O livro de Maria José Oliveira e a PIDE/DGS em Moçambique
Este texto nasce por causa do livro - com o mesmo título desta crónica - que Maria José Oliveira acaba de publicar na Tinta-da-china. Em 165 páginas, a historiadora põe mãos e olhos sobre um recorte de história que muitos julgavam escondido: a atuação da PIDE/DGS em Moçambique na década imediatamente anterior ao 25 de Abril. Na capa surge a fotografia da Vila Algarve, edifício que me virou fixação desde o instante em que o vi. E a obsessão só cresceu quando, finalmente, o pisei.
Há no historiador um instinto que se aproxima do de um escritor - entendendo-se aqui escritor como ficcionista. Tanto num como noutro existe a pulsão de investigar, interrogar, desocultar, chegar a uma verdade. Mesmo quando, no caso do segundo, essa verdade é construída, não se transforma por isso numa mentira. Se antes da escrita não existia, depois dela ganha fôlego - e torna-se real quando se fecha num princípio, num meio e num fim.
Vila Algarve: imponência, decadência e proibição
Enquanto lia Maria José Oliveira, voltei mentalmente à Vila Algarve e vi outra vez as cascas de fruta deixadas à entrada, do lado da Avenida Ahmed Sekou Touré, secas ao sol impiedoso que batia no chão como um martelo. Na primeira vez que a encontrei, quis entrar; quis ainda mais quando percebi o que tinha sido. À vista desarmada, aquela casa altiva, hoje em queda, era um choque visual, e trazia consigo um resto de enigma: o que acontecera ali, quem a habitara, porque é que ficara entregue ao tempo?
Bastaram segundos até eu saber que fora a antiga sede da PIDE, abandonada ao deus-dará desde a independência de Moçambique. Hoje, a entrada é proibida. E a casa, destinada ao trabalho administrativo, serviu também de lugar de kulas - salas de tortura.
Dentro do esqueleto: ecos, objetos e tempos cruzados
Não sosseguei enquanto lá não fui, proibido ou não. Por um buraco na parede - que, quando regressei a Maputo, já estava tapado -, avancei por entre as ervas daninhas crescidas ao acaso e enfiei-me naquele edifício reduzido a esqueleto.
Custa-me imaginar um escritor a encarar aquilo sem ficar preso. Tudo ali parece respirar literatura: o encontro entre grandeza e ruína; a imobilidade do Homem colada ao trabalho do vento e da chuva; e, ao mesmo tempo, a ação do Homem que deixou o lugar reduzido a pedra, a meia dúzia de despojos e algum graffiti, ora de esperança ora de desalento. Caminhar lá dentro, em silêncio, para que o guarda não ouça e não expulse, obriga quase a escutar, na aragem, os gritos dos torturados; ou a ver, na cal descascada, o sangue que lhes terá respingado para as paredes; ou a sentir, nas divisões vazias, o suor de dezenas de homens encavalitados uns nos outros.
É, evidentemente, uma casa de mortos. Dos que ali perderam a vida - ou a esperança - e também dos que, já depois da independência, parecem ter encontrado ali abrigo por não terem onde morar. Apesar das proibições, houve quem procurasse ali um teto; mas, com tamanha incúria, já nem teto restava.
Uma seringa perdida, atirada para o chão partido, diz que, em tempos recentes, alguém entrou à procura de alívio pela veia. E que dizer do brinquedo que vi largado a um canto? De quem seria a criança que nele tocou, onde estará agora? Isto é cogitação de ficcionista; mas a fome do historiador, suspeito eu, aponta ao mesmo: olhar para um objeto, querer saber o que guarda, e sobretudo ser capaz de ver várias décadas a acontecer ao mesmo tempo.
Foi precisamente essa sobreposição de tempos que me prendeu na Vila Algarve - se é que se pode chamar encanto a algo erguido no meio de tamanho horror. Desde o dia em que a vi por dentro, nunca mais consegui voltar a vê-la apenas por fora.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário