Khipus e registos no Império Inca
Os habitantes do antigo Império Inca mantinham registos rigorosos sobre economia, religião, demografia e acontecimentos históricos. Esses registos eram feitos através de cordões com nós, conhecidos como khipus.
Até aqui, a ideia dominante entre investigadores era que, no Império Inca (c. 1400-1532), só um grupo muito restrito de funcionários de estatuto elevado dominava a produção de khipus. Como existe pouca evidência directa sobre quem eram esses especialistas, investigadores como eu têm dependido sobretudo de descrições deixadas por cronistas espanhóis do período colonial.
De acordo com essas fontes escritas, os khipus seriam confeccionados exclusivamente por burocratas de topo, a quem estavam reservados os melhores alimentos e bebidas. Na tradição inca, não havia separação entre "autor" e "escriba"; ambas as funções recaíam na mesma pessoa.
A expressão usada para designar um fabricante de khipus, "khipu kamayuq", vem do verbo "kamay", associado à criação no sentido de dar energia à matéria. Os especialistas em khipus - "kamayuq" - animavam os objectos que faziam ao impregnar os cordões com a sua própria vitalidade.
Cabelo humano como "assinatura" em khipus
Eu lidero uma equipa que identificou nova evidência de que pessoas comuns também produziam khipus no Império Inca - o que aponta para uma literacia em khipu potencialmente mais inclusiva do que se pensava. O ponto decisivo desta descoberta foi perceber que, por vezes, os especialistas "assinavam" os khipus que produziam com madeixas do seu próprio cabelo.
Na cosmologia inca, o cabelo humano transportava a essência de uma pessoa. Mesmo separado fisicamente do corpo, o cabelo preservava a identidade do seu dono.
O primeiro corte de cabelo de uma criança, por exemplo, constituía um rito de passagem de grande importância. O cabelo retirado nesse ritual era oferecido aos deuses ou guardado em casa como objecto sagrado.
No caso do imperador inca, os recortes de cabelo eram guardados ao longo da vida; depois da sua morte, esse cabelo era transformado num simulacro em tamanho real, venerado como se fosse o próprio imperador.
Do ponto de vista histórico, quando cabelo humano era amarrado aos khipus, esse cabelo funcionava como a "assinatura" da pessoa de quem fora retirado. A nossa equipa observou recentemente este princípio na aldeia de altitude de Jucul, no Peru, onde os habitantes possuem mais de 90 khipus ancestrais, alguns confeccionados há séculos.
Nos khipus de Jucul, o cabelo humano preso ao cordão principal indica as pessoas responsáveis por produzir cada secção do khipu. Isto está em linha com conclusões anteriores segundo as quais pastores nas terras altas do Peru prendiam o próprio cabelo aos khipus "como uma assinatura", assinalando a sua responsabilidade pela informação representada nos cordões.
De forma mais geral, objectos pessoais amarrados ao cordão principal - ou incorporados nele por outros meios - identificam o criador ou autor do khipu.
Um exemplo é um khipu do século XVI proveniente da comunidade andina de Collata: tiras do cachecol-insígnia de um líder, atadas ao cordão principal, simbolizam o homem que foi o autor do khipu, investindo-o da sua autoridade.
Em contrapartida, quando um khipu reunia informação sobre várias pessoas, os dados de cada indivíduo eram assinalados por uma faixa de pendentes da mesma cor ou pela inclusão de cabelo de múltiplas pessoas nos próprios pendentes.
Analisar o cabelo
A nossa equipa identificou um khipu da época inca, conhecido como KH0631, cujo cordão principal é feito inteiramente de cabelo humano de uma única pessoa. Até agora, os khipus não tinham sido examinados quanto à presença de cabelo humano, pelo que não se sabe com que frequência este material ocorre.
No caso do KH0631, é provável que o cabelo no cordão principal represente a pessoa que confeccionou o khipu, marcando o objecto com a autoridade e a essência desse indivíduo.
O cabelo do cordão principal do KH0631, com 104 cm de comprimento, foi dobrado ao meio e torcido no momento em que o khipu foi produzido. Considerando um crescimento de 1 cm por mês, este cabelo corresponde a mais de oito anos de crescimento.
Para percebermos quem poderia ter feito o khipu, realizámos medições simultâneas de isótopos de carbono, azoto e enxofre numa amostra recolhida na extremidade do cordão.
Em termos gerais, a presença do isótopo C4 (em vez de C3) aponta para consumo de milho nas dietas andinas; os níveis relativos de isótopos estáveis de azoto permitem inferir a proporção de carne na alimentação; e os níveis de isótopos estáveis de enxofre ajudam a determinar a importância de fontes alimentares marinhas.
Como o cabelo estava dobrado, a ponta solta incluía tanto cabelo cortado perto do couro cabeludo como cabelo da extremidade das madeixas. Assim, a amostra reflectia dois períodos da vida da pessoa, separados por oito ou mais anos.
A análise isotópica de carbono, azoto e enxofre em cabelo humano já foi usada para reconstruir a dieta de antigos povos andinos. No Estado Inca, os padrões alimentares de grupos de estatuto elevado e de estatuto mais baixo diferiam de forma acentuada.
As elites consumiam mais carne e pratos à base de milho, enquanto as pessoas comuns comiam mais tubérculos, como batatas, e verduras. Para nossa surpresa, a análise isotópica do cabelo humano do KH0631 revelou um perfil alimentar típico de uma pessoa comum de baixo estatuto: uma dieta sobretudo vegetal, centrada em tubérculos e verduras, com muito pouca carne ou milho.
A análise do isótopo de enxofre indica uma contribuição marinha reduzida, o que sugere que esta pessoa viveria provavelmente nas terras altas e não no litoral. Nos Andes antigos, as elites banqueteavam-se com carne e cerveja de milho, ao passo que as pessoas comuns jantavam batatas, leguminosas e pseudocereais como a quinoa. Tudo indica, portanto, que o especialista em khipu responsável pelo KH0631 era um plebeu.
O que os isótopos sugerem sobre a origem geográfica
Como não sabemos em que zona dos Andes o KH0631 foi feito, analisámos também os isótopos de oxigénio e de hidrogénio na amostra. Os resultados apontam para que a pessoa vivesse nas terras altas, entre 2 600-2 800 m de altitude, no sul do Peru ou no norte do Chile (sem melhores dados sobre os valores da água local, a localização exacta continua a ser provisória).
Esta é a primeira vez que se realiza uma análise isotópica em fibras de khipu. A "assinatura" de cabelo humano no cordão principal do KH0631 permitiu-nos saber mais sobre a pessoa que produziu este objecto.
Embora alguns investigadores tenham defendido que, no Império Inca, apenas funcionários de elite faziam khipus, a nossa nova evidência indica que pessoas comuns também os produziam - e que a literacia em khipu poderá ter sido mais difundida do que se acreditava.
Sabine Hyland, Professora de Antropologia Social, Universidade de St Andrews
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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