Saltar para o conteúdo

Ensaio ao Rolls-Royce Spectre: a estreia elétrica

Carro elétrico Rolls-Royce Spectre EV verde e cinza exposto num showroom moderno ao entardecer.

O Spectre é o automóvel que simboliza a passagem da Rolls-Royce para um futuro 100% elétrico.


Há mais de 100 anos, a Rolls-Royce já experimentava motores elétricos, numa época em que Sir Henry Royce se deixava entusiasmar por tudo o que funcionasse a baterias. Ainda assim, só passado mais de um século é que o primeiro Rolls-Royce elétrico chegou efetivamente às estradas. Chama-se Spectre e foi no coração da Califórnia, com o Vale de Napa como pano de fundo, que o fomos conduzir.

A designação Spectre não é inédita no universo da Rolls-Royce, como bem sabem os seguidores mais devotos da marca britânica e os conhecedores do setor automóvel. Contudo, é a primeira vez que este nome surge num modelo de produção em série, mantendo viva uma longa tradição de nomes etéreos, pensados para espelhar a essência do deslocar quase silencioso que sempre caracterizou a Rolls-Royce.

Este Spectre tem ainda outra estreia: é o primeiro Rolls-Royce elétrico, o ponto de partida de uma transformação completa - a marca pretende ter a conversão concluída até 2030 - rumo a uma gama totalmente elétrica.

A importância do momento foi sublinhada pelo CEO, Torsten Müller-Ötvös, ao afirmar que o dia da apresentação estática do Spectre foi o segundo mais marcante na história da empresa, apenas atrás da fundação, a 4 de maio de 1904.

Rolls-Royce Spectre junta revolução com evolução

No capítulo da propulsão, o salto é claramente revolucionário: o tradicional bloco de 12 cilindros e a volumosa caixa de velocidades foram substituídos por motores elétricos e por uma bateria de grande dimensão instalada sob o piso. Já no campo estético, a palavra certa é evolução.

À semelhança do Wraith, o Rolls-Royce Spectre exibe com segurança uma silhueta de coupé com traseira inclinada, desenhada com elegância e rematada por uma cauda ligeiramente afilada.

Apesar das semelhanças evidentes no desenho e nas proporções, a Rolls-Royce insiste em frisar que o Spectre é um automóvel totalmente novo… e, naturalmente, com um preço fora do alcance de qualquer comum mortal.

A emblemática grelha dianteira surge mais larga e mais plana do que é habitual na Rolls-Royce, sendo ainda enquadrada por um expressivo conjunto de iluminação em LED.

Mais interessante ainda é a revisão da estatueta que coroa o capô de todos os Rolls-Royce, a célebre Espírito do Êxtase - registada como propriedade intelectual em 1911 -, agora redesenhada para acompanhar a nova era elétrica.

Cifras modestas não estão incluídas

Os valores do Rolls-Royce Spectre impressionam de imediato, seja pela massa elevada, marginalmente abaixo das três toneladas, seja pelas dimensões: um comprimento próximo dos 5,5 m e uma distância entre eixos de 3,21 m. E ainda há os 585 cv e um preço a rondar o meio milhão de euros.

Mesmo que se examine a ficha técnica do Spectre ao pormenor, dificilmente se encontram números “contidos” - talvez com a exceção do diâmetro de viragem de apenas 12,7 m (mérito do eixo traseiro direcional, sempre incluído de série).

Com esta escala de carroçaria, não surpreende que o sofisticado habitáculo ofereça espaço muito generoso para quatro ocupantes. O acesso faz-se através de duas portas sumptuosas que abrem «ao contrário», como manda a tradição Rolls-Royce.

No Spectre, o conforto não distingue filas nem lugares: mesmo passageiros mais altos e de maior compleição encontram o espaço de que precisam, com ajustes independentes para climatização, massagem e áudio.

Tradição e modernidade a bordo

No interior exuberante, a Rolls-Royce conseguiu um equilíbrio convincente entre clássico e contemporâneo. De um lado, permanecem elementos conservadores: a placa metálica ao centro da consola, o relógio analógico e um sistema de climatização que aparenta já algum envelhecimento - e que a marca ainda não ousou alterar, porque os clientes continuam a apreciar muito a forma como funciona.

Do outro lado, embora os Rolls-Royce mais recentes com motor de combustão já recorressem a ecrãs, aqui todos os instrumentos passam a ser digitais e surge um novo monitor tátil com o sistema operativo “Spirit”.

Mesmo assim, o ambiente continua a “cheirar” a Rolls-Royce, com o habitual indicador de “reserva de potência” (ainda que em formato digital), além de materiais e acabamentos de qualidade excecional.

A isto juntam-se possibilidades de personalização que chegam a detalhes quase inimagináveis. E se no Ghost e no Phantom apenas o teto podia assumir a aparência de céu estrelado de uma zona do planeta livre de poluição, aqui a área de pontos luminosos em LED estende-se também aos painéis das portas, elevando o total até 4796 «estrelas».

