Saltar para o conteúdo

MV Hondius: surto de hantavírus leva OMS a preparar repatriamento em Granadilla de Abona, Tenerife

Pessoas desembarcando de cruzeiro, com funcionário em equipamento de proteção a controlar documentos num cais junto ao mar.

MV Hondius a caminho de Granadilla de Abona, em Tenerife

A cerca de 48 horas da chegada prevista ao porto de Granadilla de Abona, em Tenerife, tudo indica que a escala do navio de cruzeiro neerlandês “MV Hondius” está a ser preparada sem sobressaltos. A embarcação segue da Praia, em Cabo Verde, transportando a bordo uma crise sanitária séria que mobiliza autoridades internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

O “MV Hondius”, afetado por um surto de hantavírus, numa variante com origem nos Andes, deverá chegar ao arquipélago das Canárias no próximo domingo, 10 de maio. A passagem por Tenerife servirá de ponto de partida para repatriar as 88 pessoas passageiras e os 61 membros da tripulação, de 23 nacionalidades - entre elas, a portuguesa - que continuam a bordo desde que o problema foi identificado.

Casos de hantavírus e rastreio internacional

Espanha aceitou receber o “MV Hondius” por motivos humanitários e à luz da legislação internacional. O pedido partiu da OMS, depois de se concluir que Cabo Verde, o último país previsto no itinerário do cruzeiro, não dispõe de meios para lidar com a situação. Ainda assim, o caso desencadeou uma polémica política relevante em Espanha, com críticas ao Governo de Pedro Sánchez por alegado “descontrolo” na condução do processo.

De acordo com a OMS, existem cinco casos confirmados de contágio, três casos suspeitos e três mortes atribuídas ao vírus. O corpo de uma das vítimas permanece ainda na morgue do navio.

Sabe-se também que, numa escala na ilha de Santa Helena, a 24 de abril, 30 viajantes de 12 nacionalidades desembarcaram do “MV Hondius”. Identificar e localizar estas pessoas, para o caso de poderem ser portadoras do hantavírus, é apontado como uma das missões mais difíceis para a OMS. Foi ainda divulgado, recentemente, que uma hospedeira da companhia KLM, dos Países Baixos, que esteve em contacto com membros do grupo que desembarcou, apresenta sintomas iniciais compatíveis com hantavírus: febre, dores de cabeça, diarreias e dificuldades respiratórias.

Contestação ao Executivo central espanhol

No plano interno, o Governo regional das ilhas, liderado por Fernando Clavijo - da Coligação Canária (CC, centro-direita regionalista) - critica Madrid por ter assumido um risco que, na sua perspetiva, deveria recair sobre os Países Baixos, país sob cuja bandeira o navio navega. Por sua vez, o sindicato de trabalhadores portuários de Granadilla ameaçou bloquear as instalações caso não seja garantido um afastamento total da embarcação.

Plano de evacuação e repatriamento no porto de Granadilla

O procedimento delineado para a evacuação do “MV Hondius” pretende impedir qualquer contacto com a população de Tenerife. “Não existirá o menor contacto com os cidadãos”, assegurou Virginia Barcones, secretária-geral da Proteção Civil do Ministério do Interior. Para reforçar essa separação, o navio não irá atracar nos molhes de Granadilla, ficando fundeado fora das infraestruturas portuárias.

Especialistas de saúde realizarão uma avaliação médica inicial - a chamada triagem - antes de as pessoas serem encaminhadas para o aeroporto de Tenerife Sul, situado a dez minutos do porto. Os viajantes serão levados em lanchas até ao porto e, depois, em viaturas até ao aeroporto, à medida que forem chegando os aviões fretados pelos respetivos países. Espanha está, entretanto, a negociar com as autoridades de 22 países para articular a operação e coordenar a aterragem das aeronaves de repatriamento.

