Muitos profissionais passam horas a polir o currículo, a acumular certificados e a ensaiar respostas típicas para entrevistas. Ainda assim, a investigação aponta noutra direcção: o que mais pesa para uma carreira sólida no longo prazo não é a lista mais extensa de qualificações, mas uma atitude interior que começa a formar-se na infância - e que, apesar disso, pode ser treinada ao longo de toda a vida.
Porque é que as “forças” clássicas no trabalho são sobrevalorizadas
Em entrevistas de emprego, o guião repete-se vezes sem conta: candidatos a enaltecerem o seu esforço, o espírito de equipa e até o “perfeccionismo”. Quem recruta ouve estas fórmulas diariamente. O resultado é que muita gente acaba por se diluir na mediania, mesmo sendo competente do ponto de vista técnico.
Psicólogos e líderes empresariais têm sido, nos últimos anos, bastante consistentes numa ideia: as notas e o conhecimento especializado contam, mas explicam apenas uma parte do sucesso. O mais relevante é perceber como a pessoa pensa, reage e aprende quando o contexto muda - precisamente aquilo que acontece constantemente nas funções actuais.
"Fazer carreira hoje é sobretudo para quem não se limita a saber o que lhe pedem, mas quer mesmo perceber o que está por trás."
Esse “querer mesmo perceber” está no centro da característica que muitos especialistas em carreira apontam hoje como o verdadeiro sinal de sucesso dos colaboradores modernos.
A qualidade que realmente une os top performers
Vários CEOs conhecidos, incluindo de empresas tecnológicas e do sector de plataformas de emprego, referem que, ao contratar, procuram acima de tudo uma coisa: curiosidade intelectual. Seja em início de carreira, seja em cargos de liderança, quem faz perguntas com frequência, questiona pressupostos e procura ir mais fundo tende a destacar-se pela positiva.
A psicologia dá suporte a esta percepção. Estudos mostram que pessoas curiosas:
- geram novas ideias com maior regularidade,
- encontram soluções fora do comum com mais facilidade,
- identificam ligações entre temas que parecem não ter relação,
- e aprendem mais depressa quando as exigências se alteram.
Numa investigação recente sobre a relação entre curiosidade e criatividade, observou-se o seguinte: quando alguém está disposto a explorar caminhos mentais novos, volta a combinar informação antiga de formas diferentes. Uma primeira ideia dá origem a uma segunda, a uma terceira, a uma quarta - como se existisse um trampolim interno para a inovação.
Curiosidade como motor da criatividade e da resolução de problemas
No dia a dia, isto nem sempre é vistoso. Pessoas curiosas, por exemplo:
- pedem esclarecimentos numa reunião assim que algo lhes soa ilógico,
- estudam temas que, oficialmente, nem fazem parte das suas tarefas,
- experimentam ferramentas novas antes de alguém lhes pedir para o fazer,
- e querem conhecer os motivos por trás de uma decisão, e não apenas a execução.
Coaches de carreira referem que esta postura tende a melhorar a qualidade das decisões. Quem não se contenta com a primeira resposta encontra, mais vezes, soluções que ninguém tinha considerado. Conflitos, problemas técnicos ou entraves organizacionais deixam de ser apenas coisas a “despachar” e passam a servir de ponto de partida para melhorias.
"Os curiosos vêem em cada problema um convite para aprender algo novo - e não apenas uma interrupção irritante na rotina."
Porque é que a curiosidade melhora as relações no trabalho
O desempenho profissional não depende só de competência técnica; depende muito das relações. E também aqui a curiosidade tem um impacto surpreendente. Quando alguém se interessa genuinamente pelos outros, a confiança tende a formar-se mais depressa.
Colegas curiosos:
- fazem perguntas abertas em vez de julgarem de imediato,
- confirmam o que o outro realmente precisa, em vez de imporem as próprias ideias,
- expõem-se a perspectivas diferentes - por exemplo, de vendas, TI ou apoio ao cliente -,
- e, assim, percebem melhor por que razão certas decisões são tomadas.
Isto facilita a colaboração e diminui mal-entendidos. Em muitas equipas, não falta competência; falta compreensão mútua. É aqui que a curiosidade funciona como um verdadeiro lubrificante social.
Dá para treinar a curiosidade?
A boa notícia para quem não se vê como particularmente ávido por conhecimento: psicólogos não tratam a curiosidade como um dom fixo, mas como uma combinação ajustável de inteligência, persistência e gosto pelo novo. Com prática deliberada, é possível aumentá-la de forma clara.
