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Burlas românticas: como se proteger dos esquemas com IA no Dia dos Namorados

Pessoa numa videochamada no laptop, com telemóvel e caderno sobre a mesa numa sala iluminada.

As burlas românticas estão entre as formas de cibercrime mais devastadoras do ponto de vista emocional, porque juntam uma intimidade cuidadosamente fabricada com roubo financeiro - os burlões apontam ao seu coração e, a seguir, à sua carteira.

Ainda na semana passada, a polícia australiana alertou mais de 5 000 pessoas de que poderiam ter sido visadas numa burla romântica de grande escala associada a redes criminosas no estrangeiro. Os burlões recorreram a aplicações de encontros populares para identificar vítimas e iniciar relações online, antes de as induzirem a comprar uma criptomoeda falsa.

É importante notar que, nos últimos anos, o “kit de ferramentas” destes burlões mudou. A inteligência artificial (IA) reduziu drasticamente o custo de se fazer passar por outra pessoa. Fotografias de perfil convincentes podem ser geradas em minutos, conversas carinhosas podem ser produzidas automaticamente e, hoje, a “prova” de identidade também pode ser forjada com voz e vídeo.

Na aproximação do Dia dos Namorados, as aplicações de encontros ficam mais movimentadas. Então, como nos podemos manter em segurança perante burlas românticas?

Anatomia de uma burla romântica

As burlas românticas assentam em poucos mecanismos psicológicos, repetidos vezes sem conta. Depois de encontrarem as vítimas online, através de diferentes plataformas, os burlões aceleram a intimidade e, muitas vezes, demonstram sentimentos intensos de forma invulgarmente precoce. Em seguida, procuram isolar o alvo.

Muitas vezes, toda a burla romântica segue, literalmente, um guião e desenrola-se mais ou menos assim.

Em primeiro lugar, o perfil de “encontros” do burlão parece extremamente credível. Usam fotografias apelativas - cada vez mais geradas por IA ou roubadas - juntamente com detalhes pessoais plausíveis e uma comunicação consistente.

Em segundo lugar, o burlão insiste em levar a conversa para fora da aplicação. WhatsApp, Telegram ou SMS são apresentados como opções mais práticas ou mais privadas. Esta mudança é essencial.

Quando a vítima aceita passar a comunicação para fora da aplicação de encontros, perde o acesso a funcionalidades de segurança integradas que poderiam protegê-la. Se, além disso, estiver a usar o seu e-mail ou número de telefone reais, pode também estar a expor mais dados pessoais ao burlão.

Em terceiro lugar, surge o pedido de dinheiro. O burlão pode invocar uma justificação verosímil - problemas de viagem, dificuldades bancárias, emergências familiares. Mas nem sempre se trata de um apelo urgente de ajuda. Hoje, muitas burlas evoluem para fraude de investimento, em que as vítimas são encaminhadas para supostas oportunidades de lucro, frequentemente ligadas a criptomoedas.

A vítima pode ser incentivada a investir “em conjunto” ou a ver capturas de ecrã com alegados lucros anteriores. Como o esquema é apresentado como parte de um futuro partilhado - e não como um simples pedido de dinheiro - pode passar despercebido.

É mais difícil distinguir quem é uma pessoa real

A IA reforça estas tácticas ao tornar as burlas muito mais fáceis de ampliar. Ferramentas automatizadas permitem aos burlões manter conversas frequentes e emocionalmente calorosas com várias vítimas, com um esforço mínimo.

Durante anos, as videochamadas funcionaram como uma verificação informal de identidade. Se conseguia ver alguém a falar e a reagir em tempo real, era natural sentir confiança de que estava a falar com uma pessoa verdadeira.

Agora, os deepfakes alimentados por IA generativa - vídeo ou áudio artificiais concebidos para imitar uma pessoa - estão cada vez mais acessíveis para serem usados por burlões.

Uma ferramenta simples de troca de rosto ou clonagem de voz pode ser bastante convincente numa chamada curta. Ao burlão basta parecer credível o suficiente para afastar a dúvida. E, quando a vítima já está emocionalmente envolvida, tende a ignorar sinais de alerta com maior facilidade.

Como pode manter-se seguro online?

Apesar de a IA tornar as burlas românticas mais convincentes, existem defesas eficazes.

Continuar a namorar online pode ser seguro - desde que se mantenha atento e siga alguns passos simples para verificar as pessoas com quem interage.

Abrande a relação: continua a ser uma das medidas mais fortes de autoprotecção. Quanto mais tempo passar a conversar, maior a probabilidade de surgirem incoerências. Além disso, os burlões costumam perder a paciência depressa.

Mantenha as conversas na plataforma de encontros durante mais tempo. Não ceda a pressões para mudar de canal logo no início e encare essa insistência como um potencial sinal de alarme.

Confirme a identidade da pessoa em diferentes plataformas. Faça pesquisas inversas por imagem, que podem revelar fotografias roubadas ou sintéticas. Uma pessoa genuína tende a ter uma presença digital mais ampla e coerente do que um único perfil cuidadosamente editado.

Considere conselhos de investimento ou pedidos de dinheiro como um sinal vermelho muito claro. Este é o conselho mais importante. Se alguém que nunca conheceu presencialmente começar a encaminhá-lo para criptomoedas, plataformas de trading ou retornos garantidos, corte o contacto.

Nunca envie imagens íntimas a alguém que ainda não conheceu e verificado. Fraudes financeiras também podem, rapidamente, transformar-se em chantagem.

Se já transferiu dinheiro, agir depressa faz diferença. Contacte imediatamente o seu banco e comunique o incidente ao Scamwatch ou ao ReportCyber. Denunciar cedo pode reduzir perdas e ajudar as autoridades a desmantelar redes maiores.

Tenha presente que os burlões românticos são altamente competentes a parecer dignos de confiança, pelo que “confiar no instinto” ou depender das emoções não é, necessariamente, uma protecção.

À medida que as ferramentas de IA generativa se multiplicam, torna-se mais difícil confirmar o que é real online. Por isso, vá com calma, valide detalhes em vários sítios e - de longe, o passo mais importante - afaste-se de tudo o que transforme um romance num pedido de dinheiro, por mais apaixonado que se sinta.

Tony Jan, Professor de Tecnologias da Informação e Diretor do Centro de Investigação e Otimização em Inteligência Artificial (AIRO), Torrens University Australia

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


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