No momento em que a Mercedes-Benz chama a atenção com o primeiro tablier totalmente em vidro e digital (Hyperscreen) instalado num automóvel e revela o seu primeiro compacto 100% elétrico (EQA), o diretor executivo, Ola Källenius, explica a metamorfose em curso na marca - sem abdicar dos princípios que, há mais de 130 anos, a colocaram no topo do luxo automóvel.
Mercado, recuperação e metas ambientais da Mercedes-Benz
O que espera do mercado agora que começamos um novo ano e o mundo está empenhado em libertar-se deste pesadelo chamado Covid-19?
Ola Källenius - Encaro o período com otimismo. É inegável que 2020 foi um ano terrível sob praticamente todos os prismas, e a indústria automóvel também sofreu, com paragens de produção e uma quebra acentuada de vendas na primeira metade do ano. Ainda assim, na segunda metade assistimos a uma retoma muito expressiva, impulsionada pela China, ao mesmo tempo que outros mercados importantes começaram igualmente a dar sinais animadores.
E esses sinais positivos também se refletem na vertente ambiental, porque terminámos o ano na Europa em conformidade com as normas de emissões de 2020, algo que, quando arrancámos o ano passado, nos parecia muito difícil de alcançar. Naturalmente, sabemos que ainda teremos pandemia pela frente, com novas vagas, mas à medida que a vacinação avança a tendência é de uma melhoria gradual.
Quer dizer que a sua frota de veículos matriculados o ano passado cumpriu as regulações europeias?
Ola Källenius - Sim, e como percebe, essa trajetória vai acelerar com a chegada de todos estes modelos novos, totalmente elétricos ou parcialmente eletrificados (ou seja, a ambição é passarmos a cumprir sempre). Não posso, no entanto, revelar o valor final em g/km de emissões de CO2 - apesar de termos um cálculo interno - porque o número oficial da União Europeia só será divulgado dentro de alguns meses.
Modelos EQ, vendas xEV e a viragem para plataformas elétricas dedicadas
Acredita que a gama de modelos EQ irá ter uma receção calorosa por parte dos consumidores? O EQC não parece ter gerado muitas vendas…
Ola Källenius - Bem… o EQC chegou ao mercado precisamente durante os confinamentos generalizados na Europa, o que, como é óbvio, condicionou as vendas. Já na segunda metade do ano a tendência mudou, em particular para todos os nossos xEV (nota do redator: híbridos plug-in e elétricos).
No ano passado vendemos mais de 160 000 xEV (a que se somam 30 000 smart elétricos), sendo que cerca de metade desse volume aconteceu no último trimestre, o que demonstra a procura existente. Isto representou uma subida de quota de 2% para 7,4% no total das nossas vendas em 2020 face a 2019. E em 2021 queremos intensificar esse ritmo com uma vaga de lançamentos: EQA, EQS, EQB e EQE, além dos novos híbridos plug-in com cerca de 100 km de autonomia elétrica. Para nós, isto será uma revolução na oferta.
A Mercedes-Benz não esteve na vanguarda do lançamento de automóveis 100% elétricos concebidos de raiz como tal, antes adaptando plataformas de veículos com motor de combustão para essa aplicação. Isso colocou algumas limitações aos próprios veículos. A partir do EQS tudo será diferente…
Ola Källenius - As escolhas que fizemos foram as mais racionais, porque, nos últimos anos, a procura por elétricos ainda era relativamente baixa. Por isso avançámos com plataformas versáteis, capazes de acomodar tanto motorizações convencionais como elétricas, e o EQC foi o primeiro exemplo. A partir daqui, esta arquitetura específica para automóveis elétricos será utilizada, pelo menos, em quatro modelos, e cada um deles poderá ter o Hyperscreen - começando, naturalmente, pelo EQS.
Hyperscreen e MBUX: digitalização do tablier e aposta em tecnologia
O Hyperscreen é uma espécie de “vingança” contra as empresas emergentes de Silicon Valley?
Ola Källenius - Não olhamos para isso dessa maneira. Na nossa empresa, a procura por inovação tecnológica é contínua, e foi nesse espírito que criámos este primeiro tablier totalmente preenchido por um ecrã OLED curvo e de alta resolução.
Sobretudo nos últimos quatro anos, com a aposta no sistema operativo MBUX, deixámos claro que o digital seria o futuro dos tabliers nos nossos automóveis. E quando, há cerca de dois anos, decidimos avançar com o Hyperscreen, quisemos perceber até onde conseguiríamos ir e que vantagens concretas isso traria para os nossos clientes.
Não deixa de ser relevante que o primeiro automóvel com um tablier totalmente em vidro venha da parte de um fabricante de automóveis “tradicional” …
Ola Källenius - Há vários anos tomámos a decisão de aumentar de forma exponencial o investimento em tecnologia digital. Criámos polos digitais em vários locais do mundo, do Silicon Valley a Pequim, e recrutámos milhares de profissionais nesta área… portanto, não é algo recente e é inevitável se quisermos liderar esta indústria.
Mas já em 2018, quando apresentámos o primeiro MBUX no CES, muita gente ficou surpreendida. Dou-lhe um dado: o valor médio que um cliente gasta em conteúdo digital num modelo compacto da Mercedes-Benz (feito sobre a plataforma MFA) mais do que duplicou (quase triplicou) nos últimos anos - e isto no segmento dos nossos automóveis mais acessíveis. Ou seja, não se trata de alimentar caprichos de engenheiros de eletrónica… é, de facto, uma área de negócio com enorme potencial.
