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VCBR na América do Sul: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru

Soldados em uniforme militar a operar drone e equipamento tecnológico ao ar livre, com veículo blindado ao fundo.

Nos últimos anos, os diferentes exércitos da América do Sul têm evidenciado um interesse crescente em re-equipar as suas unidades com novas plataformas blindadas conhecidas, no nosso meio, como Veículos de Combate Blindados sobre Rodas (VCBR). Historicamente, estes sistemas partiram do conceito de blindados vocacionados sobretudo para o transporte de tropas, mas foram evoluindo, do ponto de vista técnico e operacional, para oferecerem um leque mais amplo de capacidades aos decisores. Assim, este artigo propõe um breve enquadramento do conceito de VCBR, a situação actual destes meios nos principais países da região, as suas origens, capacidades e os programas de modernização em curso.

Sentando algumas bases conceptuais

Antes de entrar nos casos nacionais, é útil clarificar o que entendemos por VCBR e como se distinguem de outros tipos de plataformas terrestres existentes nos inventários de cada país. Em termos gerais, trata-se de um sistema blindado sobre rodas, normalmente em configurações 6×6 e 8×8, capaz de desempenhar diferentes missões. O transporte de tropas é a função mais associada ao conceito, mas deve igualmente considerar-se o seu emprego em missões de reconhecimento e de apoio de fogo a unidades de infantaria, bem como em evacuações médicas de emergência e ainda como postos de comando e controlo no terreno.

A isto acresce uma vantagem relevante: por utilizarem rodas, estes veículos tendem a oferecer ganhos importantes em velocidade, flexibilidade e logística face aos equivalentes de lagartas. Na prática, isto traduz-se numa capacidade de projecção superior e em menores exigências de manutenção ao longo do tempo - factores particularmente relevantes para os países da região quando ponderam investir num novo sistema.

Por outro lado, embora a estabilidade seja geralmente inferior à de plataformas de lagartas (com impacto quando se pretende operar armamento de grande calibre em acções ofensivas), o conceito VCBR já demonstrou amplamente a sua aptidão para integrar uma variedade de armas, mantendo-se uma solução versátil. Há opções que vão desde canhões principais de 120 mm, passando por torres de 30 e 25 mm, até metralhadoras de 7.62 mm.

Os novos VCBR da Argentina

No primeiro caso, o Exército Argentino e a sua aquisição mais recente: os 8×8 M1126 Stryker comprados aos EUA, após um processo longo e marcado por avanços e recuos, em grande medida associados à postura política - frequentemente variável - perante os diferentes países que apresentaram propostas com os respectivos modelos, algo também observado noutros programas de reequipamento do país. Ao longo desse percurso foram considerados sistemas como os VN-1 (ZBL-09) da chinesa Norinco, o Pandur II de Excalibur/GDELS promovido por Israel e os Iveco Guaraní produzidos na vizinha República Federativa do Brasil; por estes últimos, o governo argentino chegou inclusivamente a assinar uma Carta de Intenção.

A incorporação ainda decorre. As quatro primeiras unidades foram recebidas em dezembro (quase cinco anos após o pedido submetido ao Departamento de Estado), e serão a base para começar a formar a desejada Brigada Mecanizada sobre Rodas; o objectivo aponta para a entrada de mais de 200 exemplares. O factor político - com um alinhamento explícito da administração actual com os EUA - teve também peso na decisão.

Ainda que não sejam, hoje, os VCBR mais recentes do mercado, continuam a ser plataformas muito capazes e com eficácia comprovada em combate, tendo operado em teatros como o Afeganistão, a Síria e o Iraque, entre outros. Trata-se, além disso, de um desenho com uma família de 27 variantes desde o lançamento; os veículos recebidos pelo Exército Argentino pertencem à versão 8×8 M1126 ICV para transporte de tropas, com espaço para uma equipa de até nove pessoas (incluindo equipamento). Integram motores Caterpillar C7 de 350HP, suspensão hidropneumática independente e blindagem em aço de alta dureza que assegura protecção integral contra tiros de 7.62 mm e protecção frontal contra 14.5 mm; esta protecção pode ser potencialmente reforçada com placas cerâmicas MEXAS 2C e é complementada por protecção NBQ.

É igualmente conhecido que estes veículos dispõem de um visor térmico AN/VAS-5 para o condutor, em complemento aos três periscópios M-17. Já o comandante opera uma estação de armamento remotamente controlada Protector da série M151, equipada com módulo de imagem térmica. O sistema é compatível com armas como a metralhadora M2 de 12,7mm, uma FN MAG/M240 ou um lançador de granadas automático MK19 de 40mm.

Em matéria de velocidade, cada viatura pode atingir 101 km/h, e a autonomia, em estrada, situa-se entre 450 e 500 quilómetros. Quanto às dimensões, os Stryker têm 7,31 metros de comprimento, 2,87 metros de largura e 2,69 metros de altura, com capacidade de vau na ordem dos 1.3 metros.

Brasil e as suas robustas capacidades acompanhadas de um projecto industrial estratégico

No caso do Brasil, estamos perante o país com maior capacidade em VCBR em toda a região, recorrendo a dois modelos principais para equipar as unidades blindadas do Exército Brasileiro. Em concreto, falamos dos 8×8 Centauro II BR, produzidos pelo consórcio italiano Iveco-Oto Melara, e dos já referidos Iveco Guaraní.

Quanto ao primeiro, é impossível ignorar o seu poder de fogo, patente no canhão estabilizado L45 de 120 mm. A recepção por parte da instituição teve início em 2024, quando Brasília avançou com um lote de duas unidades para avaliações técnico-operacionais, a fim de validar as prestações indicadas pelo fabricante. Esse passo antecedeu a compra de uma frota adicional de 96 exemplares, que começaram a ser recebidos a partir de maio de 2025 pelo 6º Esquadrão de Cavalaria Mecanizada. Assim, o Exército Brasileiro iniciou o processo de substituição dos já envelhecidos EE-9 Cascavel, em serviço desde a década de 70.

Em termos de características, além do já referido canhão de 120 mm com alcance até 4 quilómetros, estas viaturas contam com duas metralhadoras de 7,62 mm (coaxial e antiaérea), lançadores de granadas, bem como sistemas avançados de pontaria, controlo de tiro e comunicações. Dispõem também de um sistema de controlo da pressão dos pneus, o que lhes garante elevada mobilidade em diferentes tipos de terreno; a autonomia é indicada em cerca de 800 quilómetros.

Já os Iveco Guaraní começaram a ser integrados no dispositivo brasileiro a partir de 2012, com o objectivo de substituir os EE-11 Urutu e os EE-9 Cascavel, somando actualmente uma frota com mais de 700 unidades entregues. Entre as suas características destaca-se a capacidade de integrar metralhadoras remotamente operadas de 7.62 ou 12.7 mm, e um lançador de granadas de 40 mm (paralelamente, houve avanços no desenvolvimento e integração da nova torre UT-30BR com o canhão ATK Bushmaster MK44 de 30 mm). Acresce o desenho em “V”, que melhora a protecção contra minas terrestres.

Para lá do plano técnico - e justificando o subtítulo - importa referir que o Guaraní se tornou também uma alavanca estratégica para a indústria militar brasileira, contribuindo para a criação de emprego, receitas de exportação e consolidação de competências nacionais. Um exemplo ilustrativo é o caso das Filipinas, que compraram 28 unidades apesar de um veto alemão associado a denúncias de violações de direitos humanos; para viabilizar a operação, o Brasil trabalhou na substituição de componentes através de acordos com a indústria local.

Chile entre a incorporação dos LAV III e a necessidade de substituir os Mowag Piraña

Ao observar o caso do Chile, sobressai uma particularidade relevante: a aquisição de um lote de VCBR destinado especificamente à Armada. Em concreto, trata-se do LAV III anteriormente operado pelas Forças Armadas da Nova Zelândia, que, mediante um pagamento de USD 19,85 milhões por um lote de 22 unidades (provenientes de uma frota originalmente composta por 105), passou a equipar a Infantaria de Marinha chilena.

Em termos de enquadramento, estes veículos foram incorporados pelo utilizador original a partir de 2003, passando a ser designados como NZLAV. A produção ocorreu no Canadá, em instalações da General Dynamics Land Systems, e o fabricante descreve um conjunto com torre armada com um canhão M242 Bushmaster de 25 mm e uma metralhadora coaxial MAG-58 de 7.62mm, complementados por dois lançadores de granadas de fumo de 76 mm. Estes meios têm também experiência operacional comprovada, em particular no Afeganistão, onde a Nova Zelândia chegou a perder uma unidade e várias outras foram atingidas por explosivos improvisados.

A chegada ao país andino foi viabilizada por uma avaliação do governo neozelandês em 2012, que concluiu que a quantidade de VCBR ao serviço excedia as necessidades estratégicas definidas, abrindo caminho à venda a parceiros interessados. Nessa altura, estimava-se que cerca de 20 viaturas estariam abrangidas por essa decisão, número que acabou por ser revisto em mais 10 unidades em 2019.

Por outro lado, o Exército do Chile dispõe da sua própria frota de VCBR, neste caso composta pelos 6×6 Mowag Piraña I. São viaturas produzidas localmente sob licença pelas empresas Cardoen e FAMAE, com mais de 200 unidades distribuídas pelos diferentes Regimentos de Cavalaria Blindada.

Ao longo de mais de quatro décadas de serviço - o que torna necessário pensar num substituto a curto prazo -, o blindado foi utilizado em funções diversas: transporte de tropas, porta-morteiros (com sistemas de 120 mm), defesa antiaérea (com dois canhões de 20 mm), função anti-blindado (com um canhão Oerlikon de 25 mm), ambulância e posto de comando. Para prolongar a vida útil, os Mowag Piraña I foram alvo de programas de modernização como o Huracán III, no qual a remotorização de unidades se destacou como um dos principais eixos.

