A primeira vez que a Maya me mostrou o quarto que alugava enquanto estudante, desatou a rir mal empurrou a porta.
“Bem-vinda à suite de luxo”, disse ela, dando-lhe um jeito com o ombro - a fechadura encravava sempre. O cheiro chegava antes da luz: humidade, óleo frito, e qualquer coisa parecida com cartão encharcado. Uma nesga de claridade escapava por umas cortinas que nunca fechavam bem, tocando numa parede inchada de bolor atrás da cama.
No tecto da cozinha, uma mancha castanha abria-se como uma explosão lenta, mesmo por cima de uma fila de tachos todos diferentes. Num dos canos, alguém tinha prendido um saco de plástico com fita-cola, e o saco cedia com água amarelada lá dentro. A renda? Mais alta do que o meu primeiro salário a tempo inteiro. O senhorio? “Diz que isto é ‘normal em prédios antigos’.”
Mais tarde, sentadas num sofá estreito que afundava no meio, a Maya percorreu um grupo de mensagens chamado “Sobreviventes da Uni no Bairro de Lata”. Centenas de fotografias, dezenas de relatos. No chat, toda a gente se ria. Na vida real, ninguém estava bem.
O escândalo escondido por trás das portas dos estudantes
Vistos da rua, muitos alojamentos de estudantes parecem inofensivos. Um pouco degradados, sim, mas nada que grite “perigo para a saúde”. Tinta a descascar, um contentor do lixo a transbordar, talvez uma bicicleta avariada no quintal. É quando a porta se abre que a outra realidade começa a aparecer.
Em muitas cidades, os estudantes estão a perceber que o que pagam e o que recebem são coisas muito diferentes. Janelas rachadas tapadas com fita-cola. Quartos sem aquecimento a funcionar em Janeiro. Duches que, sempre que alguém lava o cabelo, fazem a cozinha do piso de baixo inundar.
O mais assustador nem sempre é a podridão ou as pragas. É a facilidade com que toda a gente diz que isto é normal.
Basta falar com um grupo de estudantes e os casos vêm ao de cima. A Emma, do segundo ano de Psicologia, mostra-me vídeos de lesmas a atravessarem a alcatifa do quarto depois de chover. “Entram pelo rodapé”, diz, meio divertida, meio exausta. O senhorio recomendou-lhe que deitasse sal e que “mantivesse o quarto arrumado”. Por aquele quarto, ela paga quase metade do empréstimo de estudante.
Noutra cidade, um grupo de alunos de Engenharia filmou cogumelos a nascerem literalmente da parede da casa de banho. O senhorio sugeriu “abrir mais a janela”. Quando denunciaram a situação à autarquia, a vistoria ficou marcada… para três meses depois. Nessa altura, dois colegas de casa já tinham desenvolvido infecções no peito que não passavam.
Algumas associações de estudantes estimam que a maioria de quem vive fora do campus já lidou com pelo menos um problema grave de habitação: humidade e bolor, electricidade perigosa, fechaduras avariadas, infestações. Os números parecem abstractos até percebermos que cada estatística é alguém a acordar a tossir, ou a dormir de camisola com capuz porque o radiador é meramente decorativo.
No papel, os inquilinos têm direitos: padrões mínimos, verificações de segurança, obrigações legais para os senhorios. Na prática, o desequilíbrio de poder paira sobre cada mensagem sobre uma fuga de água ou uma caldeira avariada. Muitos estudantes assinam contrato antes de ver a casa ao vivo, pressionados por avisos de “há pouca oferta” e “até Julho já não há nada”. Quando percebem onde se meteram, o ano lectivo já começou, a caução ficou presa, e mudar significa perder dinheiro que não têm.
Os senhorios sabem disso. As agências sabem disso. Alguns são correctos e resolvem; outros arrastam o assunto, respondem devagar, prometem arranjos “para a semana”, contando com o facto de que os estudantes saem em Junho e entra um novo lote em Setembro. Contratos curtos conseguem esconder negligência prolongada.