O facto de o interior do EQS ser mostrado primeiro do que o exterior (no seu design final de produção em série) é um sinal claro de que o interior do automóvel é hoje mais importante do que o exterior?
Ola Källenius - Usámos o Consumer Electronics Show (CES) para revelar tecnologias específicas, porque é aí que isso faz mais sentido (não mostramos o habitáculo do EQS, os bancos, etc., mas sim uma tecnologia individual). Foi o que fizemos em 2018 com a estreia mundial do MBUX e repetimos agora a abordagem com o Hyperscreen - ainda que em formato virtual, mas dentro do CES. Isso não significa, de forma alguma, menor importância para o design exterior; pelo contrário, continua a ser uma prioridade absoluta.
Segurança, usabilidade e materiais no tablier digital
O problema da distração do condutor torna-se cada vez mais sensível com o aumento dos ecrãs no tablier dos automóveis e percebe-se que os comandos vocais, táteis, gestuais e rastreio ocular são a forma de minimizar essa questão. Mas muitos condutores têm dificuldade em gerir estes novos ecrãs cheios de submenus e isso até afeta a avaliação e muitos carros novos em relatórios de satisfação de clientes com grande importância. Reconhece este problema?
Ola Källenius - Implementámos vários sistemas de controlo no Hyperscreen e há um que, para mim, é particularmente eficaz a evitar distrações: a tecnologia de rastreio ocular, que permite ao passageiro da frente ver um filme sem que o condutor o veja. Se o condutor olhar durante alguns segundos na direção do ecrã do passageiro, o filme desliga-se até que ele volte a direcionar o olhar para a estrada. Isto acontece porque existe uma câmara a monitorizar continuamente o olhar.
Concebemos um sistema extraordinário e investimos centenas de horas a pensar em todos os aspetos que tinham de ser salvaguardados nesse campo. Em relação à complexidade de utilização, costumo dizer, em tom de brincadeira, aos meus engenheiros que o sistema tem de ser tão simples que até uma criança de cinco anos - ou um membro do Conselho de Administração da Mercedes-Benz - o consiga usar.
Falando agora a sério: se me der 10 minutos, consigo explicar na totalidade como funciona este conceito de "camada zero" do Hyperscreen, que é verdadeiramente intuitivo e fácil de dominar. Muitos de nós já fizemos essa passagem do analógico para o digital nos nossos telemóveis, e algo semelhante vai tornar-se definitivo também no interior dos automóveis.
Além disso, o novo reconhecimento de voz/discurso é tão avançado que, se o condutor não encontrar uma determinada função, pode literalmente falar com o automóvel - e o sistema executará instruções que, por vezes, os utilizadores não conseguem localizar nos menus.
Muitos dos novos ecrãs de controlo nos automóveis que usamos ficam cheios de impressões digitais ao fim de algum tempo de utilização. Tendo em conta que o vosso novo tablier é totalmente feito de vidro, há alguma evolução importante nos materiais para o evitar o diminuir?
Ola Källenius - No Hyperscreen utilizamos o vidro mais caro e mais avançado, para que isso seja menos notório, mas, claro, não conseguimos controlar aquilo que os utilizadores comem dentro do automóvel… ainda assim, o concessionário disponibiliza um bom pano para limpar o Hyperscreen de vez em quando.
Quer dizer que não existe maneira de voltar atrás nesta trajetória de digitalizar o interior do automóvel?
Ola Källenius - O automóvel continua a ser um produto físico. Se comprar a televisão mais cara e sofisticada do mundo, não vai colocá-la no centro da sala ao lado de mobília barata, com materiais e design elementares. Não faz sentido. E no automóvel encaramos a questão de forma semelhante.
Um Hyperscreen, com o melhor que existe em tecnologia e em design, deve estar integrado num conjunto de elementos exclusivos, como saídas de ventilação que parecem trabalhadas por um mestre joalheiro. É essa fusão entre o analógico e o digital que define o ambiente de luxo dentro de um Mercedes-Benz.
Receitas digitais e concorrência: do MBUX ao “carro como plataforma”
Qual o potencial económico da nova geração de MBUX? Limita-se ao preço que o cliente irá pagar por este equipamento ou vai muito para além disso, com oportunidades de receitas por via de serviços digitais?
Ola Källenius - As duas coisas. Sabemos que existem fontes de receita recorrente e oportunidades para transformar determinados serviços digitais do automóvel em subscrições, ou em compras feitas no concessionário - ou até posteriormente. E quanto mais funcionalidades integrarmos nos automóveis, mais possibilidades teremos de desenvolver esse tipo de receitas. A meta para as "receitas digitais recorrentes" é atingir mil milhões de euros de lucros em 2025.
À medida que os automóveis começam a tornar-se, cada vez mais, telemóveis sobre rodas são cada vez mais constantes e audíveis os rumores sobre a chegada, mais ou menos iminente, da Apple ao setor automóvel. É mais uma preocupação para si?
Ola Källenius - Regra geral, não comento a estratégia dos nossos concorrentes. Mas há uma observação que considero importante e que muitas vezes é esquecida: um automóvel é uma máquina altamente complexa, não apenas aquilo que vemos no campo do infoentretenimento e da conectividade.
É, acima de tudo, também tudo o que está relacionado com os sistemas de assistência à condução, o chassis, os motores, o controlo da carroçaria, entre outros. Ao desenvolver um automóvel, é preciso pensar no automóvel como um todo e, se olharmos para os quatro grandes domínios que definem os veículos, a conectividade e o infoentretenimento são apenas um deles.
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