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Estudo abrangente aponta mais de 17 milhões em risco máximo de inundação nas costas atlântica e do Golfo dos EUA, com Nova Iorque e Nova Orleães em destaque

Mulher com tablet verifica medição de enchente numa área urbana alagada com arranha-céus ao fundo.

WASHINGTON (AP) - Segundo um dos levantamentos mais completos alguma vez feitos sobre risco de inundação, mais de 17 milhões de pessoas que vivem ao longo das costas atlântica e do Golfo dos EUA estão no patamar de maior probabilidade de serem afectadas por cheias, com Nova Iorque e Nova Orleães a destacarem-se.

Um retrato abrangente do risco de inundação

A equipa da Universidade do Alabama avaliou 16 variáveis distintas - entre elas os perigos geográficos, a população e as infra-estruturas expostas, bem como a vulnerabilidade das comunidades residentes.

Para chegar às estimativas finais, os investigadores integraram ainda os prejuízos registados no histórico da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) e recorreram a três ferramentas diferentes de inteligência artificial. Com isso, mapearam o risco de cheias do Texas ao Maine e calcularam que 17.5 milhões de pessoas se encontram em risco “muito elevado” e outras 17 milhões no nível seguinte, classificado como “elevado”.

Os autores consideraram inundações de todas as dimensões e, em paralelo, analisaram em separado o que a FEMA define como os episódios mais extremos - os 1% de eventos mais severos.

Nesse recorte das cheias extremas, o estudo concluiu que 4.3 milhões de pessoas nas zonas costeiras estão no nível máximo de risco, enquanto 20.5 milhões se situam no segundo nível mais alto.

Cidades em destaque: Nova Iorque e Nova Orleães

A análise identificou múltiplos pontos de fragilidade e chamou a atenção para oito cidades, de Houston - afectada pelas inundações do furacão Harvey em 2017 - a Nova Iorque, que foi inundada pela supertempestade Sandy em 2012.

O estudo de quarta-feira, publicado na revista Avanços da Ciência, indica que a cidade de Nova Iorque soma 4.75 milhões de pessoas nos dois níveis mais elevados de risco quando se consideram todas as cheias, e que mais de 200,000 edifícios têm probabilidade de sofrer danos.

Em Nova Orleães, embora o número absoluto de pessoas em risco seja bastante menor, cerca de 380,000, essa cifra corresponde a 99% da população da cidade.

A co-autora Wanyun Shao, cientista do clima na Universidade do Alabama, sublinhou que isso não significa que 99% dos residentes serão necessariamente afectados no próximo furacão ou numa cheia não tropical; significa, sim, que poderão vir a sê-lo, dependendo do trajecto específico da tempestade e do padrão de precipitação.

"Basta olhar para a dimensão", disse Shao. "Estes números são chocantes, são alarmantes."

"Quando a próxima grande tempestade atingir a cidade de Nova Iorque, quando um furacão semelhante ao furacão Katrina voltar a tocar terra em Nova Orleães, haverá pessoas feridas, sobretudo entre as populações socialmente vulneráveis", afirmou Shao, referindo-se aos pobres, aos idosos, às crianças e aos menos escolarizados.

Porque é que o risco está a agravar-se - e como usar os resultados

Shao e especialistas externos afirmaram que os resultados os surpreenderam, apesar de já acompanharem o agravamento dos efeitos das alterações climáticas provocadas pelo ser humano.

"Sabe-se que Nova Iorque é susceptível a inundações, e tem a maior população", disse Alex de Sherbinin, geógrafo da Universidade de Columbia que não participou no trabalho.

"Mas o facto de Nova Iorque ter quase uma ordem de grandeza a mais de população exposta a cheias do que qualquer outra cidade é surpreendente."

De acordo com o estudo, os problemas de inundação estão a tornar-se mais frequentes em Nova Iorque e em Nova Orleães devido às alterações climáticas causadas pelo ser humano, e outras cidades também enfrentam ameaça.

Jacksonville tem 679,000 pessoas em risco elevado ou muito elevado de inundação; Houston surge logo a seguir, com um valor pouco abaixo de 600,000. Entre as restantes cidades destacadas estão Miami, Norfolk (Virgínia), Charleston (Carolina do Sul) e Mobile (Alabama).

Na leitura de Shao e de peritos independentes, o que diferencia este trabalho de outros é o grau de abrangência dos factores considerados: desde o abatimento do terreno e as superfícies pavimentadas que impedem a infiltração da água no solo, até à vulnerabilidade social humana, como pobreza e idade.

"Isto poderia ser aplicado a outros locais do mundo, como Manila", disse Venkataraman Lakshmi, professor de engenharia na Universidade da Virgínia e responsável pela secção de hidrologia da União Geofísica Americana, referindo-se à capital das Filipinas.

Lakshmi não participou no estudo, mas defendeu que os problemas de inundação ali assinalados tenderão a ocorrer com maior frequência e intensidade devido às alterações climáticas induzidas pelo ser humano.

Marco Tedesco, da Universidade de Columbia, também externo ao trabalho, afirmou: "Reforça o conceito crucial de que os futuros desastres por cheias não são apenas sobre água - são sobre onde as pessoas vivem, como as cidades são construídas e quem está menos protegido."

De Sherbinin acrescentou: "A análise dos factores de risco de inundação é importante para planeadores locais, gestores de emergência e até equipas de manutenção rodoviária e fornecedores de serviços públicos. Todos sabemos que as zonas baixas são mais propensas a cheias, mas os dados que eles reuniram dão mais pistas sobre o risco de inundação, sobretudo no caso de cheias repentinas."

O autor principal, Hemal Dey, cientista de geoespacialização, disse esperar que as autoridades locais não se limitem a equacionar mais barragens e diques, e considerem também mais infra-estrutura natural, como zonas húmidas, pradarias, jardins de chuva e estuários.

"A investigação é uma confirmação sólida do que os gestores de emergência dizem há anos", afirmou Craig Fugate, antigo director da FEMA que não participou no estudo. "A questão mais difícil é o que vamos realmente fazer em relação a isto."

A investigação foi publicada na revista Avanços da Ciência.

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