Ainda hoje olhamos para os Grupo B com nostalgia: desapareceram quase tão depressa quanto os enormes turbos entravam em carga e os transformavam em lendas. Bastaram dois acontecimentos para se optar por proibir algumas das máquinas mais extremas que alguma vez atacaram troços de rali.
Movidos por dois dos grandes motores do desporto automóvel - dinheiro disponível e liberdade regulamentar -, muitos situam o início da queda dos Grupo B num rali que também nos deixou algumas das imagens mais marcantes dessa época: o Rally de Portugal.
O dia 5 de março de 1986 ficou gravado como o «princípio do fim». O despiste de Joaquim Santos ao volante do Ford RS200 causou a morte a dois adeptos, deixou mais de 30 feridos e o impacto foi imediato.
Os pilotos das equipas oficiais - incluindo Walter Röhrl, Henri Toivonen, Markku Alén e Timo Salonen - assinaram então um comunicado conjunto a anunciar a retirada da prova. Explicaram a decisão por respeito às vítimas e por razões de segurança (sobretudo pela inexistência de controlo eficaz do público), sublinhando que o acidente de Joaquim Santos não se deveu ao desempenho do carro, mas ao facto de o piloto português ter sido forçado a desviar-se de espetadores no meio da estrada.
A atmosfera festiva deu lugar a um silêncio denso e, pela primeira vez, a continuidade do Grupo B deixou de parecer garantida. O Rally de Portugal não “matou” o Grupo B, mas retirou-lhe a inocência: o olhar deixou de estar nos carros e nos seus pilotos para se fixar nos perigos, e o tema passou a ser também político e até moral dentro da FIA.
O espetáculo tem de continuar
Como mais tarde se diria, o espetáculo tinha de seguir e o Mundial de Ralis, embora abalado, avançou. A seguir à prova portuguesa veio o rali Safari, que pelas suas particularidades acabava por atenuar a perceção do risco. Por curiosidade, nenhum dos «monstros sagrados» da categoria conseguiu alguma vez vencer o Safari.
Ainda assim, o perigo não tinha desaparecido e, dois meses depois, no início de maio, o destino dos Grupo B ficaria definitivamente selado. No asfalto exigente do Rali da Córsega, num labirinto de curvas e contracurvas, estradas estreitas e falésias sem proteção, o pior aconteceu.
Córsega: a gota d’água
Henri Toivonen - um dos subscritores do comunicado no Rally de Portugal, em março, e uma das figuras da época - acabou por ser o protagonista do episódio trágico que decretou o fim dos Grupo B.
O finlandês chegou ao rali da Córsega fragilizado por uma gripe, mas decidido a relançar a luta pela liderança do campeonato, aos comandos do radical Lancia Delta S4. Mesmo limitado fisicamente, imprimiu um andamento demolidor e foi somando vitórias em especiais numa prova com mais de mil quilómetros cronometrados.
Os avisos, contudo, estavam à vista. Para Toivonen, o Delta S4 era rápido demais e demasiado exigente para as estradas estreitas da Córsega. No final da primeira etapa, admitiu: “Este rali é uma loucura. Se surgir algum problema, estou completamente acabado.”
Antes da fatídica 18.ª especial, entre Corte e Taverna, voltou a alertar: “É fisicamente exaustivo e o cérebro deixa de conseguir acompanhar”. Nessa manhã de 2 de maio de 1986, poucos quilómetros após o arranque da especial, o líder Henri Toivonen saiu de estrada numa esquerda apertada e sem proteção; o Lancia caiu por uma ravina e incendiou-se quase de imediato após a rutura do depósito de combustível. Toivonen e o co-piloto Sergio Cresto morreram no local.
O Delta S4 ficou consumido pelas chamas e nunca foi possível apurar a causa exata do acidente. A quase inexistência de marcas de travagem alimentou hipóteses como uma eventual perda de consciência ao volante, mas a realidade é que o despiste permanece, até hoje, sem uma explicação definitiva.
O fim imediato do Grupo B
Se as circunstâncias do acidente continuaram envoltas em dúvida, a resposta da FIA foi rápida. Horas depois do momento trágico, Jean-Marie Balestre, presidente da FIA, tomaram a decisão histórica de banir os Grupo B no final da temporada de 1986.
Os seus sucessores, os ainda mais extremos Grupo S, foram igualmente anulados. A Audi e a Ford abandonaram o campeonato de imediato. Outros construtores mantiveram-se até ao fecho da época, mas o desfecho já estava escrito.
Em 1987, os Grupo A - bem mais próximos de modelos de produção - passaram a ocupar o lugar principal deixado pelos Grupo B. Terminava assim uma era quase sem limites, que levou a popularidade dos ralis a patamares inéditos e que nos ofereceu alguns dos momentos mais inesquecíveis da modalidade.
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