A Monterey Car Week nasceu em 1950 e acontece na baía de Monterey, junto ao Pacífico - a 190 km a sul de São Francisco, nos EUA. No arranque, a ideia era simples: colocar o automóvel no centro das atenções, com corridas em vias públicas e mostras de modelos recentes, a par de alguns clássicos.
Sandra Button, presidente do Concurso de Elegância de Pebble Beach, confirma essa génese: “era apenas um evento de apoio às corridas que chamavam mais público”.
Com o tempo, a semana foi somando iniciativas sob o lema agregador Monterey Car Week, até se afirmar, para muitos, como a maior celebração automóvel do planeta. Mantém-se a tradição de decorrer todos os anos entre a segunda e a terceira semana de agosto.
Museu vivo
Voltei a marcar presença neste evento singular na Califórnia e, como é hábito, o calendário oficial da 71.ª edição da Monterey Car Week começou a 17 de agosto com a longa Viagem Motorizada de Pebble Beach: uma caravana de raridades a percorrer cerca de 1600 km pela costa do Pacífico, entre Seattle e Monterey. Alguns destes exemplares seguem depois para o ponto alto do programa, o Concurso de Elegância de domingo.
Para quem não tinha disponibilidade (ou paciência) para tantas horas ao volante de automóveis quase sempre mais desconfortáveis - acho sempre que os carros clássicos são melhores para admirar do que para experienciar… - existe a Volta de Elegância, que liga Pebble Beach à zona costeira conhecida como Big Sur. Pelo caminho, passa obrigatoriamente pela pitoresca vila de Carmel junto ao Mar e regressa a Pebble Beach pela sinuosa Estrada das 17 Milhas.
A paisagem, por aqui, impõe-se: costa recortada, árvores muito altas e, inevitavelmente, o Cipreste Solitário, árvore-símbolo da Península de Monterey que surge nos uniformes da polícia local, em bandeiras municipais e noutros elementos identitários.
“Quem dá mais?”
A meio da semana, entram em cena vários leilões, organizados por casas com o prestígio e o saber-fazer da Gooding & Company (leiloeira oficial do evento), da Bonhams ou da RM Sotheby’s. A dinâmica existe desde o início dos anos 90 (esta foi a 18.ª edição) e, hoje, esta paragem é das mais reputadas e concorridas a nível mundial.
Mesmo sem bater o máximo unitário de 2018, os leilões de Monterey atingiram este ano uma nova soma recorde: 469 milhões de dólares (aprox. 473 milhões dólares), ultrapassando o anterior melhor registo, de 395 milhões (398,3 milhões de euros), estabelecido em 2015.
No relatório disponibilizado pela seguradora Hagerty, surge ainda que foram leiloados 790 veículos clássicos de um total de 956 - uma taxa de sucesso superior a 80% - e que mais de uma centena mudou de mãos por valores acima de um milhão de dólares.
A casa em maior evidência voltou a ser a RM Sotheby’s, responsável pela venda mais cara da semana: um Ferrari 410 Sport Spider de 1955, arrematado por 22,005 milhões de dólares, ainda assim abaixo da estimativa, situada entre 25 e 30 milhões.
Bem mais longe ficou a Gooding & Company, com um Bugatti Type 57 Atalante de 1937 a encontrar novo proprietário por 10,345 milhões de dólares.
Seguiram-se, todos transacionados pela RM Sotheby’s, os Mercedes-Benz 540 K de 1937 (9,905 milhões de dólares), o Hispano-Suiza H6C Torpedo de 1924 (9,245 milhões de dólares) e o Ferrari 500 TRC Spider de 1957 (7,815 milhões de dólares).
Em paralelo, decorreram outras exposições, de escala e relevância muito distintas.
O “Concurso Italiano” deu particular protagonismo aos 75 anos da Ferrari, assinalados este ano, 2022, com direito a desfile. Já as “Lendas das autoestradas alemãs” prestaram homenagem aos modelos germânicos mais velozes nos que são, também, alguns dos asfalto públicos mais rápidos do mundo.
O “Concurso Limões” (limões) afasta-se radicalmente dos restantes, reunindo veículos com genes de aberração e outros em avançado estado de decomposição, capazes de provocar nos visitantes caretas semelhantes às que fazemos quando provamos a acidez do fruto na sua forma mais natural).
Ao longo de vários eventos, não faltam tendas carregadas de memorabilia automobilística, quadros (alguns pintados ao vivo, diante dos carros), esculturas e outros objetos que seduzem os colecionadores.
