Enquanto a indústria automóvel europeia lida com um conjunto de dificuldades, no outro lado do planeta o panorama também não é propriamente tranquilizador. Na China, o setor automóvel vive um momento de forte agitação e, após vários anos de expansão acelerada - alimentada por subsídios e por uma guerra de preços inédita -, 2026 poderá assinalar uma mudança decisiva no maior mercado automóvel do mundo.
De resto, analistas chineses e vários órgãos de comunicação locais já admitem, sem grandes rodeios, que até 50 marcas domésticas de automóveis elétricos poderão, em 2026, encolher drasticamente a atividade ou mesmo encerrar. Em paralelo, as projeções apontam para uma contração do mercado que pode chegar aos 5%, a maior desde 2020. À primeira vista parece pouco, mas num país que vendeu mais de 30 milhões de carros em 2025, isso representa menos 1,5 milhões de carros entregues.
É precisamente este contexto que procuramos explicar neste episódio do Auto Rádio, o podcast da Razão Automóvel com o apoio do Pisca Pisca: o que está a acontecer na China e de que forma esta turbulência pode vir a refletir-se no mercado automóvel europeu.
Guerra de preços sem igual
Apesar de os construtores chineses estarem a ganhar dimensão na Europa e em muitas outras regiões, dentro de portas o mercado chinês está claramente saturado. Desde 2023 que a concorrência se transformou numa guerra de preços que está a esmagar a rentabilidade das marcas. Mesmo com tentativas de Pequim para travar as reduções, não são apenas os fabricantes locais a baixar valores: também grupos estrangeiros como a BMW, GM ou Volkswagen continuam a cortar nos preços, por vezes de forma significativa.
A este cenário soma-se um fator estrutural que aumenta a instabilidade: a sobrecapacidade. A China dispõe de capacidade instalada para produzir 50 milhões de automóveis por ano, mas a utilização ronda apenas os 50%.
Os subsídios estatais - que durante anos suportaram a produção e facilitaram cortes agressivos nos preços - acabam por distorcer o funcionamento do mercado. Ao manterem ativas marcas que não são rentáveis, atrasam a correção natural do setor. Na prática, apenas uma fatia reduzida dos fabricantes consegue operar com lucro, enquanto muitos procuram no exterior uma forma de compensar a saturação doméstica. No Auto Rádio, aprofundamos estas causas e apresentamos exemplos.
Crescimento a desacelerar
Os sinais de alerta já atingem também alguns dos maiores construtores chineses. Embora continuem a crescer, vários já não evoluem ao ritmo que tinham previsto e, em determinados casos, isso começa a levantar dúvidas sobre a viabilidade a longo prazo.
Até a BYD, o maior construtor chinês - e o maior construtor mundial de elétricos, depois de ter ultrapassado a Tesla em 2025 -, ficou a 900 mil vendas de alcançar as metas definidas para 2025. Ainda assim, as 4,6 milhões de unidades colocam a BYD como a quarta marca automóvel mais vendida do mundo. E não é caso único: a Chery e a GWM enfrentam desafios semelhantes.
Em contrapartida, houve quem tivesse surpreendido em 2025 com resultados acima do esperado. Geely, Leapmotor, XPeng e Xiaomi não só bateram os objetivos como, em alguns casos, o fizeram por uma margem considerável.
O problema de fundo é que a China continua a ter um número muito elevado de marcas domésticas. Em 2019 existiam à volta de 500 marcas; em 2025, o total já desceu para cerca de 100. E algumas estimativas vão ainda mais longe, sugerindo que poderão restar apenas 18 marcas chinesas tão cedo quanto em 2028. No ano passado, pela primeira vez, nasceram menos marcas na China do que aquelas que desapareceram.
A consolidação que se avizinha promete ser, nas palavras de Stella Li, vice-presidente executiva da BYD, um “banho de sangue”. Para além dos motivos já referidos, no Auto Rádio abordamos outras causas e partilhamos mais dados sobre o estado atual do maior mercado automóvel do mundo: a China.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões não faltam, por isso, para ver/ouvir o mais recente episódio do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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