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No país do "pôs-se a jeito": violação no Queimódromo do Porto e culpa na vítima

Jovem senhora com expressão triste segura cartaz enquanto pessoas seguram telemóveis grandes com mensagens de texto.

O caso do Queimódromo do Porto e o coro nas redes

A informação de que uma jovem de 22 anos terá sido violada no Queimódromo do Porto, na madrugada da penúltima noite da Queima das Fitas, por um homem de 25 anos, voltou a atear em mim um fogo que, na verdade, nunca chega a extinguir-se. E as caixas de comentários - esse esgoto a céu aberto que as redes sociais deixaram crescer, dominado por um algoritmo perverso que lucra com a desgraça - serviram outra vez de rastilho para uma luta que me recuso a dar por encerrada. No país do "pôs-se a jeito" - a doutrina de autocensura e autocontrolo que se exige às mulheres - e num ambiente refém do imediatismo digital, as suspeitas e as acusações do costume não tardaram a transbordar.

Vieram as fórmulas clássicas: se "bebesse água", se não tivesse "bebido até cair", se não andasse "tão descapotável". Surgiram também as indignações de serviço - "agora é tudo violação", "fazem o que querem e arrependem-se no dia seguinte" - e, logo ao lado, as frases de enfado e desdém: "outra vez arroz", "já é tradição", "mais do mesmo". Quase tudo, como tantas vezes, empurrou a responsabilidade para cima da vítima. Esta absolvição automática do agressor não é apenas cansativa; além de bacoca, é doentia. E é deprimente termos de insistir no óbvio: as circunstâncias da vítima nunca legitimam crimes sexuais, ainda por cima quando, há pouco tempo, em horário nobre, se tentou justificá-los com a "adrenalina" do momento.

Antes que digam que "me pus a jeito"

Sei bem o que aí vem com uma crónica destas: haverá quem afirme que me pus a jeito; quem revire os olhos, farto de tanta vitimização; quem atire insultos gratuitos e piadas de mau gosto nas redes sociais; quem prefira o sermão condescendente - muitas vezes vindo de intelectuais machistas - ou o comentário carregado de hipocrisia de quem já não aguenta os "dramas exagerados" de miúdas que falam demais, criticam demais, opinam demais. No fundo, a pergunta implícita repete-se: afinal, quem pensam elas que são?

Masculinidade tóxica, machismo e a manosfera

Com o tempo, mais dia menos dia, o alegado crime ocorrido no Porto acabará engolido pela espuma dos dias: a reação é tão imediata quanto ruidosa, e o esquecimento chega com a mesma rapidez. Só que a violência sexual não se esgota, nem se apresenta de uma única maneira. Está nos toques não desejados em transportes públicos, nos piropos atirados a cada passo na rua, nas insinuações indesejadas que atravessam locais de trabalho.

Isto não é mito. A masculinidade tóxica mostra-se com menos vergonha, e o machismo assume-se com mais descaramento. Crescem como erva daninha nas escolas - onde professores dão conta, com alarme, do aumento do discurso e de atos misóginos, incluindo rapazes que exigem sexo como prova de amor - e ganham dimensão na Internet, onde a teia da manosfera está cada vez mais cerrada e difícil de romper. E aqui falhamos todos. Em especial o Estado, que precisa, de uma vez por todas, de recentrar prioridades para evitar que andemos (cada vez mais) para trás.

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