Um salão automóvel gourmet
Na sexta-feira realizou-se a 19.ª edição de “A Codorniz - Um Encontro de Desporto Motorizado”, iniciativa que, pouco a pouco, se tem tornado numa alternativa aos antigos salões automóveis, hoje cada vez mais próximos da extinção.
Cada um dos 3500 visitantes (lotação limitada) paga 1500 dólares (1506 euros) - ainda assim, menos do que os bilhetes mais caros do concurso de elegância de domingo, que chegam aos 3000 dólares - para circular (e não só) num relvado artificial impecavelmente cuidado, entre automóveis clássicos e, cada vez mais, novidades acabadas de ser apresentadas.
Quase tudo com preços que pedem muitas dezenas ou mesmo centenas de milhares de dólares/euros para ir para casa, incluindo protótipos que, em muitos casos, deixaram de ter palcos à altura para se mostrarem. No fundo, um salão automóvel para ricos… com muita novidade.
Ilustre companhia
Para lá dos carros - e dos visitantes mais ou menos excêntricos - também se cruzam por aqui várias figuras conhecidas do universo automóvel, como Mary Barra, diretora executiva da General Motors, ou Franz von Holzhausen, responsável máximo pelo desenho na Tesla.
Adrian Hallmark, diretor executivo da Bentley, também marcou presença e acabou por ser «vítima» de um encontrão suave e discretamente involuntário, enquanto observava uma das relíquias da Bentley que brilhou em Le Mans. “o seu próximo carro de serviço?” atiro, à falta de melhor inspiração, para uma resposta bem disposta do presidente da aristocrática marca britânica: “nem nos meus sonhos mais ousados”.
Este tipo de encontros com dirigentes, responsáveis de estilo ou até pilotos repete-se com frequência durante toda a Monterey Car Week (muitos são jurados honorários do Concurso de Elegância de Pebble Beach). Nota-se, aliás, um ambiente descontraído: reconhecem-nos e ainda se dão ao trabalho de trocar algumas impressões com um jornalista com quem conversaram uma mão-cheia de vezes na vida.
Alguns encontros são acidentais; outros nem tanto, como o que tive com o “sr. Le Mans” no dia seguinte, no circuito de Laguna Seca, palco da Reunião de Desporto Motorizado: “sim, é verdade, há uns 20 anos fizemos juntos uma viagem de Sevilha a Montecarlo numa pequena caravana de Bentley Continental GT”, diz-me Tom Kristensen, recordista absoluto de vitórias na 24 Horas de Le Mans (nada menos que nove).
É uma honra, claro (e foram, exatamente, 20 anos), daquelas que insuflam o ego mesmo antes de arrancar para duas voltas ao traçado de Laguna Seca, ao volante de um Audi e-tron GT, a tentar não perder o contacto com Kristensen - algo que só foi possível porque o campeoníssimo dinamarquês não passou dos 60% da sua potencial rapidez.
Quando a experiência termina, saio do e-tron GT e quase sou abalroado por Henri Pescarolo, que segue a um ritmo quase tão acelerado quanto o que usou na derradeira das 33 edições de Le Mans em que participou (o que faz dele o recordista de presenças).
A explicação está numa das iniciativas da Reunião de Desporto Motorizado: a largada “à Le Mans”, isto é, com pilotos a correrem - ou em passo dobrado, a poupar as «juntas» - até às suas máquinas, para entrarem e saírem disparados, num instante que celebra e reencena o passado.
Celebrar um século de Le Mans
Quase sem dar por isso, já estamos mergulhados no circuito de Laguna Seca, onde, em 2022, as grandes estrelas da Monterey Car Week são os vencedores de Le Mans ao longo dos seus 100 anos.
O Automobile Club de L’Ouest contactou os organizadores da Monterey Car Week para que aqui se desse o arranque das celebrações do centenário (1923-2023) da corrida mais emblemática do mundo, e a parceria surgiu com naturalidade.
“Esta é a mais completa e numerosa coleção de carros que correram em Le Mans alguma vez reunida nos EUA” explica, com evidente orgulho, Barry Topke, diretor de eventos clássicos e de relações públicas neste circuito. Ao todo, são muitos - e meia centena foram vencedores (absolutos ou das respetivas categorias) ao longo do último século.
