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Gravidez, trabalho de parto e instinto: uma rendição ao corpo

Mulher grávida de olhos fechados encostada na cama num quarto com roupa de bebé e livro aberto.

Gravidez e a ilusão do controlo

A gravidez é um acontecimento que vai muito além do que é racional. Para quem está habituada a viver do pensamento - a trabalhar com ideias e a construir o seu ofício a partir delas - há uma enorme lição de humildade em não conseguir comandar nada com a mente e, mesmo assim, estar dentro de um processo de criação. Estou habituada ao trabalho criativo que faço a partir das minhas visões e dos meus desejos; mas este, o mais decisivo de todos, desenrola-se no corpo, indiferente às minhas fantasias de controlo e às minhas tentativas de antecipar o que aí vem.

Energia do corpo e o impulso de "nesting"

Ainda assim, existe um consumo intenso de energia fisiológica que, por ser canalizada para o ventre, me tira ânimo (ou ferro, para quem prefere ser mais pragmático), nitidez e disponibilidade para pensar. O músculo criativo fica mais lento, porque a prioridade passa a ser a criação real. Enquanto o meu útero amadurece dois pulmões e ajuda o bebé a ganhar peso para chegar forte o suficiente ao esforço do parto, o pensamento inclina-se mais para o "nesting" do que para a escrita; cumprir as últimas tarefas torna-se um exercício de insistência.

Eu, que gosto tanto de trabalhar, de pensar nas coisas do Mundo e de conversar sobre cultura, história e geopolítica, descubro que só me apetece ir organizar gavetas. E nem é por causa dos pequenos desconfortos da gravidez que, no terceiro trimestre, se somam e parecem crescer. É porque o meu cérebro de grávida quer encolher para a intimidade, como fazem as mamíferas: procurar uma toca segura, com pouca luz, onde seja possível encontrar aconchego na hora do parto, ficando com cada vez menos espaço interior para abarcar a imensidão do planeta e os seus problemas.

Trabalho de parto, "partolândia" e medo cultural

O corpo sabe o que faz: quanto mais nos fixamos no caos do nosso tempo, mais angustiadas e ansiosas ficam as mães de dois mil e vinte seis. Há um ponto em que a prioridade é "mamiferizar" a existência e deixar que as hormonas conduzam. No fundo, grande parte do trabalho de parto é rendição: a entrada na "partolândia", o desligar da zona racional do cérebro e a entrega ao instinto fisiológico. Impressiona esse instante em que nos permitimos cair - em que canalizamos a sabedoria ancestral do corpo - porque, ao percebermos que não controlamos absolutamente nada de forma racional, afinal sabemos exactamente o que fazer.

É profundamente triste que a nossa cultura nos tenha incutido tanto terror em relação a esse momento, tornando a experiência mais difícil. E é igualmente lamentável que se interfira tantas vezes, sem necessidade, nos processos naturais - mesmo quando é evidente como é precioso ter a medicina do nosso lado quando está em causa salvar vidas. Como seria bom se cada vez mais mulheres atravessassem esse portal transformador com menos medo e mais liberdade, tocando o "Poder" que nos faz sentir invencíveis, reforçando a ideia de que a grande força criadora está em nós e de que é em nós que tudo começa. (Suspeito até que o patriarcado tenha inventado a existência de Deus para não ter de reconhecer isso mesmo).

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