O Monterey Car Week, que acontece todos os anos na Califórnia (EUA), é um dos momentos mais aguardados por colecionadores e entusiastas. Para uns, é a oportunidade ideal para acrescentar um novo exemplar à garagem; para outros, é o palco certo para colocar à venda algumas das suas peças mais valiosas.
Este continua a ser um dos ambientes mais exclusivos - e financeiramente mais fortes - para a mudança de mãos de alguns dos automóveis mais icónicos, históricos e elegantes do mundo. E a edição deste ano voltou a confirmá-lo.
Embora vários resultados tenham ficado aquém do que se esperava - com alguns modelos a regressarem, na prática, à mesma garagem de onde tinham saído -, não faltaram transacções de vários milhões.
Somando os diferentes leilões realizados durante o Monterey Car Week, o grande destaque vai para a marca de Maranello: sete Ferrari figuram entre os 10 automóveis mais caros. A completar a lista surgem ainda um Alfa Romeo, um Ford e um Porsche.
No conjunto, apenas estes 10 lotes representaram um valor total muito próximo dos 86 milhões de dólares - ou seja, mais de 77 milhões de euros.
A seguir, veja quais foram os 10 automóveis mais caros leiloados na edição deste ano do Monterey Car Week.
10. Ferrari 250 GT Tour de France Berlinetta (1958): $5 200 000 (4 667 442 €)
A designação Tour de France associada a um Ferrari 250 GT Berlinetta continua a despertar grande interesse junto dos colecionadores. Neste caso, o exemplar com o chassis #0893 GT tem um trunfo adicional: mantém a decoração original e conserva o mesmo motor com que foi entregue ao primeiro proprietário, em 1958.
No seu passado competitivo, regista-se um 7.º lugar à geral e o 2.º na categoria nas 12 Horas de Sebring de 1958. Após essa participação, o 250 GT ainda alinhou noutras provas, até ser vendido um ano depois a um colecionador de Chicago.
9. Ferrari 275 GTB/4 NART Alloy Coupe (1967): $5 285 000 (4 743 737 €)
Entre todos os Ferrari 275 GTB/4, este destaca-se por incluir no seu palmarés uma vitória de classe nas 24 horas de Daytona de 1969, com Sam Posey e Riccardo Rodriguez ao volante. Para além disso, competiu em várias provas inscrito pela NART (North American Racing Team), exibindo uma decoração própria.
Quatro anos depois de sair da linha de montagem, o V12 foi reconstruído e acabou por transitar para outro 275 GTB/4. Ainda assim, em 2010 - quatro décadas mais tarde -, o motor original regressou ao chassis de origem, o que tornou este exemplar ainda mais valorizado. Para reforçar a sua atractividade, a pintura foi revista e reposta nas cores originais este ano, de acordo com os registos da fábrica.
8. Ferrari 857 Sport Spider (1955): $5 350 000 (4 802 080 €)
De acordo com a Gooding & Company, este terá sido o último Ferrari 857 Spider de um total de apenas quatro unidades produzidas. Começou a sua “vida” ao serviço da Scuderia Ferrari em meados de 1955, mas sofreu um acidente no final desse ano durante uma sessão de testes. Depois, foi reconstruído pela Scaglietti, que lhe acrescentou a “barbatana” traseira, e acabou por ser vendido como novo a um cliente na Califórnia.
No seu percurso desportivo, somou vitórias com nomes como Jack McAfee ou Carroll Shelby, embora a carreira em competição tenha terminado no início dos anos 60. Já numa fase mais privada, integrou, por exemplo, a colecção de Andy Warhol (artista) - nessa altura, com um V8 da Chevrolet - sacrilégio…
Mais tarde, recebeu o mesmo motor do 250 GT da Ferrari, mas só em 2011, no âmbito de um restauro meticuloso levado a cabo pela DK Engineering, teve a oportunidade de voltar a receber o enorme bloco original: um quatro cilindros em linha de 3,4 l, com que tinha saído da fábrica em 1955.
7. Ferrari F50 (1995): $5 505 000 (4 941 205 €)
Depois do sucesso do F40, a Ferrari tinha a fasquia muito elevada para criar algo tão especial - ou ainda mais. O Ferrari F50 foi a resposta: a Pininfarina desenhou uma carroçaria elegante em fibra de carbono e kevlar, e o construtor italiano dotou-o de uma monocoque em fibra de carbono e de um V12 derivado dos seus monolugares de Fórmula 1.
A produção ficou-se pelas 349 unidades e esta corresponde à #47, construída em 1995. É também uma das 55 entregues nos Estados Unidos. Saiu de fábrica em Rosso Corsa, embora tenha passado por uma fase pintada em Azzurro California. Voltou entretanto à cor original e chegou a integrar colecções como a de Nicholas Cage, por exemplo.
Hoje, apresenta-se muito próximo da configuração de origem, como comprova o certificado da Ferrari Classiche, já com mais de 8500 milhas (13 680 km) percorridas. Além disso, é acompanhado por todas as ferramentas, chaves e documentação histórica.
6. Ferrari 250 GT LWB California Spider (1959): $5 615 000 (5 039 940 €)
O exemplar #19 de um total de 50 Ferrari 250 GT California LWB produzidos foi entregue, em 1959, ao primeiro dono na cidade de Génova (Itália). Ainda assim, o momento mais mediático foi a passagem pelo cinema, em 1967, no filme italiano Le Dolci Signore, com a Bond Girl Claudine Auger.
A partir dos anos 60, passou por várias colecções, em países como EUA, Reino Unido, Suécia e até Japão. Contudo, nos últimos 19 anos manteve-se sempre na mesma colecção, preservado na condição imaculada que se vê nas imagens.
Para além da aparição no grande ecrã, foi igualmente destaque em diversos livros e revistas. Actualmente, mantém o V12 original e outros componentes, montados durante um restauro completo realizado na década de 90.
5. Porsche 911 GT1 Rennversion (1997): $7 045 000 (6 323 486 €)
Autêntico carro de competição, este Porsche 911 GT1 é um dos nove exemplares construídos especificamente para clientes. Segundo os registos disponíveis, nunca sofreu um acidente grave e nunca foi necessário desmontá-lo por completo, preservando assim o seu estado de conservação original.
Foi o carro principal da equipa alemã Roock Racing, participando nas 24 horas de Le Mans de 1997 com Allan McNish e Stéphane Ortelli. Actualmente, exibe a decoração da Rohr Motorsport, já integrou a Drendel Collection e tem sido mantido numa colecção privada ao longo dos últimos anos.
4. Ford GT40 Lightweight (1969): $7 865 000 (7 059 506 €)
Foram fabricadas apenas 10 unidades do Ford GT40 Lightweight de competição, incluindo os célebres exemplares da Gulf Team. Tratava-se de uma evolução dos históricos GT40 vencedores em Le Mans, desenvolvida para cumprir as novas regras introduzidas pela FIA.
Entre as 10 unidades produzidas, esta é, muito provavelmente, a única com registo português no historial. Em 1969 foi comprada pelo piloto Ferreira Pires, que a utilizou em algumas provas antes de a vender a Emílio Marta, após um despiste. Marta viria a conquistar enorme notoriedade com este Ford GT40 no automobilismo em Angola. Aliás, houve uma altura em que ficou conhecido como o “ex-líbris de Benguela”.
Apesar de um passado preenchido, é um dos raros Ford GT40 que conserva carroçaria, chassis, motor e transmissão originais, com documentação a comprová-lo. Mais recentemente, foi submetido a um restauro minucioso que devolveu à carroçaria o tom Cirrus White e ao chassis o preto original, tal como saiu da fábrica.
O motor e a transmissão também foram reconstruídos e foram montados pneus Firestone originais, a par de um conjunto também original de jantes BRM em magnésio.
