Entre a homenagem e o choque com a realidade
No Dia Internacional do Enfermeiro, repetem-se, de norte a sul do país, as comemorações, os elogios e os agradecimentos. Ainda bem: são justos e merecidos. O problema é que, quando estes gestos são confrontados com o que se vive todos os dias, todo o esforço retórico soa a estrondo vazio - como um balão que rebenta e deixa apenas um resto de zero.
Burocracia e medo: o travão aos cuidados de enfermagem
"A burocracia é a arte de transformar o possível em impossível". A frase da escritora Austro-Húngara Marie von Ebner-Eschenbach, nasceu para um império já desaparecido, vem do séc. XIX e, mesmo assim, parece escrita para Portugal.
Chega a ser quase edificante observar o empenho com que o país consegue travar a evolução dos cuidados de enfermagem. Não por maldade, mas por receio. Sem dolo, mas com culpa.
Hoje, por todo o lado, ouvir-se-ão declamações grandiosas sobre as conquistas da enfermagem, proclamações apoiadas em estudos sobre as vantagens que a profissão traz aos cuidados, discursos que sublinham ganhos em saúde para as populações e outras verdades que, amanhã, ninguém terá na memória.
Não quero acrescentar mais um texto de ocasião num país que raramente é pró-ativo, mas que se esforça por ser sempre politicamente correto.
Talento que sai: 14.000 em falta e a emigração
Não me interessa fingir que não faltam 14.000 enfermeiros num país que, todos os anos, deixa partir cerca de metade dos profissionais que forma.
Também não dá para ignorar o elevador social que a educação deveria representar e vê-lo convertido num lançador de enfermeiros para a emigração: Portugal paga a formação e outros países ficam com os benefícios.
Isto, lamento dizê-lo, é gerir uma despensa.
Não é investimento. Não é coragem. Não é planeamento.
Envelhecimento, prevenção e sustentabilidade do SNS
Portugal tem uma pirâmide demográfica invertida, está entre os países mais envelhecidos do mundo e, apesar disso, insiste em não compreender que precisa de reter talento para garantir a sustentabilidade do SNS, a racionalidade económica e, sobretudo, para salvar vidas humanas.
Falhámos no envelhecimento ativo e na prevenção da doença. E, se continuarmos a permitir que os nossos enfermeiros saiam, acabaremos também por sabotar a viabilidade financeira do SNS.
O que o ICN diz para 2026
Para fechar, de forma direta e quase visual - e para pensarmos no contraste entre aquilo que fazemos e o que o mundo defende - deixo a afirmação do ICN para o Dia Internacional do Enfermeiro de 2026:
"Nossos enfermeiros. Nosso futuro. Enfermeiros empoderados salvam vidas"
A pergunta é simples: Portugal quer mesmo escutar isto, ou vai continuar a limitá-lo a um aplauso anual?
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