Ao volante do Spectre pelo Napa Valley

Uma parte considerável dos futuros proprietários do Rolls-Royce Spectre vive nos Estados Unidos da América, em particular na abastada região do Vale de Napa, marcada pelas vinhas que dão origem a alguns dos melhores vinhos do país.

Foi precisamente nesse contexto que o chassis - combinando molas pneumáticas, amortecedores eletrónicos, barras estabilizadoras eletrónicas, quatro rodas direcionais e uma direção afinada para ser suave e precisa - mostrou a sua capacidade de esconder, de forma notável, tanto as dimensões como o peso deste Rolls-Royce, mantendo igualmente sob controlo os movimentos laterais da carroçaria.

Ainda assim, ao passar por irregularidades no asfalto (raras por aquelas estradas), sente-se um pouco mais do que seria esperado, em grande parte devido às enormes jantes de 23” e aos pneus de baixo perfil. Esta opção foi uma «exigência» dos designers, para preservar a harmonia visual tendo em conta a envergadura do modelo.

Em contrapartida, essa ligeira perceção das imperfeições tem um lado curioso: lembra aos ocupantes que o Spectre está efetivamente em movimento, tal é o silêncio que se vive a bordo. Isto, claro, assumindo que o som sintetizado de motor V12 permanece desligado, em vez de introduzir no habitáculo uma artificialidade desnecessária.

O sistema de suspensão Planar ganha ainda maior relevância pelo facto de a rigidez torsional do Rolls-Royce Spectre ser 30% superior. Além disso, em linha reta, esta suspensão consegue desacoplar automaticamente as barras estabilizadoras, deixando cada roda atuar de forma independente. Assim que a aproximação a uma curva é detetada, as barras voltam a acoplar e os amortecedores tornam-se mais firmes.

Peso mastodôntico

Apesar do peso mastodôntico, o Spectre beneficia dos 430 kW (585 cv) resultantes dos dois motores e dos 900 Nm de binário, acelerando até aos 100 km/h em apenas 4,5s e chegando aos 250 km/h de velocidade máxima (limitada eletronicamente).

Isto é, prestações perfeitamente alinhadas com aquilo que, durante décadas, os notáveis V12 da marca - verdadeiras obras de ourivesaria no panorama automóvel - foram capazes de oferecer.

A bateria de 102 kWh tem cerca de 700 kg e encontra-se instalada sob o piso do habitáculo, integrando a própria estrutura do Spectre. Essa solução contribui para uma estabilidade superior, maior rigidez torcional e um cuidado adicional no isolamento acústico.

A autonomia elétrica anunciada é de 530 km, com consumo médio entre os 22,2 kWh/100 km e os 23,6 kWh/100 km - valores que, na prática, deverão ter pouca relevância para a esmagadora maioria dos futuros clientes do Spectre.

Desde logo porque, muito provavelmente, a tarefa de carregar a bateria será atribuída a um funcionário de confiança. E também porque esse carregamento acontecerá num ponto dedicado, seja em casa, na empresa… ou no palácio.

Teste do champanhe

Hoje em dia, o rendimento máximo dos 585 cv já não causa espanto; pelo contrário, tornou-se mais comum. Ainda assim, é mais do que suficiente para assegurar uma resposta global à altura do nome: luxuosa, distinta e simplesmente espetacular.

Ainda assim, conforme explicado pelo diretor de projeto, existe um atraso inicial propositado na resposta ao acelerador, para que a entrega de potência seja contínua e progressiva. Em vez de um disparo brusco, procura-se uma sensação de crescendo natural.

Com esta afinação, o Rolls-Royce Spectre consegue passar o «teste do champanhe» mesmo em andamento, permitindo aos passageiros erguer as suas taças e apreciar o conteúdo sem o derramar.

Uma longa lista de espera para o Spectre

A fila de espera pelo Rolls-Royce Spectre já é bastante extensa, avançando bem para dentro de 2025, muito para lá das primeiras entregas previstas para o final deste ano. Isto apesar de muitos clientes já terem deixado um sinal para garantir a reserva, integrado numa fatura final que nunca ficará abaixo dos 390 mil euros.

Em mercados com impostos menos penalizadores, o Spectre posiciona-se entre o Cullinan e o Phantom. Em Portugal, porém, o efeito inflacionista da fiscalidade aplicada aos automóveis de combustão empurra-o para entre o Ghost e o Cullinan (um patamar inferior, portanto). Afinal, por cá, os elétricos ainda não são tributados com a mesma severidade.

O valor de referência deverá rondar meio milhão de euros, embora possa oscilar bastante, consoante o nível de equipamento e as possibilidades quase ilimitadas de personalização.

Veredito

Especificações técnicas

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário