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Vendas globais de carros elétricos caem no início de 2026, com Europa a crescer e China e América do Norte a travar

Carro elétrico desportivo verde azul em carregamento numa estação moderna com vista urbana ao fundo.

Nos últimos anos, a evolução dos carros elétricos foi muitas vezes apresentada como um caminho sem retorno - uma progressão contínua até ao desaparecimento dos motores a combustão. No entanto, o arranque de 2026 aponta para um cenário bem mais irregular.

Dados globais das vendas de carros elétricos em 2026

Nos dois primeiros meses do ano, as vendas mundiais de automóveis elétricos recuaram 8%, ficando em 2,2 milhões de unidades. Só em fevereiro foram contabilizadas 1,1 milhões de unidades, menos 11% do que no mesmo mês de 2025, de acordo com um estudo da Benchmark Mineral Intelligence.

Este recuo acontece numa fase em que vários países estão a reavaliar políticas e instrumentos de incentivo à eletrificação - e os resultados começam a refletir-se rapidamente nos números.

Na China, por exemplo, o Estado iniciou a retirada faseada de apoios que, durante anos, sustentaram a procura por veículos elétricos. Esta viragem já está a mexer com o equilíbrio competitivo do setor automóvel. A Volkswagen, apoiada pela tecnologia da XPeng, ganhou novo fôlego.

“A divergência no mercado global acentuou-se. Enquanto a Europa continua a ser o motor de crescimento, a América do Norte permanece em retração e a China ajusta-se a mudanças estruturais nas políticas internas”, explica Charles Lester, Data Manager da consultora.

Europa mantém crescimento

Em contraciclo face à tendência global, a Europa foi um dos poucos mercados de peso a crescer. Entre janeiro e fevereiro, foram registadas cerca de 600 mil unidades, o que equivale a um aumento de 21% em relação ao mesmo período de 2025.

Incentivos na Europa e em Portugal impulsionam a procura

Uma parte significativa deste desempenho está diretamente ligada aos programas de apoio que ainda se mantêm ativos em mercados europeus relevantes. Alemanha e França - dois dos maiores mercados do continente - lideraram a recuperação em fevereiro, com crescimentos de 26% e 30%, respetivamente.

Em Portugal, o enquadramento é semelhante. Segundo os dados mais recentes da ACAP, a venda de carros elétricos no nosso país subiu 25,8% face ao ano anterior, somando mais de 9000 unidades entre janeiro e fevereiro. Este comportamento reforça uma tendência cada vez mais clara: os incentivos públicos continuam a ser determinantes para acelerar a adoção de veículos elétricos.

China e América do Norte travam

No sentido oposto ao da Europa, os dois grandes polos industriais fora do continente registaram descidas expressivas. As vendas de elétricos caíram 36% na América do Norte e 26% na China.

No caso chinês, a quebra surge em simultâneo com a entrada numa nova etapa da política industrial. Depois de um período prolongado de estímulos fortes à produção e à compra de veículos elétricos, Pequim começou a cortar subsídios e benefícios fiscais, procurando estabilizar um mercado mergulhado numa guerra de preços prolongada.

Os impactos já são visíveis: marcas muito expostas ao crescimento dos elétricos - como a BYD - registaram recuos relevantes nas vendas internas, enquanto construtores mais tradicionais, como Volkswagen ou Toyota, onde a combustão e os híbridos têm maior peso, voltaram a ganhar espaço.

Na América do Norte, a dinâmica é comparável. O fim dos incentivos federais pela administração Trump em setembro do ano passado teve efeitos fortes na procura. A maioria dos construtores reportou quedas pronunciadas nas vendas de elétricos. A Ford, por exemplo, terá registado uma descida de cerca de 70% no acumulado do ano. Já a Honda e a Kia terão registado quebras de 81% e 52%, respetivamente.

A desaceleração começa também a fazer-se notar além do setor automóvel. A SK On, um dos maiores fabricantes de baterias do mundo, anunciou recentemente o despedimento de 37% dos trabalhadores da sua fábrica na Geórgia, nos Estados Unidos.

Apesar do recuo, a China continua, de longe, a ser o maior mercado mundial de veículos elétricos, com cerca de 1,1 milhões de unidades vendidas nos primeiros dois meses do ano.

Segundo a consultora, a descida resulta de um conjunto de fatores em simultâneo: a reintrodução de um imposto de compra - pela primeira vez desde 2014 -, mudanças nos programas de retoma de veículos e ainda o efeito de calendário associado ao Ano Novo Chinês.

Exportações de veículos elétricos da China aceleram

Com o mercado interno a perder força, os fabricantes chineses estão a orientar-se cada vez mais para fora. Nos dois primeiros meses de 2026, as exportações de veículos elétricos da China ultrapassaram as 500 mil unidades - mais do dobro do que no mesmo período do ano passado.

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