O psicólogo Jonathan Wai reuniu várias estratégias fáceis de aplicar no quotidiano, que se encaixam bem no contexto profissional.
Sete regras simples para ter mais curiosidade no dia a dia de trabalho
- Ler muito - e seguir os próprios interesses: Não apenas textos técnicos; biografias, reportagens ou livros de divulgação próximos do seu tema (mesmo na “margem”) abrem ângulos diferentes.
- Criar proximidade com pessoas muito capazes: Conversas com quem é forte noutras áreas afinam o pensamento. Não é preciso saber tudo, mas pode - e deve - aproveitar activamente o conhecimento de outros.
- Explorar de forma intencional: Livrarias, bibliotecas ou plataformas internas de conhecimento são óptimas para “achados” inesperados. Quem percorre prateleiras ou categorias sem um destino rígido encontra temas que mais tarde podem ser úteis no trabalho.
- Aceitar “perguntas parvas”: Muitos evitam perguntar para não parecerem incompetentes. Os curiosos aceitam esse risco e perguntam na mesma - e, por isso, entendem ligações que os que só assentem com a cabeça acabam por perder.
- Guardar informação: Apontamentos, pequenas bases de conhecimento ou um sistema digital de fichas ajudam a não esquecer o que se lê e ouve. Com o tempo, as peças do puzzle formam uma imagem maior.
- Aprofundar uma área, mantendo o olhar aberto: Ser especialista e continuar curioso sobre outros assuntos permite combinar saberes de campos diferentes - uma vantagem relevante quando se fala de inovação.
- Menos enigmas, mais perguntas abertas: Um enigma tem uma solução definida. A curiosidade genuína vira-se para temas que não se fecham facilmente: mudanças sociais, comportamento humano, tendências de longo prazo na sua profissão.
Como a curiosidade se traduz, na prática, em progressão de carreira
Em sectores muito diferentes surge um padrão semelhante: o conhecimento técnico envelhece rapidamente, as estruturas mudam e novas tecnologias entram a um ritmo acelerado. Para progredir nesse cenário, torna-se decisivo estar disposto a voltar a aprender, repetidamente.
Profissionais curiosos:
- dominam software e processos novos com maior rapidez,
- adaptam-se melhor quando assumem funções diferentes,
- detectam mais cedo quais as competências que serão valorizadas no futuro,
- e são mais fáceis de desenvolver para as chefias, porque resistem menos à mudança.
"Para muitos líderes, a curiosidade já conta como uma espécie de "metacompetência": quem a tem consegue recuperar quase tudo o resto."
Para quem sente tédio no trabalho com frequência, a curiosidade também pode funcionar como antídoto: pedir projectos diferentes, acompanhar o trabalho de outras equipas, participar em formações internas, fazer pequenas experiências no próprio posto. Às vezes, basta uma conversa curiosa com um departamento desconhecido para surgir uma ideia que fortalece a sua posição.
Exemplos práticos do dia a dia no escritório
Um gestor de produto que analisa a fundo o feedback do apoio ao cliente compreende as fragilidades reais do produto muito melhor do que alguém que olha apenas para números. E uma contabilista que fala regularmente com a equipa de TI percebe mais cedo de que forma a automatização pode afectar o seu papel - e prepara-se a tempo com novas competências.
Estes casos ilustram como a curiosidade actua de forma concreta: chama a atenção para informação que outros ignoram e, com isso, abre oportunidades de carreira que, à primeira vista, nem parecem “oportunidades”.
Riscos, limites - e porque a curiosidade continua a compensar
Naturalmente, a curiosidade também pode cansar. Quando se tenta saber demasiadas coisas ao mesmo tempo, é fácil perder o foco. Por isso, no contexto profissional, o ideal é equilibrar: mergulhar em assuntos que se relacionam com a sua área ou que vão marcar o seu futuro, em vez de ler tudo de forma aleatória.
Apesar desses limites, os dados apontam numa direcção clara: num mundo de trabalho cada vez mais dinâmico, uma atitude desperta e investigativa dá uma vantagem palpável. Conhecimento técnico pode comprar-se, e quase qualquer pessoa consegue ir buscar certificados. Já a curiosidade real e persistente por pessoas, problemas e ideias continua a ser rara - e é precisamente isso que a torna tão valiosa ao longo da carreira.
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