Turcos, com israelitas e iranianos no radar, podem encontrar um percurso menos turbulento para chegar a um arsenal nuclear.
Em Telavive, a hipótese de a Turquia vir a desenvolver uma arma nuclear é encarada com grande apreensão. Nos últimos anos, algumas declarações oriundas de Ancara têm alimentado esse cenário, sobretudo num Médio Oriente marcado pela instabilidade - e, ainda assim, ao contrário de Teerão, a Turquia poderá ter maior margem para gerir a pressão externa se optar por seguir esse caminho.
Contexto: NATO, energia nuclear e o factor Akkuyu
A Turquia não dispõe de armas nucleares próprias, mas acolhe no seu território parte do armamento nuclear dos Estados Unidos, no quadro da NATO. Em paralelo, Ancara e Moscovo avançam com a construção da central nuclear de Akkuyu, que deverá ficar parcialmente operacional ainda este ano e está projetada para assegurar 10% da produção de energia do país.
Em 2019, o presidente Recep Tayyip Erdogan considerou ser "inaceitável" que a Turquia não possuísse um arsenal nuclear. "Temos Israel por perto, quase como vizinhos. Eles intimidam [outras nações] ao possuírem armas nucleares. Ninguém pode tocar neles", afirmou o líder turco. O seu Governo, por sua vez, tem recusado assinar e ratificar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que entrou em vigor em 2021.
"Inevitável"
Com o agravar da instabilidade no Médio Oriente - incluindo um Irão frustrado após múltiplos processos negociais com os EUA e com uma liderança aparentemente mais alinhada com uma linha dura -, Ancara mantém-se em alerta. O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, declarou, ainda antes do início da guerra, na CNN Türk, que o país terá "inevitavelmente" de entrar numa corrida às armas nucleares caso Teerão venha a produzir armamento desse tipo.
Num artigo de tom crítico em relação a Erdogan, publicado no jornal indiano "The Sunday Guardian", Michael Rubin, do Fórum do Médio Oriente, com sede nos EUA, sustenta que Washington poderá estar distraído ou a ser ingénuo perante as ambições de Ancara, enquanto os europeus receariam fluxos migratórios ou ameaças terroristas. O diretor de análise de políticas do think tank conservador defende ainda que a Turquia pode recorrer à sua presença na NATO como um "escudo", tornando-se, desse modo, mais eficaz do que o Irão se tiver aspirações nucleares.
Fatores que condicionam o cenário turco
Para Maria do Céu Pinto, professora de Ciência Política da Universidade do Minho, ouvida pelo JN, a criação de uma arma nuclear por parte dos turcos "não parece provável no curto prazo". "A Turquia é signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear e beneficia da dissuasão proporcionada pela NATO", sublinha.
"Para que essa situação mudasse, seria necessário um conjunto de fatores relevantes, como uma perda de confiança nas garantias de segurança da NATO, uma escalada nuclear na região ou uma decisão política de enfrentar sanções internacionais", acrescenta.
Comparação
Noventa ogivas nucleares israelitas é a estimativa da Federação dos Cientistas Americanos. Israel não confirma nem desmente a existência deste arsenal.
Vinte armas nucleares na Turquia, pertencentes aos EUA, aliados da NATO. Trata-se de bombas B61 estacionadas na base aérea de Incirlik.
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