A Arábia Saudita está a preparar um plano que parece saído de ficção científica: uma colossal artéria de água subterrânea destinada a garantir água potável a um país de deserto e poeira.
O reino do Golfo tem petróleo em abundância, mas não tem rios. Não existe qualquer curso de água natural - nem rio, nem lago, nem ribeiro - e, ao mesmo tempo, a população cresce, a indústria expande-se e a sede do país aumenta. A resposta de Riade passa agora por uma aposta tecnológica de escala extrema: água do mar dessalinizada, bombeada através de uma ranhura subterrânea com milhares de quilómetros, até ao coração do deserto.
Um país desértico sem rios recorre a medidas extremas
A Arábia Saudita situa-se numa das zonas mais áridas do planeta e não dispõe de um único curso de água natural. A precipitação é rara, as reservas de água subterrânea têm vindo a diminuir há anos e os períodos de calor tornam-se mais prolongados.
As alterações climáticas agravam ainda mais o cenário. Secas mais longas, temperaturas extremas acima de 45 °C e um consumo de água em rápida subida estão a pressionar a infraestrutura. Agricultura, indústria e grandes cidades como Riade ou Jedá disputam o mesmo recurso limitado.
Sem apoio técnico, a Arábia Saudita teria, a longo prazo, um problema massivo de água potável - apesar da sua riqueza petrolífera.
Para travar esta trajectória, o reino tem investido fortemente, há anos, na dessalinização de água do mar. Actualmente, o país é considerado um dos principais actores mundiais nesta tecnologia.
31 centrais de dessalinização - e isto é apenas o começo
Ao longo das costas oriental e ocidental já existem dezenas de unidades que transformam água do mar em água para consumo. De acordo com dados oficiais, estão em funcionamento 31 centrais, distribuídas por vários pontos estratégicos no Mar Vermelho e no Golfo Pérsico.
No conjunto, estas instalações deverão fornecer cerca de 9,4 milhões de metros cúbicos de água tratada por dia. É um volume suficiente para abastecer milhões de pessoas e manter a indústria e a agricultura a funcionar - com uma condição: a água tem de chegar, de forma fiável, a todas as regiões do país.
É precisamente aqui que entra o novo megaprojecto: o Governo pretende deixar de depender de uma distribuição apenas pontual e passar a enviar a água dessalinizada como uma artéria contínua, atravessando o território de ponta a ponta.
A “conduta-rio” subterrânea através do deserto
A ideia é tão impressionante quanto ambiciosa: construir uma ranhura subterrânea que funcione como um rio técnico ao longo do país. Na prática, não se trata de um rio a céu aberto, mas de um enorme canal subterrâneo com sistemas de tubagens associados.
Está prevista uma via artificial de água com cerca de 12.000 quilómetros de extensão. É, aproximadamente, a distância entre Berlim e Sydney - ida e volta fica numa ordem de grandeza semelhante.
Como a instalação está concebida
- Largura do canal: cerca de 11 metros
- Profundidade: aproximadamente 4 metros
- Diâmetro das tubagens: cerca de 2,25 metros por cada tubagem principal
- Material: revestimentos especiais anti-corrosão
- Capacidade: transporte de água do mar dessalinizada a partir de centrais nas costas leste e oeste para o interior do país
- Volume de investimento: mais de 24 mil milhões de dólares norte-americanos
As tubagens principais correrão dentro da ranhura subterrânea e foram dimensionadas para suportar temperaturas extremas e humidade residual com sal. Materiais anti-corrosão deverão evitar um desgaste acelerado - um factor decisivo num país onde, no verão, as temperaturas do solo ultrapassam claramente os 50 °C.
A artéria de água prevista deverá abastecer directamente cidades e aldeias no interior do deserto com água do mar dessalinizada - como uma linha de vida escondida sob a areia.
Porque a Arábia Saudita está a avançar com tanta força
A narrativa oficial fala de uma “revolução” na política da água. Segundo o Governo, o projecto pretende resolver vários desafios em simultâneo:
- Abastecimento estável para a população: mesmo localidades remotas no deserto deverão receber uma ligação fiável de água potável.
