As paisagens da Califórnia parecem, muitas vezes, imutáveis. Colinas douradas com carvalhos, desertos com árvores de Josué e sequoias a rasgar o nevoeiro costeiro transmitem uma sensação de continuidade. No entanto, uma investigação recente indica que essa impressão de permanência pode ser enganadora.
Um novo estudo conclui que muitas das árvores mais familiares da Califórnia enfrentam riscos climáticos severos - e que os actuais sistemas de conservação não estão a reflectir plenamente essa ameaça.
Por isso, várias espécies-chave poderão estar mais expostas do que sugerem os registos oficiais.
As árvores moldam os ecossistemas
As árvores não estão apenas “presentes” na paisagem: estruturam os ecossistemas. Ajudam a regular a temperatura, armazenam carbono e criam habitat para inúmeras espécies. Quando estas árvores entram em declínio, os sistemas ecológicos à sua volta também mudam.
“Estas árvores são as colunas vertebrais dos nossos ecossistemas”, afirmou Blair McLaughlin, cientista de adaptação às alterações climáticas na UC Santa Cruz e autor principal do estudo.
“Elas não crescem em mais nenhum lugar do mundo e fornecem o habitat essencial de que a vida selvagem nativa e os humanos dependem.”
A investigação analisou 27 espécies de árvores nativas da Califórnia. Entre elas estão o carvalho-azul, a sequoia-vermelha-da-costa, a sequoia-gigante e a árvore de Josué ocidental. Cada uma desempenha um papel determinante no seu ambiente.
Um ponto cego na avaliação do risco
A União Internacional para a Conservação da Natureza mantém a Lista Vermelha, um sistema que classifica as espécies com base no risco de extinção. Esta referência orienta, em todo o mundo, o financiamento para conservação e decisões de política pública.
Ainda assim, a Lista Vermelha nem sempre incorpora, nas suas avaliações, as condições climáticas futuras. Uma espécie pode parecer estável hoje e, mesmo assim, ficar sujeita a perdas graves de habitat nas próximas décadas.
Esta lacuna é relevante porque as alterações climáticas já estão a mudar as zonas onde as árvores conseguem sobreviver. Ignorar o que vem a seguir cria uma sensação de segurança que não corresponde à realidade.
Testar projecções climáticas
A equipa de investigação cruzou modelos climáticos com os critérios actualmente usados na Lista Vermelha. O objectivo foi estimar como o habitat adequado de cada espécie poderá transformar-se ao longo do tempo.
Em paralelo, os investigadores analisaram estudos de campo que acompanham alterações no mundo real - como densidade de árvores, crescimento e mortalidade - à medida que o clima se altera.
Com este método, foi possível confrontar as previsões com tendências já observadas.
Perda de habitat nas próximas décadas
Os resultados chamam a atenção. Em média, estas espécies poderão perder 54 a 80 por cento do seu habitat adequado até 2125. Mesmo antes disso, já a meio do século, as perdas poderão chegar a 41 por cento.
Algumas espécies enfrentam quedas ainda mais acentuadas. O carvalho-azul, o carvalho de Engelmann, o pinheiro foxtail e a árvore de Josué ocidental poderão perder mais de metade do seu habitat até 2055.
Em cenários de emissões elevadas, há casos extremos em que toda a área actualmente ocupada poderá tornar-se inadequada. Cerca de 40 por cento das espécies estudadas enquadram-se nesta situação.
“Se perdermos um bosque de carvalho-azul, em geral o que fica é uma pradaria de gramíneas invasoras”, disse McLaughlin. “Os bosques antigos de carvalho-azul estão aqui há séculos, por isso são uma ligação a um tempo anterior aos impactos completos do povoamento europeu.”
Aumento do estatuto de ameaça
Quando os investigadores aplicaram os limiares de declínio usados pela Lista Vermelha, as conclusões alteraram-se de forma marcante. Actualmente, apenas três das 27 espécies estão classificadas como Em Perigo ou Criticamente Em Perigo.
Ao incluir projecções climáticas, 18 espécies poderiam atingir esse nível de risco - um aumento de seis vezes.
