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Filmin: “Elon Musk Exposto: a Experiência da Tesla” e os riscos do Autopilot

Carro elétrico branco Tesla Model S estacionado numa sala moderna com janelas grandes e luz natural.

Da protuberância da Volvo ao debate sobre sensores

Os modelos mais recentes da Volvo exibem, na zona frontal do tejadilho, uma saliência bem visível. Aquilo não serve para “dar estilo” - e é fácil imaginar o sacrifício que terá sido para designers suecos, tão maximalistas na sua devoção ao minimalismo, aceitar essa alteração. Dentro dessa peça está instalado um radar a laser, o chamado sistema LiDAR (sigla de Light Detection and Ranging), responsável por criar em tempo real um mapeamento 3D do que rodeia o automóvel durante a marcha. A ideia é simples: ajudar quem conduz, reduzindo a dependência exclusiva do que os olhos conseguem captar para “lidar” com obstáculos que surjam pelo caminho.

A Tesla seguiu, entretanto, uma via quase oposta. Os seus sistemas de condução autónoma assentam apenas em câmaras de vídeo e na capacidade do software do carro para ver e interpretar o mundo. Ainda assim, este ponto de partida não é um texto sobre a Volvo, nem sobre a Tesla, nem sequer - em rigor - sobre o sector automóvel.

O documentário na Filmin e a promessa do “Full Self-Driving”

O assunto é um documentário que chegou em abril à plataforma de streaming Filmin, “Elon Musk Exposto: a Experiência da Tesla”, centrado no modo aparentemente perigoso e irresponsável com que Elon Musk, CEO da Tesla e, de tempos a tempos, o homem mais rico do planeta, tem promovido a condução autónoma nos seus veículos.

O filme sustenta uma ideia principal: Musk terá “vendido gato por lebre”. O piloto automático da Tesla - que permite ao carro conduzir por períodos limitados, assumindo a direção, a travagem e a aceleração - não teria maturidade para tomar o lugar de um condutor humano. Apesar de ser apresentado pela marca como “Full Self-Driving” (isto é, “condução totalmente autónoma”), o sistema terá sido concebido para funcionar apenas como apoio, exigindo que o condutor mantenha os olhos na estrada e esteja preparado para intervir a qualquer momento.

O caso Benavides: o acidente de 2019 e a sentença de 2026

Andreas Pichler abre o documentário com imagens de um acidente rodoviário e com excertos do que se seguirá ao longo dos 90 minutos. No fundo, arranca com uma espécie de trailer de si próprio - uma introdução que funciona como um “nariz de cera” audiovisual.

O episódio central desta abertura remete para 2019. Dillon Angulo tinha parado o carro na berma, no fim de um entroncamento onde a via obriga a escolher entre virar à esquerda ou à direita. A noite estava agradável na Florida e Dillon achou que seria romântico sair para observar o céu estrelado com a namorada, Naibel Benavides, de 22 anos.

Na mesma estrada, a aproximar-se desse entroncamento, seguia um Tesla Model S com o piloto automático ligado. Em vez de cumprir a manobra obrigatória e virar, avançou em frente e acabou por embater no automóvel e no casal. Naibel morreu no local. Dillon sobreviveu, mas ficou com sequelas permanentes.

A família de Naibel avançou com um processo contra a Tesla e, ao contrário de outras vítimas em acidentes associados a falhas do piloto automático, os Benavides recusaram um acordo extrajudicial. A disputa judicial prolongou-se e terminou em fevereiro de 2026 com uma decisão considerada histórica: a Tesla foi tida como 33% responsável pelo acidente e condenada a pagar 243 milhões de dólares à família da vítima. A empresa, entretanto, informou que vai recorrer.

"A Tesla tratou os clientes como ratos de laboratório: testavam os carros enquanto a empresa aprendia com os dados gerados pela utilização"

“Tesla Files”: as denúncias de Lukasz Krupski

Este acidente é apresentado como uma das colunas do documentário. A outra narrativa decisiva passa por Lukasz Krupski, antigo técnico de serviços da Tesla que, em 2023, entregou ao jornal alemão “Handelsblatt” ficheiros internos a que não deveria ter tido acesso. Por negligência ou desorganização da empresa, ficaram ao seu alcance milhares de documentos confidenciais.

O conjunto de informação cedido ao jornal - que publicou a investigação em 2023 sob o título “Tesla Files” - incluía mais de 2400 queixas de clientes sobre aceleração involuntária e mais de 1500 relativas a dificuldades na travagem. Dentro deste último bloco, 139 diziam respeito a travagens de emergência sem motivo aparente e 383 a casos de travagem-fantasma, desencadeados por falsos alertas de colisão. Havia registo de mais de mil acidentes.

Além disso, surgia uma folha de cálculo autónoma com mais de 3 mil entradas associadas a incidentes com sistemas de assistência à condução, na qual clientes levantavam preocupações relacionadas com a segurança.

Entre entrevistas e material de arquivo: o retrato de Musk e o Cybercab

Entre o caso Benavides e os “Tesla Files”, o documentário junta entrevistas com outros denunciantes e com antigos trabalhadores que terão sido despedidos por terem sinalizado, internamente, receios sobre a segurança dos automóveis que ajudaram a produzir.

Fica cada vez mais claro - ainda que a peça de Andreas Pichler, robusta na vertente de reportagem, o sugira mais do que o declare de forma frontal - que a Tesla terá usado os seus próprios clientes como cobaias: sem o perceberem, experimentavam os carros no quotidiano, enquanto a empresa recolhia e aprendia com os dados gerados pela utilização. Um risco para todos.

Também sobressai a distância entre aquilo que muitos compradores esperavam e aquilo que a tecnologia consegue efetivamente entregar, condicionada pela resolução das câmaras e por um campo de visão amplo, mas com fraca perceção de profundidade - o que levaria a um piloto automático “míope”.

“Elon Musk Exposto: A Experiência da Tesla” alterna as histórias principais e as entrevistas com momentos de enchimento. Passam imagens de documentários anteriores sobre Musk, excertos de arquivo de apresentações públicas da Tesla, e recorda-se o percurso do empreendedor sul-africano, as dificuldades financeiras dos primeiros anos da Tesla, a sua influência na reeleição de Trump e a forma como os seus vários interesses e empresas - a Space-X, a Neuralink, a The Boring Company - parecem convergir num objetivo comum: colonizar Marte. Quase nada disto soa verdadeiramente novo.

O que, pelo contrário, ganha outra leitura é o anúncio feito na última semana de abril: a Tesla iniciou a produção do Cybercab, o táxi de condução autónoma há muito prometido, sem volante nem pedais.

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