É fácil pôr a culpa em “casas antigas” ou em “climas húmidos”. Mas a habitação abaixo do aceitável muitas vezes sobrevive porque dá lucro, não porque seja inevitável. Quanto menos se gasta em reparações e isolamento, maior é a margem no fim do ano. Quando centenas de jovens trocam mensagens a dizer “pensei que era só na minha casa”, o padrão torna-se impossível de ignorar.
O que os estudantes estão a fazer de forma diferente agora
Alguns estudantes deixaram de engolir isto em silêncio. E a mudança costuma começar com uma coisa básica: fotografias. Muitas. Antes de assinarem, têm organizado “equipas de visitas”: uma pessoa testa as torneiras, outra verifica as janelas, uma terceira aponta a lanterna para os cantos à procura de bolor. Gravem tudo no telemóvel, a narrar o que vêem como inspectores amadores.
E esses vídeos não ficam guardados. São partilhados em grupos privados no Facebook, no TikTok, em conversas de WhatsApp com legendas sem rodeios: “NÃO arrendes o 24B, há ratos nas paredes” ou “A agência andou meses a negar esta fuga”. Esta avaliação de estudante para estudante pesa mais do que qualquer brochura brilhante. É crua, por vezes caótica, mas é concreta - e espalha-se depressa.
A partir destes gestos pequenos, vai-se formando uma nova literacia de habitação, partilhada captura a captura.
Nem toda a gente quer virar activista. A maioria já anda esticada entre aulas, trabalho e a tarefa básica de sobreviver à semana. Numa terça-feira chuvosa, ninguém sonha em ler legislação do arrendamento depois de dois seminários seguidos. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.
Por isso é que circula nos chats um tipo de conselho prático, em doses curtas: confirma sempre o certificado de segurança do gás; tira fotos a todas as divisões no dia em que entras; regista cada pedido de reparação por e-mail, não só por WhatsApp. Não são grandes gestos políticos. São competências de sobrevivência.
Uma estudante de Ciências da Comunicação contou-me que o grupo dela fez, por colaboração, uma folha de cálculo com uma “lista negra de senhorios”, com cores: verde para quem responde e resolve, laranja para quem demora mas acaba por ajudar, vermelho para situações perigosas. Não era perfeito - e elas sabiam-no. Ainda assim, dava aos novos estudantes um ponto de partida que não dependia de descrições polidas em sites e de avaliações do Google demasiado entusiasmadas para serem naturais.
Da frustração, começaram também a surgir estruturas mais formais. Num campus, a campanha “Verdades da Habitação” começou como uma página simples no Instagram. Em poucas semanas, transformou-se numa sessão semanal de atendimento, onde estudantes de Direito ajudam outros a interpretar contratos e a escrever e-mails firmes mas educados para os senhorios. Iniciativas semelhantes apareceram noutras universidades: clínicas de habitação geridas por estudantes, cartas-modelo prontas a descarregar, listas de verificação para visitas.
Nessas salas há raiva, mas também um sentido discreto de competência a crescer. Quando alguém lê em voz alta uma resposta desdenhosa de um senhorio e o grupo constrói, em conjunto, uma réplica mais incisiva e sustentada na lei, sente-se a atmosfera a mudar. O medo cede lugar a algo mais sólido. Não é bravata. É clareza.
Uma estudante que organizava o grupo resumiu assim:
“Não estamos a pedir luxo. Estamos a pedir para não termos de dormir debaixo de bolor preto enquanto pagamos mais do que os nossos pais pagavam pelas prestações da casa.”
Aquela frase ficou no ar mais tempo do que qualquer outra coisa dita nessa noite.
- Tira fotografias e vídeos de tudo no primeiro dia e guarda-os numa pasta partilhada com os teus colegas de casa.
- Trata dos pedidos de reparação por e-mail, para haver registo escrito de datas e promessas.
- Partilha experiências honestas em grupos privados de estudantes para alertar outros e detectar padrões.