Árvores bem conhecidas, como a castanheira-da-Califórnia (California buckeye), o tanoak e o madrone do Pacífico, entram neste grupo. São espécies comuns hoje, mas poderão estar a caminhar para uma situação muito grave.
O tamanho da área de distribuição também conta
O estudo apresentou ainda um índice de risco climático. Este indicador considera, em simultâneo, a perda de habitat e a dimensão da área de distribuição remanescente.
Assim, algumas espécies podem não perder percentagens muito elevadas, mas continuar em risco por ficarem confinadas a áreas pequenas. O pinheiro Bishop e o abeto-vermelho encaixam neste padrão.
Pelo contrário, o carvalho perene da costa e o loureiro-da-Califórnia parecem mais estáveis graças a climas costeiros. Mesmo assim, ameaças indirectas - como doenças e o aquecimento - poderão afectar estas árvores.
Dados de campo confirmam as tendências
As projecções dos modelos coincidem de perto com observações no terreno. Já se detecta menor recrutamento (renovação) em regiões mais secas e maior mortalidade em zonas mais quentes.
“Encontrámos uma relação clara entre o risco projectado pelos nossos modelos e as mudanças demográficas que já estamos a observar no terreno”, afirmou a autora sénior Erika Zavaleta, professora na UC Santa Cruz.
“Em muitos casos, as respostas projectadas - maior mortalidade e menor recrutamento em áreas mais quentes e secas - estão documentadas como já estando a acontecer.”
Esta concordância reforça a urgência de agir: as mudanças não são apenas teóricas; já estão em curso.
Zonas de perda e de refúgio
O estudo também mapeou as áreas onde o risco é maior. Entre as zonas com elevada perda prevista estão a parte oriental da Área da Baía de São Francisco e sectores das encostas da Sierra Nevada.
Por outro lado, regiões com melhores perspectivas de sobrevivência incluem partes da Costa Central e altitudes mais elevadas.
Há ainda locais onde se prevê, ao mesmo tempo, perda e ganho, porque espécies diferentes respondem de forma distinta na mesma área. Este detalhe é útil para orientar o planeamento de conservação.
Protecção para as árvores de Josué
A Califórnia já avançou com medidas para uma espécie. A Western Joshua Tree Conservation Act protege uma árvore que enfrenta grandes perdas futuras de habitat.
Esta lei recorre a projecções climáticas e evidência de campo, em vez de esperar por alterações oficiais na Lista Vermelha. Além disso, protege áreas potenciais de refúgio.
Os investigadores defendem que este tipo de abordagem pode ser aplicado a outras espécies sujeitas a riscos semelhantes.
Limitações dos modelos
O estudo reconhece limitações. Os modelos não conseguem capturar todas as ameaças. Incêndios florestais, espécies invasoras e stress hídrico introduzem ainda mais complexidade.
Outro ponto é que a análise incide sobretudo sobre árvores adultas, enquanto as plântulas podem enfrentar desafios diferentes.
Mesmo assim, a proximidade entre os modelos e os dados de campo sugere que as estimativas poderão ser, até, conservadoras.
A conservação tem de mudar
A investigação sublinha um problema central: os sistemas de conservação precisam de se adaptar a um clima em transformação. As avaliações devem incorporar condições futuras, não apenas o estado actual.
“Precisamos de novas abordagens para lidar com este problema emergente de conservação que as alterações climáticas estão a criar”, disse McLaughlin.
“Muitas destas espécies fundamentais são, neste momento, amplamente distribuídas, e vêem-se por todo o lado. Mas estão a perder habitat adequado muito rapidamente.”
Paisagens em mudança no horizonte
Hoje, as paisagens da Califórnia podem parecer estáveis. Porém, as condições que as moldaram estão a mudar.
“Tomar decisões de conservação apenas com base no que está a acontecer nas paisagens de hoje já não é suficiente”, afirmou McLaughlin.
“Precisamos de olhar em frente para o que aí vem, de modo a proteger o que é importante para os californianos.”
Estas conclusões não apontam para uma inevitabilidade; funcionam como um aviso. Com acção atempada, ainda poderá ser possível proteger estas árvores definidoras antes de o seu declínio se tornar irreversível.
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