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Ecrãs e comandos físicos: o regresso do bom senso ao automóvel

Carro elétrico branco moderno estacionado dentro de uma sala de exposição com janelas grandes.

Em certos automóveis recentes, gestos tão elementares como subir a temperatura da climatização ou desembaciar os vidros deixaram de ser automáticos e passaram a exigir um instante de dúvida.

A mão procura, por reflexo, o comando de sempre - e encontra um ecrã. No ecrã, abre-se um menu, depois outro. E, por fim, lá está um ícone que pede pontaria, porque é mais pequeno do que seria razoável.

Quando o básico vira um “microprocesso” no ecrã

O efeito é mau: a ligação ao carro torna-se mais fria no momento em que nos pedem para trocar o conforto das operações simples por microprocessos digitais. E convém não esquecer que modernidade e progresso, ao contrário do que tantas vezes se assume, não significam a mesma coisa.

Não tenho nada contra ecrãs - e muito menos contra tecnologia; isso nem faria sentido. Fui um dos fundadores deste órgão de comunicação social digital, que há 14 anos era visto com desconfiança por não estar nas bancas, em papel. Portanto, isto não é nostalgia, nem alergia à inovação, nem incapacidade de perceber o que as pessoas procuram.

A questão é que estes carros não ficaram mais modernos, nem mais práticos; na verdade, obrigam-nos a um esforço extra e pouco natural para os usar no dia a dia. Para mim, foi aí que soou o primeiro alarme.

Minimalismo no interior: o que os construtores quiseram vs. o que os condutores precisaram

Durante muito tempo, venderam-nos a promessa de que o habitáculo do futuro teria superfícies “limpas”, interiores minimalistas e um grande painel destinado a substituir tudo o que era físico. Aos construtores, a ideia agradou; aos consumidores, nem tanto.

A produção ficou mais simples: menos peças, mais uniformização de componentes, e um caminho aberto para uma lógica em que o software manda. Isso encaixou perfeitamente na narrativa da conectividade permanente e ganhou ainda mais força com os carros elétricos, que passaram a ser apresentados como bandeiras de progresso para além do próprio motor elétrico.

Só que - ao contrário do que oiço tantas vezes - um automóvel não é uma sala de estar e muito menos um smartphone. É um objeto que se utiliza em movimento, em estrada partilhada com outros veículos a velocidades diferentes e com comportamentos distintos. Há barulho, tensão, chuva no inverno e sol agressivo no verão; há crianças a falar no banco de trás; há o desgaste de quem trabalhou o dia inteiro e só quer chegar. Num contexto destes, ergonomia não devia ser tendência: devia ser segurança.

Euro NCAP, Volkswagen, Mercedes-Benz e Tesla: sinais de recuo e de bom senso

Quando entidades como o Euro NCAP começam a premiar comandos físicos para funções essenciais, não é birra nenhuma; é o reconhecimento de que existem tarefas que não podem depender de “mais um toque” aqui e ali. No fundo, trata-se de assumir o óbvio: ninguém deve estar a aprender a usar o carro enquanto conduz.

Basta olhar para a Volkswagen, que apresentou o novo ID. Polo como “um regresso às origens”. Andreas Mindt, responsável de design da marca, disse numa entrevista que tive oportunidade de lhe fazer recentemente que “a indústria foi atrás de modas” e acabou por deixar de desenhar carros para pessoas reais. Um movimento semelhante começa a notar-se na Mercedes-Benz e até na Tesla, que abriu caminho a esta filosofia e acabou por recuar depois da ideia brilhante de eliminar a haste dos piscas.

E isto não é um fenómeno exclusivo da Europa. Na China, o maior mercado automóvel do mundo, o governo deu pouco mais de um ano aos construtores para cumprirem novas regras nesta matéria - se quiserem continuar a vender.

Há ainda outras tendências com os dias contados, como os puxadores embutidos nas portas. Os argumentos são parecidos, com a segurança no topo da lista. É o tipo de solução que parece inevitável quando se olha para o automóvel apenas como um objeto aerodinâmico, onde cada optimização conta. Mas esse equilíbrio permanente entre designers, engenheiros, responsáveis de produto e as equipas de comunicação e marketing - que é o que um automóvel acaba por ser - precisa de limites definidos pelo bom senso.

E o que me agrada neste aparente retorno ao bom senso é não ter nada de nostálgico. Não é saudade dos anos 90, nem uma manifestação contra a eletrificação. É, isso sim, um sinal de maturidade: a indústria automóvel percebeu que o futuro tem de ser funcional, intuitivo e respeitar o tempo e a atenção de quem está ao volante.

A tecnologia certa no sítio certo

Admito sem dificuldade que aprecio um painel de instrumentos com uma componente digital forte, desde que seja rápido e bem desenhado; gosto de um head-up display organizado e realmente útil; e, no quotidiano, já não dispenso Apple CarPlay. E nem vale a pena esquecer as actualizações remotas, que corrigem problemas, refinam funções e evitam deslocações desnecessárias à oficina.

Ainda assim, lembro-me de que, nos primeiros testes em vídeo que fiz - quando eu tinha uma farta cabeleira -, choveu crítica nos comentários sempre que eu apontava a falta de botões físicos para funções essenciais. “Velho do Restelo”, “parado no tempo” era leitura habitual. O que acaba por provar que estar certo antes do tempo também pode ser estar errado. Uma frase que o Guilherme Costa repete muitas vezes.

Não vou entrar no tema da condução autónoma, porque o texto já vai longo; fica essa conversa para outro dia. Algo me diz que este velho do Restelo ainda terá mais qualquer coisa para dizer. Se estará certo ou errado, o tempo dirá.

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