3. Ferrari 410 Sport Speciale Spider (1955): $12 985 000 (11 655 141 €)
A abrir o pódio dos automóveis mais caros vendidos em leilão no Monterey Car Week surge um dos quatro Ferrari 410 Sport concebidos a pensar na mítica Carrera Panamericana. Dos quatro, os dois últimos foram usados pela Scuderia Ferrari e o segundo foi convertido em coupé e vendido a um cliente privado. O primeiro - aqui em destaque, chassis 0592 CM (Carrera Messicana) - é, assim, o único 410 S Speciale Spider que ficou nas mãos de clientes privados.
A carreira arrancou em 1956 com Carroll Shelby ao volante, vencendo uma prova nas estradas de Palm Springs (EUA). No entanto, o primeiro proprietário - que não era Carroll Shelby - fugiu dos EUA para o México no ano seguinte, levando o 410 Sport consigo. O dono nunca regressou, mas o carro voltou a surgir nos anos 60 e acabaria por regressar aos Estados Unidos.
Na década de 70, recebeu um restauro completo e permaneceu na mesma colecção até 2008. Depois disso, passou por várias garagens e colecções, nos EUA e em Inglaterra. Agora, muda novamente de mãos.
2. Alfa Romeo 8C 2900B Lungo Spider (1938): $14 030 000 (12 593 118 €)
O mais antigo entre os 10 desta lista é um dos apenas cinco Alfa Romeo 8C 2900B Lungo equipados com carroçaria Spider pela Touring Superleggera. Os primeiros anos deste exemplar não estão totalmente esclarecidos, acreditando-se que tenha vivido no Egipto, integrado na colecção do Major Raymond Flower, proprietário da Cairo Motor Company. Em 1948, alguém na Suíça importou este 8C.
A partir daí, o Alfa Romeo passou grande parte do tempo a mudar de garagem, associado a vários projectos de restauro que ficaram por concluir e circulando por diferentes países. Não surpreende, por isso, que não tenha acumulado muitos quilómetros. Só no final da década de 70 beneficiou de um restauro completo.
Já em meados dos anos 90, este Alfa Romeo 8C regressou à Suíça, passando pelo Reino Unido para uma nova intervenção - desta vez com “carta branca para o transformar no melhor exemplar”. Foi nesse restauro meticuloso que ganhou o aspecto que ainda hoje mantém: carroçaria num azul-escuro, interior revisto ao mais ínfimo detalhe e mecânica reconstruída e verificada até ao mais pequeno parafuso.
Até ao mais recente leilão em Monterey, acumulou vários prémios de elegância, foi roubado e esteve desaparecido durante ano e meio, mas (felizmente) preservou sempre o visual cativante que ainda hoje apresenta.
1. Ferrari 250 GT SWB California Spider (1960): $17 055 000 (15 308 312 €)
No topo dos 10 automóveis mais caros vendidos durante o Monterey Car Week está um dos Ferrari mais desejados de sempre: o 250 GT SWB California Spider.
Mas este não é um exemplar qualquer. Foi o primeiro de todas as 56 unidades produzidas e aquele que marcou presença na apresentação oficial, no Salão de Genebra de 1960. Trazia o motor com especificações de competição, faróis dianteiros cobertos e o tejadilho rígido original.
O primeiro cliente foi um piloto britânico residente na Suíça, mas, três anos depois, em 1963, o 250 GT seria exportado para os EUA. Inicialmente ficou em Nova Iorque, até que, em 1978, seguiu para a Califórnia e para a garagem de um novo proprietário, que tinha reservado a matrícula «1ST SWB» para o registar em seu nome.
Nas comemorações dos 50 anos da Ferrari, esteve em exposição no Petersen Automotive Museum e só em 2008 foi vendido ao proprietário mais recente. Foi visto em eventos de clássicos na Alemanha e em França, por exemplo, e fica agora registado mais um capítulo da sua história com uma nova troca (multimilionária) de proprietário em Monterey.
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