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Terras raras: Europa entre a China e a indústria de Defesa da OTAN

Homem de bata branca analisa um prisma de cor num laboratório com mapa e modelo de avião ao fundo.

Nos últimos tempos, a Europa tem elevado o tom sobre as terras raras, apelando ao bloco para acelerar a capacidade interna e, assim, reduzir a dependência da China nestes elementos químicos, decisivos para a indústria de Defesa. O tema ganhou ainda mais força depois de Beijing ter imposto controlos às exportações - uma medida que, na prática, levou algumas indústrias europeias a abrandar a produção.

Por detrás da linguagem técnica, porém, está uma realidade desconfortável para várias capitais europeias: os mesmos minerais de que a transição energética e as políticas de sustentabilidade europeias precisam são, ao mesmo tempo, indispensáveis para a base industrial de Defesa da OTAN. Sem neodímio, praseodímio ou samário, por exemplo, não há radares de longo alcance, nem caças furtivos, nem submarinos de propulsão silenciosa, nem mísseis para sistemas de defesa e para aeronaves de combate.

Terras raras na Defesa: por que são tão difíceis de substituir

Estes 17 elementos químicos não parecem particularmente impressionantes ou “futuristas” no seu estado puro. Ainda assim, quando convertidos em ímanes permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB) ou de samário-cobalto (SmCo), tornam-se praticamente insubstituíveis em Defesa, graças à elevada densidade de energia magnética, à tolerância a temperaturas extremas e à estabilidade em ambientes com vibração e radiação.

O obstáculo é que o núcleo tecnológico destes sistemas continua, hoje, a depender - de forma directa ou indirecta - da China.

Dos caças furtivos aos submarinos nucleares

A ambivalência desta dependência não afecta apenas a Europa, estendendo-se também à América do Norte. De acordo com dados reunidos pela Benchmark Mineral Intelligence e analisados pela Klean Industries, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos considera que cerca de 78% dos seus programas de armamento inclui componentes que necessitam de ímanes de terras raras.

Um exemplo frequentemente citado é o do caza furtivo F-35 Lightning II, que, em média, integrará cerca de 418 kg de terras raras. Estes materiais aparecem em vários sistemas: desde os sistemas de pontaria e os radares AESA, passando pelos sistemas de designação laser de alvos, até aos actuadores eléctricos que substituem os antigos circuitos hidráulicos.

De forma geral, esta dependência torna-se ainda mais marcada no domínio naval. A construção de um destróier de mísseis guiados Arleigh Burke pode implicar entre 2,3 a 2,6 toneladas de terras raras, empregues em motores de propulsão eléctrica, nos sistemas de governo do navio, nos tubos de micro-ondas dos radares SPY-1/SPY-6 e em múltiplos subsistemas de combate.

A lista de plataformas e munições que recorrem a terras raras continua a crescer. Num submarino nuclear da classe Virginia, as estimativas ultrapassam as 4 toneladas de terras raras por unidade. Drones militares como o MQ-9 Reaper ou o MQ-4 Triton transportam centenas de ímanes NdFeB em motores e sensores; e mísseis e munições guiadas, como os Tomahawk, Javelin ou o Excalibur, dependem de ímanes nos seus sistemas de orientação e de navegação inercial. Em termos simples: se um sistema militar moderno tiver movimento eléctrico de precisão, emissão electromagnética potente ou guiamento, há terras raras envolvidas.

China, fornecedor dominante de um insumo estratégico

O problema para o Ocidente é que a oferta global está concentrada de forma perigosa na China. Segundo o Statistical Review of World Energy 2024, do Energy Institute, a produção mundial de terras raras passou de cerca de 75,7 quilotoneladas em 1995 para mais de 350 quilotoneladas em 2023. Dentro desse total, a China representa mais de dois terços da mineração e aproximadamente 70–75% do processamento e do refinamento.

A Agência Internacional de Energia tem vindo a alertar que a maioria dos minerais críticos - incluindo as terras raras - se encontra concentrada em muito poucos países, com a China a dominar o refinamento de 19 de 20 minerais estratégicos analisados. Esta configuração agrava o risco de coerção económica e de rupturas de abastecimento, algo a que a Europa já ficou exposta este ano devido às restrições chinesas às exportações de terras raras e de outros materiais estratégicos.

A resposta europeia: Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas e autonomia estratégica

Na Europa, o debate sobre terras raras começou por se focar na transição energética e na competitividade industrial. Contudo, quando se considera o peso destes materiais na indústria de Defesa, o assunto alarga-se e transforma-se também numa questão de poder militar e de autonomia estratégica face à China.

Neste contexto, o vice-presidente da Comissão Europeia e comissário da Indústria, Stéphane Séjourné, anunciou a criação de um Centro Europeu de Matérias-Primas Críticas, pensado para funcionar como um “hub” de compras conjuntas e de reservas estratégicas de terras raras. Em última análise, o que está em causa não é apenas a tão proclamada “transição verde” e a sustentabilidade, mas também a capacidade de manter uma indústria europeia de Defesa sem ter de bater à porta de Beijing.

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