Com cidadãos de países da União Europeia a bordo, os procedimentos tornam-se mais diretos, uma vez que foi acionado o mecanismo europeu de Alertas de Proteção Civil. Mais exigentes têm sido os contactos com países terceiros, que revelam diferentes níveis de espírito de cooperação. Estão representadas doze nacionalidades extracomunitárias, sendo a mais numerosa a filipina, com 38 tripulantes, cuja gestão ficará a cargo da empresa neerlandesa Oceanwide Expeditions, armadora do “MV Hondius”. Além disso, existem passageiros ou tripulantes do Japão, Nova Zelândia, Rússia e Índia.

Espanhóis serão recebidos num hospital militar em Madrid

Quanto aos 13 viajantes e ao único tripulante de nacionalidade espanhola que permanecem no navio, está previsto que sejam transportados num avião militar desde o aeroporto de Tenerife Sul até à base de Torrejón de Ardoz, nos arredores de Madrid. A partir daí, seguirão em veículos medicalizados para o Hospital Central da Defesa Gómez Ulla, onde o 22º piso integra uma Unidade de Isolamento de Alto Nível (UAAN), construída de raiz após o surto de Ébola de 2014, que afetou vários espanhóis.

As autoridades espanholas acreditam que estes cidadãos aceitarão, de forma voluntária, o confinamento necessário para a quarentena, que poderá prolongar-se por 45 dias. Ainda assim, sublinham que existe base jurídica para um eventual “internamento forçado”, ao abrigo da Lei de Medidas Especiais de Saúde Pública (1986) e da Lei Geral de Saúde (2011), que enquadram a resposta a crises sanitárias.

Permanece, contudo, em aberto a forma e o local onde será efetuada a desinfeção integral do navio depois de concluída a evacuação. As autoridades espanholas preferiam que essas operações ocorram fora das águas territoriais.

A recordação ainda próxima da covid-19, responsável por 121 mil mortes em Espanha, torna mais intenso o alerta provocado por este surto de hantavírus. Há receios que os especialistas consideram infundados e que procuram conter. “Não creio, de todo, que este surto represente um risco para a saude pública espanhola”, disse ao Expresso o médico Fernando Simón, diretor do Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias do Ministério da Saúde.

Conhecido por, durante a pandemia, surgir diariamente na televisão pública para atualizar os números de contágios e mortes, acrescenta: “O hantavírustransmite-se de uma forma muito concreta, por contacto com secreções de roedores; são conhecidos casos de transmissão de pessoa para pessoa, mas é muito rara e difícil”. Ainda assim, essa eventualidade foi observada em 2018 na Argentina, num surto associado a uma festa de aniversário que resultou em 34 contágios e 11 óbitos.

Amós García, epidemiologista das Canárias e antigo membro do Comité Permanente da OMS para a Europa, reforça que “o hantavírus não tem nada que ver com a covid-19, é uma doença grave, com uma taxa de letalidade de 30% a 40%, mas o perigo de contágio é muito baixo”.

Sem testes que o confirmem em definitivo, admite-se como hipótese provável que o surto no “MV Hondius” tenha entrado a bordo através de um casal de neerlandeses, entusiastas de ornitologia, que passou semanas a viajar por vários países da América do Sul antes de embarcar no cruzeiro. O homem morreu a bordo e o corpo foi desembarcado em Santa Helena; a mulher, que acompanhou esse transporte, nem chegou a conseguir apanhar o voo em Joanesburgo para regressar ao seu país, tendo morrido a caminho do hospital.

É considerado plausível que o casal tenha sido infetado pela variante andina do hantavírus, a única que, segundo as autoridades de saúde, pode passar entre humanos mediante “contacto estreito e prolongado”. Terá sucedido durante alguma excursão realizada em zonas onde prolifera uma das espécies de ratos que alberga o hantavírus, identificado em 1995 na Argentina. Não existe tratamento específico nem vacina para este agente.

A viagem do “MV Hondius” - navio de 107 metros, construído em 2019 e apto a quebrar gelo - iniciou-se a 1 de abril em Ushuaia, no extremo sul da Argentina, na província da Terra do Fogo, tendo a Antártida como primeiro destino. A bordo, há uma oferta de luxo e as pessoas passageiras pagam entre 15 mil e 20 mil euros por pessoa, variando conforme o camarote escolhido e os serviços contratados durante o cruzeiro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário