pensar em voz alta ou duvidar
Fama de “rocha no meio da tempestade” Nenhum lugar seguro para mostrar fragilidade

O ponto interessante surge quando as chefias criam, de propósito, espaços para “aprender em tempo real”: reuniões de ensaio onde é permitido mostrar rascunhos, perguntas sem julgamento, conversas de mentoria em que também líderes falam abertamente das próprias tentativas falhadas. Formatos assim reduzem a vergonha de ainda não ser perfeito.

Como pode ser sentir a aprendizagem de verdade

Talvez a cena mais forte desta história aconteça em volume baixo: pela primeira vez, exigir a alguém que suporte ver a própria aprendizagem. Sem entrada brilhante, sem triunfo - mais um perder do controlo em câmara lenta. No instante inicial, parece que a armadura vai rebentar.

Depois, de forma quase chocantemente pouco dramática, acontece algo que muita gente já desaprendeu: calma.

O papel de quem “sabe tudo” começa a desfazer-se - e nada de grave acontece. Os colegas continuam lá, o emprego continua, o valor pessoal não colapsa. Fica uma pessoa que continua competente na área, mas que já não precisa de se esconder quando experimenta algo pela primeira vez.

É aqui que entra uma mudança de perspectiva silenciosa, mas poderosa: não se trata de “acabar com a competência”, e sim de construir uma identidade profissional que sobreviva às fases de aprendizagem. Quem aceita que os outros possam assistir ao pensar, ao duvidar e ao perguntar tira o veneno ao próprio perfeccionismo - e ganha, em troca, algo que raramente aparece em currículos: descanso no meio da vida de trabalho.


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