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Tarifas aduaneiras recíprocas de Donald Trump: impacto na indústria automóvel

Carro elétrico azul moderno exposto numa sala com janelas grandes e vista para a cidade ao pôr do sol.

Tarifas aduaneiras recíprocas de Donald Trump: o que foi anunciado

Segundo Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA), chegou o “Dia da Libertação”, expressão usada ao revelar ontem um novo pacote de tarifas aduaneiras recíprocas com alcance global.

A medida inclui uma tarifa adicional base de 10% aplicada a todo o mundo. Ainda assim, os países considerados os “piores infratores” - termo utilizado por Trump - ficam sujeitos a taxas mais pesadas. No caso da União Europeia, a tarifa fixada é de 20%. Já para a China, o valor é muito mais elevado, chegando aos 54% (à tarifa de 20% já existente, foi adicionada outra de 34%). O Japão e a Coreia do Sul também entram na lista com tarifas de 24% e 25%, respetivamente.

Na perspetiva de Donald Trump, este tipo de tarifas serve para reforçar a produção industrial nos EUA, uma vez que a forma de escapar ao agravamento passa por fabricar no país.

Reações internacionais e riscos económicos globais

Fora dos EUA, a leitura é bem diferente. De forma generalizada, considera-se que estas novas tarifas aduaneiras terão efeitos económicos graves à escala global. A dimensão real do impacto continua difícil de estimar, sobretudo porque é expectável que, nos próximos dias, surjam anúncios de medidas retaliatórias por parte de países e blocos económicos afetados.

“Lamento profundamente esta escolha. Vamos ser claros sobre as imensas consequências. A economia global vai sofrer de forma maciça. A incerteza vai espiralar e despoletar mais protecionismo. As consequências serão terríveis para milhões de pessoas à volta do globo”.
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia

E a indústria automóvel?

Apesar do anúncio das tarifas recíprocas, estas novas tarifas recíprocas não têm como alvo direto a indústria automóvel. A razão é que, tal como já tinha sido comunicado na semana passada, os automóveis importados serão abrangidos por um regime próprio, com tarifas específicas de 25%.

É hoje, 3 de abril, que essas tarifas automóveis entram em vigor. Foram igualmente divulgadas tarifas para componentes como motores e transmissões, mas, neste caso, a implementação só acontece a partir do dia 3 de maio.

Para além disso, o aço e o alumínio - dois dos materiais mais relevantes para a indústria automóvel - já estão sujeitos a tarifas aduaneiras específicas de 25%, pelo que não são abrangidos pelas tarifas recíprocas anunciadas ontem.

E agora?

A combinação de tarifas gerais e tarifas setoriais cria um contexto particularmente confuso e instável. Em 2024, os EUA importaram cerca de 430 mil milhões de euros em produtos automóveis, sendo que aproximadamente 200 mil milhões de euros corresponderam a automóveis de passageiros. As principais origens foram o México, o Canadá, o Japão, a Coreia do Sul e a Alemanha.

Michael Robinet, vice-presidente da estratégia de previsão da S&P Global Mobility, afirmou à Automotive News que “há tantas tarifas que os fornecedores ficam como que a adivinhar qual o valor total da tarifa a pagar quando chegarem à fronteira”.

Para reduzir o efeito destas medidas, é antecipado que alguma produção automóvel seja deslocada para os EUA, sobretudo a partir do México e do Canadá. No entanto, no segmento dos componentes, em especial no caso de fornecedores de pequena e média dimensão, essa mudança de produção para território norte-americano poderá não ser viável.

Os analistas apontam para aumentos de preço em toda a gama de automóveis, incluindo os fabricados nos EUA - já que muitos componentes continuam a vir do exterior. As subidas poderão situar-se entre 2300 euros e perto de 20 mil euros, variando em função do local de produção e do tipo de automóvel.

Num contexto em que os preços já se encontram elevados - o valor médio rondava 33 550 euros em 2021 e passou para cerca de 44 200 euros em 2024 -, as tarifas automóveis tendem a agravar ainda mais o cenário. O impacto nas vendas mantém-se difícil de antecipar, porque dependerá da fatia das tarifas que será repercutida no consumidor final. Ainda assim, as projeções do Bank of America apontam para uma contração do mercado norte-americano de 15% a 20%.

Os EUA são o segundo maior mercado automóvel do mundo - atrás da China -, pelo que uma queda de 15-20% equivale a menos 2,4 milhões a 3,6 milhões de unidades por ano.

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