Muitas pessoas agem por impulso - e é precisamente aí que acabam por cometer o erro decisivo.
Ao encontrar um cão vadio ou aparentemente fugido, a intenção costuma ser boa: dar-lhe algo para comer, arranjar-lhe um canto quente e, quem sabe, ficar logo com ele - afinal, parece que ninguém se preocupa. Só que esse instinto pode transformar-se num problema legal e prático, sobretudo quando o cão não tem microchip ou quando o chip não foi lido.
Porque o microchip é muito mais do que burocracia
O microchip no cão não é um “extra” moderno; é a identificação oficial do animal. Na prática, funciona como um documento de identificação colocado sob a pele. A pequena cápsula, mais ou menos do tamanho de um grão de arroz, é aplicada pelo veterinário na zona do pescoço e pode ser lida de forma permanente.
O chip serve vários propósitos ao mesmo tempo:
- liga o cão, de forma inequívoca, a uma pessoa responsável (o detentor)
- permite devolver rapidamente os animais perdidos aos seus tutores
- ajuda as autoridades a reduzir taxas em falta, comércio ilegal e o fenómeno de cães de rua
- facilita a identificação do detentor quando há uma mordedura ou um acidente
Em muitos países europeus, incluindo a Alemanha, existem - consoante o estado federado - obrigações de registo e de identificação. Quem não colocar chip e não registar o cão ou as crias dentro do prazo arrisca coimas. E, em caso de conflito, a situação pode ser ainda mais desagradável: sem chip e sem registo, provar a propriedade torna-se muito difícil - especialmente quando mais do que uma pessoa reclama o mesmo animal.
"Um cão sem microchip é, juridicamente, um ninguém - e é isso que torna qualquer achado tão delicado."
Encontrou um cão - primeiro passo: segurança, não selfie
Seja num trilho no meio do mato, numa estrada secundária ou à porta de casa, ao deparar-se com um cão que parece não ter dono, a prioridade deve ser a segurança - tanto de pessoas como do animal.
- Se o cão aparentar medo extremo ou agressividade, mantenha distância e chame a polícia ou a autoridade municipal competente.
- Se for amistoso, tente prendê-lo com uma trela ou uma laçada improvisada.
- Leve-o para um local calmo e seguro, longe do trânsito.
- Dê-lhe água e, se necessário, um pouco de comida - mas sem exageros se ele estiver muito stressado.
Se tiver um veterinário por perto, pode telefonar e perguntar se conseguem fazer a leitura do chip de forma rápida. Muitas clínicas prestam este serviço como apoio urgente.
Leitura do chip: como encontrar o detentor legítimo
Na prática, o procedimento costuma ser simples: um veterinário ou um serviço veterinário público passa um leitor sobre o corpo do cão. A partir daí, há três hipóteses.
O cão tem chip e está registado
Se surgir um número, é possível identificar o detentor através do registo de animais competente. Muitas vezes, bastam alguns contactos: o cão fugiu, a pessoa está desesperadamente à procura e a reunião acontece depressa.
Importante: quem encontra um cão com chip não pode simplesmente ficar com ele. Em muitos casos, isso equivale legalmente a reter propriedade alheia.
O cão tem chip, mas está mal registado ou nem sequer está registado
Por vezes o leitor detecta o chip, mas os dados não existem ou estão incompletos. Nesses casos, autoridades, veterinários ou associações de protecção animal têm de investigar mais a fundo - por exemplo, através do país de origem, documentação do criador ou registos antigos. Este processo pode demorar e, não raras vezes, acaba em procedimento formal.
O cão não tem chip
Aqui, o cão fica sem identificação e, dependendo do contexto, é tratado na prática como animal encontrado ou cão de rua. É precisamente nesta situação que muitos se enganam, porque o/a finder pensa automaticamente: “Não tem chip, logo não é de ninguém - então posso levá-lo.”
"O maior equívoco: um cão sem chip é sem dono e pode ser levado imediatamente. Não é assim tão simples."
O caminho correcto do ponto de vista legal: informar as autoridades
Quem encontra um cão que não pode ser identificado não deve contornar as entidades oficiais. Regra geral, são competentes os serviços municipais, a polícia ou o serviço veterinário da autarquia. Consoante a zona, estas entidades activam um serviço de captura ou recolha.
Procedimento típico:
- o cão é levado para um centro de recolha de animais ou para um canil/abrigo
- lá, faz-se uma avaliação de saúde e volta-se a procurar sinais de identificação (tatuagem, chip, medalha)
- o animal é registado oficialmente como achado e recebe um chip caso não tenha
Muitos municípios aplicam uma espécie de “quarentena administrativa”, normalmente de várias semanas. Durante esse período, um possível detentor tem a oportunidade de comunicar a perda e demonstrar que o cão é de facto seu - por exemplo, com fotografias, boletim de vacinas ou facturas antigas do veterinário.
