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Porque o reflexo de “fazer tudo” e a multitarefa travam a sua carreira

Pessoa a trabalhar com post-its coloridos e computador portátil numa mesa de escritório partilhado.

No dia a dia de trabalho moderno, parece que só é valorizado quem consegue fazer mais coisas ao mesmo tempo, está sempre disponível e responde a qualquer pedido no instante. Esse automatismo - que cá fora soa a empenho exemplar - é, segundo psicólogos, uma armadilha de carreira. Por trás da imagem do “colaborador perfeito”, há um mecanismo que vai desgastando, pouco a pouco, o desempenho, a saúde e as hipóteses de progressão.

O reflexo perigoso de “fazer tudo”

Seja numa entrevista, numa reunião de alinhamento (jour fixe) ou num daily stand-up, muita gente responde por instinto a cada tarefa nova com um “claro, eu trato disso”. A lógica parece irrefutável: quem ajuda em tudo demonstra motivação, flexibilidade e espírito de equipa - e em muitos escritórios este comportamento é até elogiado.

O problema é que, ao acumular sempre mais to-dos, perde-se rapidamente a noção do que são, de facto, as responsabilidades centrais. Em vez de avançar com foco nos projectos importantes, a pessoa passa o dia a correr de e-mail para reunião, de chamada para chat. A sensação é de actividade constante, produtividade e utilidade - mas o valor visível entregue costuma ficar aquém.

A psicologia mostra claramente: activismo permanente não é sinal de força, é um sinal de alerta.

O mito do multitarefa no escritório

Por trás desse impulso está a necessidade de estar presente em “muitas frentes” ao mesmo tempo. Num mundo cheio de smartphones, ferramentas e notificações, fazer várias coisas em paralelo parece quase normal: enquanto se prepara uma apresentação, surgem mensagens no chat, um podcast vai a tocar, e o e-mail fica aberto como padrão.

Muitos interpretam este saltar constante como prova de grande capacidade de trabalho. No entanto, do ponto de vista psicológico, acontece outra coisa: o cérebro não entra num “modo multi”; ele alterna muito depressa entre tarefas. E essa alternância contínua tem um custo elevado em energia e concentração.

O que realmente acontece no cérebro quando trabalha sempre em paralelo

Alternar o tempo todo destrói o foco e a memória

Estudos em neurociência indicam que o cérebro não consegue executar em simultâneo tarefas complexas. Em fracções de segundo, decide repetidamente para onde direccionar a atenção. Esse “liga-desliga” permanente cria uma espécie de ruído interno.

  • A taxa de erros aumenta, porque detalhes escapam.
  • As tarefas demoram mais do que se fossem feitas em sequência.
  • A capacidade de memorização cai e os conteúdos confundem-se mais depressa.
  • A aptidão para filtrar distrações enfraquece.

Na prática, isto traduz-se assim: depois de uma manhã cheia de chats, e-mails, telefonemas e reuniões, a pessoa sente-se esgotada, apesar de quase nada estar realmente concluído. Volta a reler várias vezes o que ficou combinado. Pontos importantes perdem-se, porque a cabeça está simplesmente cheia demais.

O cansaço silencioso por trás do “colaborador perfeito”

Por fora, a imagem é a de alguém super organizado: portátil sempre aberto, telemóvel à mão, várias janelas no ecrã, em contacto permanente. Por dentro, muitas vezes é o oposto: agitação nervosa, dificuldades em dormir, a sensação de nunca acabar, irritabilidade.

Psicólogos chamam a isto exaustão cognitiva. O cérebro gasta enormes quantidades de energia a tentar pôr ordem no caos de estímulos. O corpo liberta hormonas do stress, o pulso sobe e o limiar emocional baixa. Mantido durante meses ou anos, este padrão evolui para um estado de esgotamento que se torna difícil de inverter.

Quanto mais perfeita parece a fachada, maior é, muitas vezes, a exaustão interna.

Porque é que este reflexo mantém a sua carreira pequena

Perda de verdadeira especialização

Quem muda constantemente de tema acaba, inevitavelmente, por ficar à superfície. A capacidade de mergulhar a fundo, compreender relações complexas e gerar soluções criativas vai-se atrofiando. No papel, pode existir um perfil cheio de tarefas impressionantes - mas, aos olhos dos outros, os resultados tendem a ser “aceitáveis” em vez de extraordinários.

É aqui que começa o bloqueio na carreira: em funções de liderança e de especialista, não contam dez frentes medianamente sólidas; contam alguns pontos em que alguém se destaca claramente. Quando a energia se dispersa, a excelência deixa de estar no centro.

O efeito da armadilha da disponibilidade para os chefes

Há ainda uma distorção subtil na forma como as chefias percebem estes comportamentos. Quem responde sempre de imediato, aceita qualquer extra e, idealmente, ainda envia e-mails à noite, passa depressa a ser visto como o “bombeiro” da equipa. E recebe urgências, pequenas tarefas ad-hoc, projectos caóticos - tudo o que precisa de ser despachado “já”.

À primeira vista, isto parece confiança. Mas tem um senão: ao resolver constantemente miudezas, a pessoa fica, sem dar por isso, no papel de executante. Projectos estrategicamente relevantes, tarefas-chave com visibilidade, apresentações perante a direcção - muitas vezes vão para quem delimita melhor o tempo e se concentra nas suas forças centrais.

