O que no início do ano parecia apenas mais um “diz que disse” sobre o futuro de uma fábrica automóvel na Alemanha ganhou, agora, contornos bem mais concretos. A Rafael Advanced Defence Systems - empresa detida pelo Estado de Israel e parceira-chave no desenvolvimento dos sistemas de defesa Iron Dome, Arrow e David’s Sling - terá assinado uma carta de intenções com a Volkswagen para adquirir a fábrica de Osnabrück, segundo a Reuters, que cita duas fontes familiarizadas com o processo.
Apesar de nem a Volkswagen nem a Rafael terem comentado oficialmente, o CEO do Grupo, Oliver Blume, confirmou a 30 de abril, numa chamada com investidores, que decorriam “negociações avançadas com empresas de defesa” sobre o destino das instalações.
A fábrica, que emprega cerca de 2300 pessoas, produz atualmente o T-Roc Cabriolet, cuja produção deverá terminar no próximo ano, sem sucessor previsto.
Desde 2024 que o Grupo procura ativamente uma solução para o espaço. Conversações para uma eventual venda chegaram a avançar no final do ano passado, mas acabaram por ser interrompidas sem acordo.
Mísseis em vez de descapotáveis
De acordo com as mesmas fontes, a empresa israelita irá concentrar-se na produção de componentes para mísseis, em particular motores, ficando a produção de explosivos reservada a instalações separadas, por motivos de segurança. Recorde-se que a Volkswagen já tinha afastado a hipótese de produzir armas.
O Governo alemão estará a acompanhar o processo de perto, com o objetivo de garantir que o controlo sobre tecnologia de defesa se mantém em território nacional.
Berlim terá reservado centenas de milhares de milhões de euros para reconstruir as suas capacidades militares após décadas de subinvestimento, e as fábricas automóveis - com infraestruturas de engenharia, mão de obra especializada e capacidade de produção à escala - tornaram-se parceiras particularmente atrativas para empresas do setor da defesa.
Uma fábrica com história
A unidade de Osnabrück não é uma desconhecida no universo da Volkswagen. Inaugurada em 1935, foi durante décadas o berço do Karmann Ghia, um dos modelos mais icónicos da marca. Mais recentemente, produziu também os Porsche Cayman e Boxster, antes de a produção destes modelos ser transferida para Zuffenhausen em 2026. A Volkswagen adquiriu a fábrica em 2009.
Historicamente, não seria a primeira vez que a Volkswagen se envolve em produção com fins militares, tendo em conta o papel de Wolfsburgo na produção de armamento durante a Segunda Guerra Mundial.
Atualmente, a gigante alemã produz camiões militares através de uma parceria entre a MAN, construtor de veículos pesados detido pelo grupo alemão, e a Rheinmetall, a maior empresa de defesa e armamento da Alemanha.
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