O que não deve fazer em caso algum
A boa intenção não evita complicações. Há comportamentos que quem encontra um cão deve evitar a todo o custo:
- ficar com um cão com chip sem comunicar o achado
- pedir para colocar um chip novo em seu nome sem envolver as entidades competentes
- mandar remover ou manipular um chip existente
- entregar o cão “por fora”, sem participação oficial
Estas atitudes podem ter consequências penais, por exemplo por apropriação ilegítima ou dano. Em situações pontuais, tribunais já reconheceram a boa-fé de pessoas que, durante meses, cuidaram de um animal totalmente sem marcações e provaram ter procurado o detentor. Ainda assim, o caminho seguro e sem stress é cumprir todos os passos de comunicação e registo.
Quando o coração manda: como avançar correctamente para a adopção
Muita gente apaixona-se pelo cão encontrado em poucas horas. Quem o quer integrar de forma definitiva em casa precisa de alguma paciência e de abertura para a parte burocrática.
Passos frequentes quando o cão é encaminhado para uma estrutura municipal:
- o cão permanece o período obrigatório como animal encontrado no canil/abrigo ou centro de recolha
- é observado clinicamente, recebe microchip e fica registado
- terminado o prazo, passa a poder ser adoptado se ninguém o reclamar
Quem encontrou o cão, muitas vezes, pode manifestar interesse em primeiro lugar. Muitas entidades utilizam questionários, conversas breves e, por vezes, uma visita prévia ao domicílio. O objectivo é avaliar se a habitação, a disponibilidade e a experiência se adequam àquele animal em concreto.
Solução de transição: família de acolhimento em vez de transferência imediata de propriedade
Em algumas regiões existe a possibilidade de acolher o animal encontrado durante o período legal, como família de acolhimento. O cão passa a viver com a família pretendida, mas, juridicamente, continua a pertencer ao município ou ao detentor anteriormente desconhecido. Se essa pessoa aparecer e provar o seu direito, o cão tem de ser devolvido. Se o prazo decorrer sem qualquer reclamação, o processo transita para uma adopção regular.
Se o detentor anterior quiser entregar o cão
Há um caso particular: alguém pretende ceder o seu próprio cão, que até então nunca teve microchip. Do ponto de vista legal, a transferência sem identificação costuma ser proibida. Primeiro, o cão tem de ser registado no detentor actual e só depois pode ocorrer uma mudança oficial de detentor. Quem tentar declarar, a posteriori, que recebeu recentemente um animal adulto arrisca coimas pela omissão anterior.
Como os detentores protegem realmente o seu cão
Quem já tem um cão deve encarar a identificação como algo essencial. Algumas medidas base aumentam muito a segurança:
- colocar o chip num veterinário e registar o animal num registo central
- manter morada e número de telefone actualizados, sobretudo após mudança de casa ou alteração de contacto
- usar também uma coleira com medalha legível e telefone
- reforçar o treino de chamada (recall) e habituar o cão gradualmente a novos ambientes
"Chip, registo e uma simples medalha na coleira são a diferença entre ‘para sempre perdido’ e ‘de volta a casa nessa mesma noite’."
O que quem encontra um cão muitas vezes não sabe - e porque vale a pena fazer tudo correctamente
Muitas pessoas evitam contactar as autoridades por receio de papelada ou custos. Na prática, canis/abrigos e serviços municipais trabalham muitas vezes com gratidão em conjunto com quem encontrou o animal - sobretudo quando essa pessoa está disponível para o adoptar mais tarde. Seguir o percurso oficial protege não só quem encontrou o cão, como também animais que possam ter sido roubados ou envolvidos em comércio ilegal.
Há ainda outro aspecto: um cão sem chip pode estar doente, ter sido maltratado ou ser parte de um problema maior - por exemplo, proveniente de transporte ilegal. Só com veterinários e autoridades envolvidos é possível detectar e travar estas redes.
Assim, quem encontra um cão sem microchip tem, na verdade, um pequeno caso urgente nas mãos, em que emoção e racionalidade precisam de andar juntas. Carinho, comida e um lugar quente são a parte emocional. Participação às entidades, leitura de chip e documentação correcta são a parte prática. Só a combinação de ambas dá ao animal uma oportunidade justa de ter um lar seguro - seja com a pessoa de sempre, seja com quem se voltou a apaixonar por ele.
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