- Garantir a agricultura: a rega de campos em zonas secas torna-se mais previsível, mesmo quando poços locais deixam de produzir.
- Expandir a indústria: novas fábricas e projectos económicos dependem de um fornecimento de água seguro.
- Amortecer riscos climáticos: períodos de seca conduzem menos rapidamente a rupturas agudas de abastecimento.
O Governo sublinha que o país já reduziu de forma significativa o seu défice histórico de água graças à dessalinização. Com a ranhura subterrânea, a Arábia Saudita quer dar o passo seguinte: passar de respostas pontuais para uma rede de alcance nacional.
Quão sustentável é a água do mar dessalinizada?
À primeira vista, a dessalinização parece uma solução simples: os oceanos são vastos. Na prática, esta opção envolve riscos importantes:
- Consumo energético elevado: a dessalinização exige enormes quantidades de electricidade, muitas vezes ainda provenientes de fontes fósseis.
- Concentrado salino: o retorno de salmoura altamente concentrada ao mar pode pressionar ecossistemas marinhos locais.
- Custos: construir e operar as centrais, bem como a rede de condução, é caro e compromete recursos financeiros durante décadas.
A Arábia Saudita tem vindo a apostar mais em energias renováveis para atenuar este ponto fraco. Parques solares no deserto deverão, no longo prazo, fornecer parte da electricidade necessária às centrais de dessalinização. A rapidez com que esta transição acontecerá continua por esclarecer.
O que o resto do mundo poderá aprender com isto
Muitas regiões - da Califórnia ao Norte de África - enfrentam dificuldades semelhantes no acesso à água. Por isso, acompanha-se de perto como a Arábia Saudita concretiza o seu megaprojecto, que custos efectivamente surgem e de que forma é possível limitar impactos ambientais.
Em círculos especializados, a combinação de dessalinização em grande escala com conduções subterrâneas de longa distância é vista como um modelo que, com regulação rigorosa, poderia ser adaptado noutros locais. A questão decisiva é saber se a exploração e a manutenção são financeiramente sustentáveis ao longo do tempo e se as energias renováveis conseguem, de facto, cobrir grande parte da procura energética.
A artéria de água subterrânea tornar-se-á um caso de teste: conseguirá a alta tecnologia manter habitável, a longo prazo, uma das regiões mais secas da Terra?
Termos frequentemente usados neste contexto
Quem acompanha o debate sobre política da água no Médio Oriente encontra recorrentemente conceitos técnicos e palavras-chave políticas. Entre eles:
- Dessalinização: processo técnico em que o sal e outras substâncias são removidos da água do mar, geralmente por osmose inversa.
- Stress hídrico: situação em que a procura de água de um país excede, de forma contínua, os recursos locais.
- Conduta de longa distância: sistema de tubagens ou canais que transporta água por distâncias muito grandes.
Estas expressões podem soar áridas, mas descrevem a base do que está em jogo: garantir que milhões de pessoas, em regiões muito quentes, continuem a ter água potável a sair da torneira no futuro.
Oportunidades e riscos para um país desértico em transformação
A nova artéria de água encaixa numa estratégia mais ampla. O Estado quer diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Sem um abastecimento hídrico assegurado, torna-se difícil concretizar novas cidades, zonas de alta tecnologia e projectos turísticos.
Ao mesmo tempo, o plano permanece um exercício de equilíbrio técnico. Roturas de tubagens, falhas de energia, interrupções nas centrais de dessalinização - qualquer um destes incidentes pode afectar directamente milhões de pessoas. Por isso, é provável que o país tenha de investir em sistemas de monitorização, sensores e planos de emergência para reduzir o risco de falhas.
Para a população, a ranhura subterrânea proposta representa mais do que uma obra de infraestrutura. Num país onde a água sempre foi vista como um bem escasso, uma linha de vida tecnológica desta natureza altera a percepção diária de segurança - e, com isso, a forma como se encara o futuro e a qualidade de vida no deserto.
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