Disponibilidade excessiva não torna alguém automaticamente mais visível; muitas vezes torna-o substituível.

A saída: priorização radical em vez de activismo permanente

Que padrões deve largar

Psicólogos aconselham um passo que, para muitos, parece contra-intuitivo: certas “competências” devem ser abandonadas de forma activa. Trata-se de padrões de comportamento que, à superfície, soam profissionais, mas que na realidade apenas geram stress e mediania.

Sinais típicos incluem:

  • Começar dois grandes projectos praticamente em paralelo - e nenhum avança a sério.
  • Ouvir um programa ou um podcast enquanto trabalha numa apresentação importante.
  • Falar ao telefone com um cliente e, ao mesmo tempo, escrever noutro documento totalmente diferente.
  • Manter sempre pelo menos mais um ecrã “debaixo de olho” enquanto, supostamente, trata e-mails com concentração.
  • Fazer scroll nas redes sociais durante uma reunião relevante.
  • Anuir numa conversa, enquanto mentalmente já está a reorganizar a sua lista de tarefas.

Identificar estes hábitos em si próprio já é meio caminho. O passo seguinte é interromper o reflexo de propósito - por exemplo, desligando notificações, escolhendo reuniões com mais rigor e bloqueando no calendário blocos de trabalho bem definidos.

O poder de fazer uma tarefa de cada vez

Do ponto de vista psicológico, um princípio alternativo é muito mais eficaz: concentração consistente numa única tarefa. Isto não implica passar o dia inteiro no mesmo tema. Implica dedicar janelas de 30, 45 ou 60 minutos a um projecto com atenção total - sem verificar e-mails a meio, sem trocar mensagens em simultâneo.

Quem consegue manter este método percebe rapidamente: a qualidade melhora de forma visível, os erros diminuem e as decisões tornam-se mais fáceis. Os resultados ficam tangíveis porque as coisas terminam - em vez de permanecerem eternamente semi-abertas.

Saltos reais na carreira raramente nascem do barulho; nascem de excelência visível.

Como treinar foco no escritório de forma concreta

Estratégias práticas para o dia a dia

Para sair do padrão de malabarismo constante, ajudam mudanças pequenas e muito concretas:

  • Bloquear tempos de foco: dois a três períodos fixos por dia para trabalhar apenas numa tarefa importante - e-mail fechado, telemóvel fora de vista.
  • Adoptar o “não, mas…”: em vez de aceitar tudo de imediato, responder com frases como “Posso pegar nisso a partir das 15h” ou “Estou a priorizar o projecto X; pode ficar para amanhã?”. Mantém-se cooperativo, sem se sobrecarregar.
  • Filtrar reuniões: perante cada convite, perguntar: “Vou mesmo acrescentar valor aqui?” Se não, sugerir alternativas: acta, um one-on-one curto, ou contributo posterior por e-mail.
  • Domar a tecnologia: reduzir notificações push, tratar e-mails em blocos bem definidos, e tornar o estado no chat transparente (“estou em trabalho concentrado”).
  • Definir o objectivo do dia: todas as manhãs, esclarecer uma pergunta: “Se só uma coisa hoje tiver de ficar mesmo bem feita - qual é?”

Porque a renúncia consciente aumenta a sua atractividade para chefias

Quando deixa de espalhar energia por todo o lado, passa a transmitir um tipo diferente de profissionalismo. As chefias conseguem perceber com mais clareza pelo que esta pessoa se distingue: profundidade analítica, pensamento estratégico, resultados nítidos. O perfil ganha contornos e o contributo torna-se mais diferenciador.

Curiosamente, quem sabe limitar-se tende a parecer mais seguro. Dá a ideia de conhecer a própria capacidade, estabelecer limites saudáveis e tomar decisões com intenção. É precisamente isto que se exige em funções mais exigentes - e não a figura do colaborador inquieto que encaixa tudo “entre uma coisa e outra”.

Perspectivas adicionais: o que costuma estar por trás do “fazer sempre tudo”

Por trás do impulso de aceitar qualquer tarefa, existem muitas vezes motivos mais profundos: medo de parecer preguiçoso, receio de perder o emprego, necessidade de reconhecimento e, por vezes, perfeccionismo. Muita gente aprendeu na escola ou na universidade que só é “suficientemente boa” quando se esforça ao máximo.

No contexto empresarial, esta postura transforma-se facilmente em auto-sabotagem. Em vez de se proteger, a pessoa põe em risco, a longo prazo, a saúde e as oportunidades de desenvolvimento. Quem reconhece isto em si pode agir de forma dirigida - por exemplo, através de conversas claras com a chefia sobre prioridades, de coaching ou do treino consciente de pausas.

A longo prazo, carreiras não beneficiam de activismo cego, mas de escolhas inteligentes: que projecto me faz crescer tecnicamente? Onde consigo entregar valor real? Que tarefas devo delegar para que as minhas forças fiquem mesmo visíveis?

Quem responde seriamente a estas perguntas e vai abandonando, passo a passo, o reflexo destrutivo de “fazer tudo”, não trabalha menos - finalmente trabalha de uma forma em que desempenho, saúde e carreira se reforçam mutuamente.


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