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Fernando Lemos: 100 anos de arte e ética

Idoso a desenhar ilustrações coloridas numa mesa cheia de desenhos e livros numa sala iluminada.

"Cidadania Impura" é uma crónica semanal, assinada pelo escritor Valter Hugo Mãe

Um século desde o nascimento de Fernando Lemos

Assinala-se hoje o centenário do nascimento de Fernando Lemos - pintor, poeta, artista gráfico e fotógrafo - com os pés assentes no surrealismo e a mente projectada para o ilimitado do cosmos. Não havia nele capacidade de parar: apesar de a vida lhe ter trazido adversidades e sucessivos limites, a sua energia interior era um território intacto, uma força permanentemente infantil, capaz de se sobrepor a qualquer doença e a qualquer idade. Faz-nos falta como se fosse metade dos milagres do Mundo. Faz-nos falta o seu rebuliço festivo, o deslumbramento transbordante, a impaciência diante de todas as linguagens e o impulso de fazer sempre mais.

A obra de Fernando Lemos: liberdade, acaso e ética

No trabalho de Lemos percebe-se uma atenção fina e verdadeira, porque tudo, creio, lhe interessava como linguagem para construir: era, no fundo, um cuidador. Podia partir da ideia mais inesperada, mas também da mais concreta; e o modo como fazia revela um cuidado quase improvável pelo que é diferente e ligeiramente torto. Na sua obra cabem o acaso e o erro, cabem as coisas que não se controlam - e que ele nunca quis controlar. Ao criar, ampara e liberta. A sua arte é a da liberdade pura e da ética pura. Existe para que ninguém fique de fora.

Fernando Lemos e o design dos livros infantis

Por isso, não surpreende que tenha sido determinante no design dos livros infantis, conduzindo-os a uma maturidade notável e oferecendo às crianças a entrada num universo mais intuitivo, já mais artístico e muito menos mimético. Convidavam-se as crianças para a síntese, para uma representação que propunha também uma espécie de caligrafia imagética, de modo a iniciar o mundo sem entregar, logo de início, a construção inteira. Das mãos de Lemos, os livros saíam como convite ao infinito. Eram pistas para a imaginação. Eram pistas para tudo o que o leitor quisesse vir a desenvolver.

Sentimo-nos, quase sempre, atravessados pelo trabalho de Fernando Lemos: cabe-se nas imagens, tanto pelo que sugerem de lugar ainda por construir, como pelo lugar que aceita o seu próprio enigma. Nada se explica. Apenas se propõe. Não há imposição. Os pés no surrealismo lembram que não vale a pena tentar definir até ao extremo; a humanidade está em aceitar as suas metades e numa potência inevitavelmente incompleta.

Os 100 anos de Lemos são um século de arte e ética, de amizade e infância, de maravilha e saudade. Aos 100 anos, Fernando Lemos é hoje a criança mais velha do Mundo, mas também a mais genial, a mais capaz de ter sido adulta sem perder a sua essência extraordinária.

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