De poucos em poucos anos, o oceano Pacífico volta a redesenhar o tempo em todo o planeta. Os padrões de precipitação deslocam-se, surgem secas e a vida marinha tem de se reajustar.
É por isso que os cientistas acompanham estes sinais com atenção: muitas vezes anunciam a chegada do El Niño. Em 2026, porém, o que está a acontecer tem um carácter pouco comum.
Um novo padrão oceânico poderá empurrar o próximo El Niño para além do esperado, elevando-o para uma categoria muito mais intensa.
Padrão raro no Pacífico tropical
No início de 2026, investigadores identificaram um padrão invulgar no Pacífico tropical. Ao mesmo tempo, surgiram águas quentes em três zonas distintas.
Uma apareceu junto da Indonésia, outra ao largo da América Central e uma terceira ao longo da costa da América do Sul. Em conjunto, estas áreas formaram um anel de calor à volta de uma faixa central mais fria.
Esta configuração - conhecida como aquecimento anular - não tem sido observada com esta intensidade há pelo menos quatro décadas. Chama a atenção porque nem mesmo episódios extremos anteriores de El Niño exibiram esta estrutura.
Calor sem precedentes abaixo da superfície
As medições não se limitaram à superfície: os cientistas avaliaram também o calor acumulado abaixo dela. Neste momento, a camada superior do oceano está a reter mais energia do que aquela que liberta. Esse “depósito” de calor é determinante para o que poderá acontecer no clima nos próximos meses.
“O Pacífico tropical apresenta um padrão invulgar de aquecimento anular na primavera de 2026, o maior observado nos últimos 40 anos. A camada superior do oceano também está a armazenar mais calor do que aquele que está a libertar”, disse Tao Lian, professor no Second Institute of Oceanography e autor principal do estudo.
“Mostramos, num conjunto de experiências com modelos, que o conteúdo de calor actual é suficiente para gerar um evento moderado de El Niño no final de 2026, e que o aquecimento anular que estamos a observar no Pacífico pode elevar este El Niño à categoria super.”
Porque é que o anel é importante
Cada uma das três regiões quentes do Pacífico pode, por si só, influenciar o El Niño. Quando a água aquece no Nordeste, esse calor pode aproximar-se do equador através de um mecanismo de retroalimentação entre temperatura, vento e evaporação.
No Sudeste, durante os meses de verão, ocorre um processo semelhante.
Já o Pacífico ocidental tem um papel diferente. Ali, as águas mais quentes podem desencadear alterações nos ventos, empurrando o calor para leste ao longo do equador.
Quando as três zonas aquecem em simultâneo, o efeito combinado torna-se muito mais forte. Em vez de uma transição lenta, o sistema recebe vários impulsos ao mesmo tempo.
Sinais de alerta precoce
O cenário actual também está ligado à recente fase de La Niña. Nessa altura, ventos intensos empurraram águas quentes para o Pacífico ocidental. À medida que a La Niña enfraqueceu, parte desse calor ficou retido abaixo da superfície.
Agora, essa energia armazenada comporta-se como uma mola comprimida. Pode deslocar-se para leste e sustentar o desenvolvimento de condições típicas de El Niño. Este tipo de acumulação costuma indicar que um El Niño poderá formar-se no espaço de meses.
Os cientistas já detectam sinais iniciais: ondas de água quente estão a deslocar-se pelo Pacífico abaixo da superfície, e as temperaturas à superfície perto do equador estão a subir gradualmente.
Em Março de 2026, registou-se um forte episódio de ventos de oeste no Pacífico ocidental. Fenómenos deste tipo surgem frequentemente antes de grandes episódios de El Niño.
“As [flutuações atmosféricas] de alta frequência na primavera e no início do verão desempenham um papel crucial na intensidade e na estrutura do El Niño”, disse Dake Chen, investigador sénior e coautor do estudo.
“Por exemplo, observámos uma forte perturbação de oeste no final de Março, o que significa que a probabilidade de um super El Niño está a aumentar.”
Testar a hipótese com modelos climáticos
Para perceber o impacto deste anel de aquecimento, a equipa recorreu a modelos climáticos avançados. Foram efectuadas múltiplas simulações para comparar diferentes cenários.
Na experiência principal, todas as simulações apontaram para a formação de um El Niño até ao final de 2026. A intensidade atingiu níveis típicos de um evento super.
Depois, os investigadores ajustaram o modelo passo a passo. Retiraram a influência de outros oceanos e filtraram o “ruído” meteorológico de curto prazo. Testaram ainda o que aconteceria se o padrão de anel quente não existisse.
Os resultados foram inequívocos: sem o aquecimento anular, o El Niño previsto enfraquecia de forma acentuada. Em vez de um evento super, passava para um evento moderado.
O anel de aquecimento impulsiona a intensidade
O anel de aquecimento acrescentou quase um grau Celsius ao pico previsto. Em termos climáticos, esse aumento é significativo: é o que separa um evento relativamente gerível de um evento altamente perturbador.
Face a outros factores, o aquecimento anular foi o que teve maior impacto. Funcionou como o principal motor a empurrar o sistema para condições extremas.
Os cientistas avaliaram também cada região quente em separado. O Pacífico ocidental revelou a influência mais forte, por ser o que mais promove mudanças nos ventos.
A região a Nordeste também contribuiu de forma relevante, ao prolongar o calor em direcção ao equador.
A região a Sudeste teve um efeito menor, uma vez que as suas temperaturas não desencadeiam com facilidade alterações atmosféricas intensas.
As previsões ainda são incertas
Apesar dos sinais robustos, a incerteza mantém-se. No passado, algumas previsões falharam, e o sistema oceano-atmosfera pode comportar-se de maneiras inesperadas.
Episódios súbitos de ventos - que podem intensificar o El Niño - são particularmente difíceis de antecipar. Além disso, outros oceanos também podem interferir no desfecho.
Se um super El Niño se confirmar, os impactos sentir-se-ão à escala global. O Sudeste Asiático e a Austrália poderão enfrentar secas.
A América do Sul poderá registar inundações severas. Os recifes de coral poderão sofrer branqueamento e as pescas poderão diminuir.
Episódios anteriores também aumentaram a temperatura global e desencadearam desafios humanitários.
Acompanhar o oceano de perto
Os cientistas continuam a vigiar o Pacífico com atenção. O padrão actual oferece uma oportunidade rara para perceber como diferentes factores se combinam e moldam eventos climáticos.
“O El Niño nunca deixa de nos surpreender”, disse Lian. “Só podemos antecipar o seu comportamento misterioso com base nos processos conhecidos nos modelos actuais e nos limites do nosso entendimento.”
Os próximos meses mostrarão se este anel invulgar de aquecimento conduzirá a um El Niño muito poderoso ou se o sistema tomará um rumo inesperado.
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