Colômbia e uma aquisição marcada por polémicas

Tal como no exemplo argentino, é frequente que compras de novos sistemas para as Forças Armadas ganhem notoriedade tanto - ou até mais - pela polémica que geram do que pela sua entrada em serviço e pelo impacto efectivo nas capacidades de defesa. Esse foi, sem dúvida, o caso dos VCBR 8×8 LAV III actualmente operados pelo Exército Colombiano, cujo processo contratual foi iniciado a 30 de dezembro de 2022.

Com um investimento superior a 300 milhões de dólares, a operação acabou por ser alvo de uma investigação prolongada por parte da Fiscalía General de la Nación, surgindo relatos sobre alegados sobrecustos e falta de transparência no processo de selecção; apontou-se, inclusivamente, para a possibilidade de adquirir um maior número de VCBR pelo mesmo montante, ou modelos com melhores capacidades tecnológicas. Em termos concretos, isto levou a várias convocações do então ministro da Defesa, Iván Velazquez, bem como de um número significativo de responsáveis do ministério ligados ao projecto.

Entre os pontos salientados na altura, recorde-se que os blindados foram comprados por um custo unitário de 5.54 milhões de dólares, valor que sobressaía quando comparado com LAV III incorporados pouco mais de uma década antes, que teriam custado 2,62 milhões de dólares por viatura. A reforçar as suspeitas, considerou-se ainda a compra chilena de veículos em segunda mão por 900 mil dólares por unidade, o que foi interpretado como um uso questionável de recursos por parte de Bogotá.

Além disso, a Colômbia já dispõe de uma frota própria de viaturas Textron M1117 4×4, um transporte de tropas com prestações semelhantes ao LAV III no que respeita ao número de militares transportados, nível de protecção e experiência em combate. Trata-se de um modelo adquirido originalmente em 2011, com 67 unidades entregues até 2016, às quais se juntaram outras 145 usadas compradas aos EUA a custos consideravelmente inferiores.

Mais ainda, atendendo ao emprego dado aos VCBR em operações contra grupos insurgentes, o tema tornou-se mais sensível quando se considerou a existência de alternativas mais baratas e tecnicamente adequadas. Em particular, deve ter-se em conta a produção local das famílias Hunter e Titán, já testadas no Exército da Colômbia, com um custo de apenas 500 mil dólares por unidade; este valor seria parcialmente compensado pelo estímulo à indústria nacional. Em termos simples, isto significa que um único LAV III implicava praticamente a mesma despesa que 10 Titán.

Peru a evidenciar a sua ligação à Coreia do Sul

Por fim, importa analisar o Peru e aquilo que se desenha como uma aquisição relevante de VCBR junto daquele que vem sendo o seu principal parceiro em exportações de armamento: a Coreia do Sul. Em concreto, Lima fechou um acordo-quadro com a Hyundai Rotem para facilitar o caminho à incorporação de 141 VCBR K808 White Tiger, além de 54 novos carros de combate K2 Black Panther para reforçar ainda mais o Exército. Para Seul, esta seria a maior venda de blindados a um cliente regional, um indicador do vínculo estreito entre os dois países.

Embora a aquisição ainda não esteja concluída, o tema deve ser analisado não apenas pelo ângulo técnico, mas também pelo seu componente industrial e pelo impacto favorável esperado para o país. Isto porque a empresa sul-coreana já manifestou abertura para instalar uma unidade de montagem em território peruano durante o fórum “La Industria de la Defensa como Política de Estado”, o que permitiria assegurar a manutenção dos blindados adquiridos e criar novos postos de trabalho durante mais de uma década.

Quanto às capacidades actualmente disponíveis, o país conta com uma frota de VCBR LAV II 8×8 Caimán ao serviço das unidades de infantaria de marinha, tendo as duas primeiras unidades sido entregues à Brigada Expedicionária Anfíbia em 2015. Isso iniciou as entregas de até 32 exemplares adquiridos à Corporação Canadiana de Comércio, num investimento na ordem dos 67 milhões de dólares. Desde então, estes meios têm participado activamente em diferentes actividades, incluindo os exercícios RIMPAC e UNITAS, entre outros.

Em particular, este lote corresponde à variante APC, caracterizada por permitir o transporte de equipas com até oito efectivos, além dos dois tripulantes necessários para a operação. Sabe-se também que, no momento da aquisição, o acordo de Lima definiu a divisão das 32 viaturas em dois grandes grupos: 24 equipadas com metralhadoras M-2HB QCB de 12.7 mm e as 8 restantes com lançadores de granadas MK-19 de 40 mm.

Por último, não deve ser ignorada a existência de uma frota já reduzida de BMR-600 no inventário da Marina de Guerra do Peru, cuja incorporação começou na década de 80’ até perfazer 24 unidades. Com o passar do tempo, os relatos indicaram que a frota caiu para apenas cerca de 16 viaturas em 2014, registando-se doações de exemplares à Polícia Nacional. Já em 2023, nos trabalhos de preparação para envio para a missão de paz das Nações Unidas na República Centro-Africana (MINUSCA), apenas 6 unidades foram abrangidas.

Imagens utilizadas a título ilustrativo


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