A Monterey Car Week também inclui corridas (realizadas aqui desde 1974), juntando mais de 500 clássicos - sobretudo europeus e americanos - distribuídos por 14 grupos, com quatro categorias dedicadas apenas a carros de Le Mans (1923-55, 1956-71, 1972-1982, 1981-2005).
Laguna Seca é célebre pela secção do “saca-rolhas”: um “s” de descida muito acentuada, de 18 m, com entrada «cega». E Jim Farley, presidente da Ford Motor Company, teve a sorte de a enfrentar repetidas vezes ao longo destes dias.
A razão foi simples: alternou entre dois carros de competição, um Shelby Cobra 289 de 1966 e um Lola T298 da classe Le Mans 1972-82, terminando em segundo nas respetivas classes - à frente dele e do seu Lola ficou um tal de Dario Franchitti, multi-campeão na Indycar, nas 500 milhas de Indianápolis e nas 24 Horas de Daytona,
Importância dos jurados e jurados importantes
Para serem aceites no Concurso de Elegância de Pebble Beach, os candidatos têm de submeter a inscrição à organização até ao início de janeiro. Os automóveis devem apresentar um restauro/conservação irrepreensível e, idealmente, não ter passado por outros concursos - ou pelo próprio Pebble Beach - nos 10 anos anteriores.
A lista final é tornada pública em abril, já com a divisão por categorias: há as “residentes” e as especiais, que mudam de ano para ano, perfazendo 27 categorias em 2022.
Antes de enfrentarem o crivo exigente dos jurados honorários - onde se sentam responsáveis de desenho, dirigentes de topo e outros especialistas ligados às maiores marcas mundiais - os candidatos passam por uma avaliação igualmente competente, conduzida por peritos.
Um deles é Ken Gross, jurado há mais de três décadas e uma verdadeira enciclopédia ambulante no que toca a modelos classificados como carros preparados.
Os 90 anos do histórico Ford Roadster de 1932 serviram de base para a escolha desta classe (Carros Preparados Históricos Ford) e Gross define-a com rigor: “carros anteriores a 1960, modificados, com pouca carenagem, motor musculado e travões a condizer”. É disto que se faz um especialista.
As classes de 2022
Ainda assim, a classe Carros Preparados Históricos Ford é apenas uma das oito categorias especiais de 2022. Eis as restantes:
- Centenário Lincoln - celebração dos 100 anos desde que Henry Ford comprou a marca americana, então falida;
- Propulsão pouco ortodoxa - soluções muito alternativas, como um carro movido a madeira, outro a carvão ou ainda dois veículos sem embraiagem e com pedais para o arranque;
- Talbot-Lago Grand Sports - existem apenas 28 dos 32 exemplares fabricados no final dos anos 40;
- Carroçaria Hermann Graber - carroçador suíço conhecido pelo bom gosto na execução de descapotáveis e coupés entre 1925 e 1970;
- Alfa Romeo 8C 2300 - considerado por muitos colecionadores o automóvel de turismo mais avançado de sempre;
- McFarlan - o “Rolls-Royce” americano, com produção entre 1910 e 1928, de que resistem apenas 20 unidades;
- Otto Vu - Fiat que pensava que era um Ferrari, com motor V8, usado entre 1952 e 1954 por alguns carroçadores de renome mundial;
- Centenário de Le Mans - oito dos carros na passadeira verde de Pebble Beach ainda deitavam fumo, acabados de chegar do circuito.
Ken Gross esclarece que “cada ano a escolha das categorias é feita com uma preocupação de criatividade, evitando que se repitam ou, no mínimo, que sejam variações inéditas”.
Best of show!
No desfile de domingo à tarde, só os três primeiros de cada classe ganham o direito de atravessar a passarela; porém, apenas o vencedor de cada uma das quase três dezenas de categorias garante lugar no desfile final, o mais glamoroso.
Na 71.ª edição, o Concurso de Elegância distinguiu como “Best of Show” o Duesenberg J Figoni Sports Torpedo, de 1932, propriedade de Lee R. Anderson Sr. Trata-se de um exemplar único do fabricante americano, que passa a ser também o mais premiado na história septuagenária de Pebble Beach (soma agora sete títulos).
Sandra Button, presidente da organização, sublinhou “o casamento da potência do motor americano com a criatividade do carroçador europeu”, numa vitória muito celebrada pelos proprietários deste clássico, que chegou a ter o chassis separado da carroçaria antes de avançar o complexo processo de restauro.
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