Elon Musk conta como passou a distinguir, de facto, boas pessoas.
Quem já esteve do lado de quem recruta numa entrevista de emprego conhece bem o dilema: currículos brilhantes, excelentes a vender-se - e, no dia a dia, a coisa não encaixa. Elon Musk, líder da Tesla, SpaceX e X, fala sem rodeios sobre quantas vezes se deixou enganar por isso - e sobre o critério que hoje pesa mais do que qualquer diploma.
Elon Musk admite: deixou-se impressionar por grandes nomes
Durante muito tempo, no Silicon Valley, vigorou uma regra simples: se alguém vinha de uma gigante como a Google ou a Apple, então tinha de ser um talento fora de série. Musk reconhece que também caiu nessa armadilha. Partiu do princípio de que um grande nome no currículo era sinónimo de desempenho - e descobriu que não é assim tão linear.
"Um grande nome no currículo parece impressionante - mas diz surpreendentemente pouco sobre se alguém vai mesmo render no novo emprego."
O empresário descreve que contratou candidatos que, no papel, pareciam impecáveis. Na prática, entregavam muito menos do que o currículo prometia. E, pelo contrário, pessoas excelentes quase ficavam pelo caminho logo na entrevista, por serem inseguras ou por não conseguirem “vender” tão bem o que sabiam fazer.
“Não olhar para o currículo - ouvir a conversa”
Dessa experiência, Musk diz ter tirado uma regra bastante radical para si. O conselho central, tanto para quem recruta como para quem se candidata, é claro: reduzir o poder do currículo e dar prioridade ao que se revela numa conversa real.
"Para Musk, ao fim de cerca de 20 minutos de conversa, vale mais do que qualquer percurso: a troca soa convincente, honesta e tecnicamente sólida - ou não?"
A lógica dele é simples: um CV pode ser polido, enfeitado e estrategicamente montado. Já uma conversa aberta sobre problemas e projectos concretos tende a expor depressa quem só repete frases feitas - e quem, de facto, tem competências.
O que Musk quer ouvir numa entrevista
O foco de Musk não está tanto em palavras-chave, mas na forma como a pessoa pensa e trabalha. Entre os sinais típicos a que presta atenção, estão:
- Os candidatos conseguem descrever problemas anteriores com detalhe - não apenas resultados, mas também falhas e correcções.
- Assumem responsabilidade pelas decisões, em vez de atribuírem tudo “à equipa”.
- Explicam temas complexos de forma que um leigo pelo menos compreenda o essencial.
- Fazem, eles próprios, perguntas difíceis sobre a empresa e sobre a função.
Quem depende de fórmulas padrão e respostas decoradas, nesta abordagem, acaba por ficar rapidamente exposto.
As quatro características que, para Musk, estão acima de tudo
Musk aponta uma combinação de traços que, hoje, considera determinantes - bem à frente de notas, diplomas ou nomes de antigos empregadores:
- Confiabilidade - A pessoa cumpre o que promete? Assume os erros com transparência?
- Inteligência e talento - Nota-se pensamento estruturado, rapidez de compreensão, domínio técnico?
- Vontade de trabalhar - Há disponibilidade para se empenhar, assumir responsabilidade e persistir?
- Bondade e carácter - Trata os outros com justiça? Mantém o respeito sob pressão?
"O conhecimento técnico pode afinar-se. O carácter, a motivação e a confiabilidade são muito mais difíceis de mudar."
O mais chamativo é Musk sublinhar explicitamente a “bondade”. Ele próprio admite que, durante muito tempo, desvalorizou esta dimensão mais humana. Pessoas inteligentes, trabalhadoras e resistentes, mas que tratam os outros com desrespeito, acabam por destruir equipas a médio prazo.
Porque é que “boas pessoas” são essenciais em equipas de alta performance
Especialmente em empresas tecnológicas, há muitos egos à mesa. Musk reforça que não se devem minimizar os efeitos de um top performer tóxico no longo prazo. Um único colaborador muito capaz, mas destrutivo, pode:
- afastar membros da equipa que, de outra forma, ficariam;
- aumentar conflitos em vez de os resolver;
- reter conhecimento para parecer mais indispensável;
- atrasar decisões, porque surgem constantemente jogos de poder.
Já quem é forte tecnicamente e, ao mesmo tempo, justo e construtivo com os outros, cria confiança. E a confiança torna as equipas mais rápidas, mais ousadas e mais estáveis - precisamente o que Musk diz precisar em projectos extremamente ambiciosos.
Musk e a sua visão frequentemente radical sobre desempenho
Mesmo dando relevo ao carácter, Musk mantém uma exigência inegociável: resultados. Em termos práticos, diz preferir pessoas que entregam - e não suportar quem, de forma persistente, não entrega.
"Para ele, a conta é simples: quem trabalha de forma eficaz tem apoio. Quem fica consistentemente abaixo do esperado torna-se um problema."
É uma posição que tende a dividir opiniões. Em Portugal e na Europa, entram muitas vezes na equação temas como segurança no emprego, estruturas de representação dos trabalhadores e cultura de aprendizagem com o erro. Musk, pelo contrário, é associado a uma cultura de alta velocidade, em que os colaboradores têm de provar valor e há pouca margem para períodos longos de adaptação.
O que os candidatos podem, na prática, aproveitar
O conselho de Musk não se dirige apenas a líderes: também funciona, indirectamente, como guia para quem se candidata. Ao preparar-se para uma entrevista, a pergunta muda: que impressão deixo quando o currículo é secundário e a conversa é decisiva?
Três dicas práticas para candidatos
- Rever projectos próprios: escolha duas ou três experiências que consiga explicar em profundidade - com objectivos, obstáculos, decisões e resultados.
- Falar de fraquezas com honestidade: reconhecer erros e mostrar o que aprendeu transmite mais credibilidade do que tentar parecer perfeito.
- Ter a motivação bem definida: Musk valoriza muito o impulso e a paixão. Quem consegue explicar por que motivo aquela tarefa, em particular, o entusiasma, destaca-se.
No sector tecnológico, cresce a importância de perceber se alguém está verdadeiramente envolvido com o tema - ou se está apenas à procura de “um emprego”. E essa tendência já se vê em muitas outras áreas, de empresas tradicionais a start-ups.
O que os recursos humanos podem aprender com a abordagem de Musk
O método de Musk não se aplica, tal e qual, a todas as organizações, mas oferece bons pontos de reflexão para estratégias de recrutamento. Algumas adaptações possíveis:
- Dar menos peso ao currículo: manter o CV como filtro inicial, mas, na entrevista, insistir em exemplos concretos e em resolução de problemas.
- Conversas técnicas mais estruturadas: preparar perguntas que obriguem a ir ao detalhe - “Como é que procedeu, concretamente, quando…?” em vez de “Onde se vê daqui a cinco anos?”
- Avaliar também o carácter: descrever situações e perguntar “Como reagiria?” - sobretudo em conflitos, erros e pressão.
- Trabalho experimental ou tarefas de teste: exercícios pequenos e realistas mostram, em pouco tempo, como a pessoa raciocina e executa.
Muitos destes elementos podem ser introduzidos mesmo em processos mais tradicionais, sem “rebentar” com o modelo de recrutamento. Só reforçar a centralidade da conversa real, em vez do papel, pode aumentar bastante a probabilidade de acerto.
Musk, o trabalho e o papel da AI
Musk comenta com frequência temas ligados a trabalho, carreira e futuro da economia. Gosta de provocar e de desafiar conselhos convencionais. Noutro contexto, por exemplo, avançou com a ideia de que poupar poderá perder importância no futuro, caso a IA inaugure uma era de abundância - com um rendimento básico incondicional como possível consequência.
Se essa visão se concretiza ou não, ninguém sabe. Para o mercado de trabalho actual, o conselho que deixa é bem mais terreno: decisões de contratação devem depender menos de sinais exteriores e mais da impressão real numa boa conversa. Empresas que o façam reduzem o risco de más contratações dispendiosas. Candidatos que apostem em substância, e não em espectáculo, aumentam a hipótese de conseguir um cargo que encaixe mesmo.
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