O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, lançou esta terça-feira um desafio aos eventuais adversários internos: se querem avançar, que desencadeiem uma eleição interna no Partido Trabalhista. Ao mesmo tempo, voltou a garantir que não tenciona demitir-se.
Keir Starmer e o desafio a uma eleição interna no Partido Trabalhista
"O Partido Trabalhista tem um processo para contestar a liderança e esse processo não foi acionado. O país espera que continuemos a governar. É isso que estou a fazer e o que devemos fazer enquanto governo", afirmou esta manhã, à margem da reunião semanal do conselho de ministros.
Starmer voltou a dizer que assume a responsabilidade pelos maus resultados registados nas eleições locais e regionais de 7 de maio.
Ainda assim, sublinhou que "as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo, e isso tem um custo económico real para o nosso país e para as famílias", numa alusão à subida dos juros pagos pelo Governo sobre os títulos do tesouro.
Demissões e pressão crescente dentro do governo
A contestação interna ao primeiro-ministro britânico mantém-se em alta, na sequência da demissão, esta terça-feira, da secretária de Estado da Habitação, Miatta Fahnbulleh, que instou Starmer a "faça o que é certo para o país e para o partido e defina um calendário para uma transição ordenada".
Na segunda-feira, tinham também apresentado a demissão seis subsecretários de Estado. Para além disso, de acordo com a imprensa britânica, quatro ministros - entre os quais as ministras do Interior, Shabana Mahmood, e dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper - terão sugerido diretamente a Starmer que pondere anunciar um calendário para a sua saída.
Entretanto, mais de 70 deputados, num total de 403, pronunciaram-se publicamente nos últimos dias a favor de uma demissão, seja com efeitos imediatos ou ao longo dos próximos meses.
O Partido Trabalhista está, assim, fraturado entre quem defende a continuidade, críticos moderados que preferem uma saída gradual, e opositores mais intransigentes que exigem uma mudança imediata na liderança.
Por agora, porém, não surgiu qualquer candidatura formal de potenciais sucessores, o que aponta para prudência política ou para a inexistência de consenso em torno de uma alternativa evidente.
Instabilidade política no Reino Unido no pós-Brexit
A tensão no Partido Trabalhista prolonga um ciclo de forte instabilidade política no Reino Unido, marcado por mudanças frequentes de liderança, sobretudo depois do referendo do Brexit e das crises internas no Partido Conservador.
Nos últimos dez anos, o Reino Unido teve seis primeiros-ministros conservadores: David Cameron, Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss, Rishi Sunak e Keir Starmer.
Em contraste, nos 20 anos anteriores, o país contou apenas com três primeiros-ministros: Tony Blair, Gordon Brown e Cameron, que foi eleito em 2010.
Como pode cair um primeiro-ministro no Reino Unido
No Reino Unido, o cenário mais habitual para afastar um primeiro-ministro passa por este perder o apoio do próprio partido, situação que, em regra, conduz à demissão da liderança.
Depois de escolhido um novo líder, o primeiro-ministro apresenta a demissão ao Rei, que convida esse novo líder, desde que disponha de maioria parlamentar, a formar governo.
Um governo pode igualmente cair se o seu programa for chumbado ou se for aprovada uma moção de censura na Câmara dos Comuns.
Ainda assim, essa hipótese é menos provável quando o partido no poder tem maioria absoluta.
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