Se por acaso existisse o verbo “reginar”, dificilmente poderia querer dizer outra coisa que não “pôr em comum” e “partilhar afetos através das artes”. Foi isso que se viveu neste sábado à tarde, ao longo de mais de três horas, quando largas centenas de pessoas encheram o auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, para assistir a “Corpo de muita gente”, a homenagem promovida pela editora Exclamação ao percurso plural de Regina Guimarães - um trajeto feito de palavras em íntima ligação com a música, a dança, o cinema, o teatro e as artes plásticas.
Regina Guimarães e a “comunhão criativa” no Porto
Durante uma tarde, o Outro - tão presente numa obra orientada para o diálogo - multiplicou-se em muitos outros. E foram inúmeros os que responderam à chamada. Pelo palco desfilaram Ana Deus e Alexandre Soares (companheiros de longa data dos Três Tristes Tigres), Isabel Barros, O Bando dos Gambozinos, Rui Reininho, Alexandra Ramires e Tânia Furtado Moreira, para lá dos anunciados Amélia Muge, Manuela Azevedo e Helder Gonçalves (Clã), além de Fred. O resultado foi a mesma “comunhão criativa” que atravessa décadas sem sinais de cansaço.
Uma presença discreta e atenta
“Nada me envergonha mais do que um elogio rasgado”, disse Regina Guimarães, num poema lido em palco. Mesmo debilitada, a “criadora dos sete ofícios e de muitos mais” acompanhou com atenção as intervenções que foram desenhando os vários desdobramentos de uma escrita sempre inquieta.
Saguenail, companheiro de vida e de tantos projetos artísticos, afirmou com convicção que “aquilo que a torna excecional é a capacidade de ter conseguido manter intacta a criança dentro de si”. E acrescentou que, graças à “memória prodigiosa”, “continua a ver o Mundo com os mesmos olhos de uma criança”.
Poesia “rente à vida”
As palavras do cineasta e escritor gaulês ganharam ainda mais peso quando cerca de três dezenas de jovens d’Os Gambozinos cantaram, com entusiasmo evidente e em voz cheia, poemas de Regina Guimarães. No fim da breve atuação, uma das crianças do coro resumiu o vínculo: “uma mãe para todos nós”.
“A Regina escreve como se fosse óbvio que vamos ter um Mundo novo, muito melhor do que este”, sublinhou Suzana Ralha, fundadora desta associação cultural de educação pela arte, que “todos os anos” faz questão de musicar textos da autora - uma das mais adaptadas pelo grupo, a par de Manuel António Pina e Álvaro Magalhães.
A “poesia em movimento, rente à vida” esteve também em destaque na intervenção de Maria de Lurdes Sampaio, docente universitária que lamentou a falta de ensaios críticos sobre a obra da autora de “Almanaque”, o seu livro mais recente.
Do Rivoli à política local: a coragem recordada
Os elogios não se limitaram à dimensão literária. José Soeiro, “camarada de todos os dias” e companheiro nas mesmas listas partidárias numa campanha autárquica há 12 anos, evocou a ocupação do Teatro Rivoli, em 2006, ocasião em que a poetisa terá mostrado uma resistência e uma coragem fora do comum. “A Regina Guimarães é revolucionária pela forma como habita o Mundo e nomeia as coisas”, frisou.
Reininho e “a colega brilhante”
No “sítio efervescente” que era a Escola Secundária António Nobre, no início dos anos 1970, Rui Reininho e Regina Guimarães dividiram a carteira - e construíram uma amizade para a vida. “Copiei por ela muitas vezes”, contou, lembrando “a colega brilhante” com quem esteve “nas mesmas trincheiras”. O músico dos GNR surpreendeu a homenageada ao ler os primeiros poemas publicados por Regina Guimarães, em 1973, onde já se adivinhava a verve que mais tarde a distinguiria, em versos generosos em “olhares que cuspiam ternura”.
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