- Procura a tua associação de estudantes ou uma organização local de apoio à habitação - muitas dão aconselhamento gratuito e cartas-modelo.
- Lembra-te de que podes dizer não a condições inseguras, mesmo que sintas pressão para “aguentar”.
Onde isto nos deixa a todos
O alojamento estudantil não é apenas “um problema de jovens”. É um ponto de pressão que revela como um sistema de habitação inteiro trata quem tem menos poder. Quando milhares de estudantes aceitam paredes húmidas e fechaduras partidas como o preço de tirar um curso, estabelece-se, sem barulho, uma fasquia do que passa por aceitável para toda a gente.
Há algo profundamente perturbador em ver caloiros a ensaiar e-mails educados a implorar por uma caldeira a funcionar no Inverno. A nível humano, isso corrói a confiança. Na ideia de que os adultos responsáveis querem que estejam seguros. Em qualquer ilusão de que as regras valem da mesma forma para senhorios e inquilinos.
Ainda assim, há um lado mais esperançoso: esses mesmos estudantes estão a testar novas formas de resistir. Aprendem a linguagem dos contratos, apoiam-se nas histórias uns dos outros, usam as plataformas sociais não só para desabafar, mas para documentar. O escândalo da habitação degradada não vai desaparecer de um dia para o outro, mas está cada vez mais difícil de esconder atrás de portas fechadas e de fotografias desfocadas de anúncios.
Talvez por isso, quando se está numa cozinha de estudantes cheia à meia-noite e alguém menciona um tecto a pingar, já não fica tudo em silêncio. Vêm logo as respostas: “aqui também”, “tens de escrever isso”, “manda-me as fotos”. O medo continua lá, mas já não está sozinho.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Identificar um alojamento indigno | Sinais concretos: bolor e humidade, infiltrações, janelas partidas, ausência de certificados de segurança | Ajuda a evitar contratos tóxicos antes de assinar |
| Documentar cada problema | Fotografias com data, e-mails formais, pastas partilhadas entre colegas de casa | Reforça a posição do inquilino em caso de conflito |
| Apoiar-se em redes de estudantes | Grupos privados, campanhas, atendimentos de apoio à habitação | Quebra o isolamento e dá acesso a recursos concretos |
Perguntas frequentes:
- Como sei se o meu alojamento de estudante está legalmente abaixo dos padrões? Verifica o essencial: alarmes de fumo a funcionar, instalações eléctricas seguras, ausência de humidade/bolor significativos, fechaduras seguras e certificados válidos de segurança do gás e/ou da electricidade. Se algo disto falhar, organizações locais de apoio à habitação ou a tua associação de estudantes podem ajudar-te a comparar a tua situação com os padrões legais.
- O que devo fazer primeiro se o senhorio ignorar pedidos de reparação? Começa por criar um registo escrito. Envia um e-mail claro e datado a descrever o problema, junta fotografias e pede a reparação com um prazo razoável. Se não houver avanço, escala o assunto junto da agência, da associação de estudantes ou da autoridade local competente, usando esse histórico.
- Posso recusar-me a pagar renda se a casa for insegura? Reter a renda é arriscado e pode correr mal se o fizeres sozinho e sem aconselhamento. Fala primeiro com um técnico de apoio à habitação ou com um representante da associação; há alternativas mais seguras, como pedir redução de renda, apresentar queixa formal ou envolver a autarquia.
- Vale a pena denunciar maus senhorios, ou só vai trazer problemas? Muitos estudantes têm receio de “abanar o barco”, o que é compreensível. Ainda assim, denúncias anónimas através de associações ou entidades locais podem sinalizar reincidentes e proteger futuros inquilinos - não apenas tu.
- O que posso verificar rapidamente numa visita para evitar surpresas? Abre as torneiras, descarrega autoclismos, olha para o tecto, cheira a humidade, abre armários, confirma se as janelas fecham bem e pede para ver os certificados de segurança. Não precisas de ser especialista; precisas de ser curioso e um pouco teimoso.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário