A situação nos mercados energéticos continua tensa. A guerra no Médio Oriente e a interrupção da rota marítima através do Estreito de Ormuz estão a empurrar o preço do petróleo para cima. A Agência Internacional da Energia (AIE) alerta para efeitos palpáveis nas famílias e nas empresas - e apresenta um conjunto de dez medidas concretas que permitem a países, organizações e agregados familiares reduzir de forma significativa o consumo de petróleo.
Porque é que a AIE está agora a pressionar para poupar petróleo
A missão da AIE passa por proteger a segurança do abastecimento energético nos seus países-membros. Quando o petróleo escasseia ou encarece de forma acentuada, economias inteiras podem entrar em turbulência. É precisamente esse risco que a entidade sublinha no seu relatório mais recente.
A agência fala de “impactos cada vez mais graves” sobre os mercados de energia e sobre a economia, caso o conflito no Médio Oriente não seja rapidamente desanuviado.
Para amortecer um choque de preços, a AIE já decidiu avançar com a libertação de reservas estratégicas de petróleo: cerca de 400 milhões de barris de crude deverão chegar gradualmente ao mercado - a maior intervenção nas reservas de emergência em toda a história da instituição. Em paralelo, a agência aposta numa outra ferramenta, menos visível mas com efeito direto: reduzir o consumo no dia a dia.
A lógica é simples: cada deslocação que não se faz, cada voo evitado e cada quilowatt-hora assegurado por eletricidade em vez de gás contribui para baixar a procura global de petróleo - e, assim, alivia a pressão sobre os preços e sobre os níveis de armazenamento.
As 10 recomendações da AIE num relance
As propostas não se destinam apenas a governos: incluem também empresas e famílias. Uma parte importante pode ser aplicada sem grandes investimentos.
- Mais teletrabalho em vez de deslocações pendulares
- Reduzir a velocidade nas autoestradas
- Dar prioridade a autocarro, comboio e bicicleta em vez do carro
- Restrições alternadas à circulação em grandes metrópoles
- Aumentar as boleias/partilha de carro
- Treinar uma condução de baixo consumo
- Reservar mais gás de petróleo liquefeito para necessidades básicas essenciais
- Reduzir viagens de negócios de avião
- Cozinhar com eletricidade em vez de gás
- Otimizar matérias-primas e processos na indústria
O que, à primeira vista, pode soar a conselhos clássicos ligados ao clima é, neste caso, pensado sobretudo como um pacote de emergência perante um possível aperto na oferta de petróleo. Ainda assim, muitos destes passos encaixam facilmente com objetivos de proteção do clima.
Mais teletrabalho e menos velocidade: que impacto pode ter
Teletrabalho como alavanca contra o tráfego pendular
A AIE aponta o teletrabalho como uma das formas mais rápidas de atuar. Cada dia sem deslocação para o trabalho reduz o consumo de combustível, sobretudo em zonas onde grande parte dos trabalhadores depende do automóvel para chegar ao escritório. Quem consegue trabalhar a partir de casa dois ou três dias por semana diminui de forma clara o seu gasto individual de combustível.
Para as empresas, também há ganhos: menos tempo perdido em congestionamentos, menores custos com estacionamento e, em alguns casos, mais produtividade. Para funcionar, é essencial haver ligações à Internet estáveis, horários bem definidos e uma relação de confiança entre empregadores e trabalhadores.
Tirar o pé do acelerador: menos velocidade, menos consumo
A agência propõe reduzir, nas autoestradas, a velocidade de forma generalizada em pelo menos 10 km/h. A razão é direta: a velocidades mais altas, a resistência do ar cresce de forma acentuada e o motor precisa de muito mais energia.
Quem, em vez de 140, circular a 120 km/h pode poupar, dependendo do tipo de veículo, várias décimas de litro por cada 100 quilómetros. À escala de milhões de viagens, a diferença torna-se relevante - tanto no consumo total como no orçamento de cada condutor.
Mudar de modo, partilhar, conduzir com eficiência
Transportes públicos e alternativas ao automóvel
A AIE apela a que, sempre que possível, se privilegie autocarro e comboio. Nas cidades, entram também a bicicleta e as trotinetes elétricas. Cada trajeto que deixa de ser feito num carro com motor de combustão reduz a necessidade de petróleo, porque os transportes públicos tendem a ser muito mais eficientes por passageiro.
Nas grandes metrópoles, a entidade coloca ainda em cima da mesa uma medida adicional: proibições alternadas de circulação com base na matrícula. Muitos recordam modelos semelhantes de períodos de poluição elevada. O objetivo é reduzir congestionamentos e, com isso, o “para-arranca”, uma situação em que os motores tendem a consumir mais.
Boleias e condução antecipada
Mesmo sem mudar de veículo, há margem para poupar dentro do tráfego automóvel. Partilhar o carro em vez de cada pessoa seguir sozinha parece óbvio, mas tem impacto: se três pessoas viajam no mesmo automóvel, o consumo passa a ser distribuído por três.
Conta também a forma como se conduz. A AIE recomenda uma “condução eficiente”. Isso inclui, por exemplo:
- mudar cedo para uma mudança mais alta e usar rotações baixas;
- desligar o motor em paragens mais longas;
- verificar regularmente a pressão dos pneus;
- evitar caixas de tejadilho desnecessárias e peso extra;
- usar o ar condicionado apenas tanto quanto necessário.
Nas escolas de condução, fala-se aqui de “eco driving”. Estudos indicam que, assim, é frequente poupar cinco a dez por cento de combustível - sem necessidade de trocar de tecnologia.
Voos, fogão a gás, indústria: onde ainda há margem
Menos viagens de negócios de avião
Outra alavanca relevante está na aviação. A AIE aponta explicitamente para as viagens de negócios de avião. As videoconferências e os formatos híbridos consolidaram-se desde a pandemia. Muitas deslocações profissionais podem, por isso, ser eliminadas ou substituídas por viagens de comboio.
O combustível de aviação é um produto específico derivado do crude. Se a procura no transporte aéreo descer, isso reflete-se diretamente na procura global de petróleo. As empresas conseguem, deste modo, limitar custos de deslocação e, ao mesmo tempo, demonstrar sentido de responsabilidade.
Eletricidade em vez de gás ao cozinhar e ao aquecer
A entidade recomenda que, sempre que possível, se passe a cozinhar com eletricidade. Quem já tem placa de indução, por definição, está a trabalhar de forma totalmente elétrica. Em casas onde ainda se usam fogões e fornos a gás, compensa olhar com atenção: muitas vezes, dá para transferir pelo menos parte das tarefas para aparelhos elétricos - como chaleira elétrica, micro-ondas ou pequenos fornos de bancada.
Há ainda um ponto relativo ao gás de petróleo liquefeito (LPG). A AIE sugere que veículos capazes de funcionar tanto a LPG como a gasolina sejam operados preferencialmente a gasolina, de modo a reservar o LPG para cozinhar e outras necessidades básicas. Assim, o gás mantém-se disponível onde é mais difícil substituí-lo.
Indústria: ajustar matérias-primas e manutenção
Por fim, a AIE dirige-se à indústria, com destaque para o setor químico. Onde o petróleo é usado como matéria-prima, é possível, em muitos casos, recorrer a pré-produtos alternativos ou melhorar processos. A agência defende que se aproveite melhor a flexibilidade nas matérias-primas petroquímicas de base e que se implementem, no curto prazo, medidas de eficiência e manutenção.
Entre essas medidas contam-se, por exemplo:
- aumentar a recuperação de calor nas instalações;
- reparar rapidamente fugas em sistemas de vapor e de ar comprimido;
- afinar os queimadores de forma ótima;
- programar processos de maior consumo energético para períodos com menor carga na rede.
Estas ações não só reduzem a necessidade de petróleo, como também cortam custos de energia e diminuem o risco de paragens imprevistas.
O que isto significa para famílias e política no espaço de língua alemã
Muitas das medidas podem ser aplicadas de imediato no quotidiano, sem grandes debates políticos: acrescentar uma semana de teletrabalho, trocar um voo doméstico por uma viagem de comboio, ou organizar boleias com colegas. Ao combinar vários destes passos, os efeitos tornam-se rapidamente visíveis.
Ao mesmo tempo, são necessários enquadramentos políticos: oferta atrativa de transportes públicos, ciclovias seguras, regras claras para limites de velocidade e incentivos para formações de condução económica. Em períodos de mercado sob tensão, pacotes deste tipo ajudam a suavizar picos de preço e a reduzir a dependência de regiões específicas de produção.
As recomendações da AIE mostram que a segurança energética não depende apenas de reservas gigantes e oleodutos, mas também de inúmeras decisões pequenas no dia a dia. Quanto mais pessoas e empresas aderirem, menor tende a ser a pressão sobre os preços - e maior, por arrasto, o efeito positivo no clima.
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