A fórmula do 600e dificilmente podia estar melhor afinada. Falta perceber se chega para conquistar um mercado que ainda olha com desconfiança para propostas deste género.
Compactos elétricos com ambições desportivas, feitos para recuperar o espírito dos pequenos desportivos de outros tempos. Este perfil está a ganhar força com cada vez mais propostas, do novo Alpine A290 (o Guilherme vai trazer-vos novidades em breve) ao Alfa Romeo Junior Veloce.
Agora há mais um nome com intenção de se impor no segmento: o Abarth 600e, que passa a ser o Abarth mais potente de sempre.
Mas o Abarth 600e não se resume a números e a prestações. A grande questão é o que faz em estrada - ou, neste caso, em pista. Vejam só:
Abarth mais Abarth de sempre
Foi assim que os responsáveis da marca italiana apresentaram o 600e, construído a partir do modelo com o mesmo nome da FIAT.
Ainda assim, basta observá-lo para perceber que não é apenas um “vestido” diferente: tudo começa nos para-choques maiores e mais agressivos, passa pelas jantes de 20” (nunca um Abarth tinha usado jantes deste diâmetro), pelos guarda-lamas mais largos, pela menor altura ao solo e culmina num novo aerofólio traseiro.
Além disso, a cor de lançamento - Roxo Hipnótico - é exclusiva do Scorpionissima, a versão mais “apimentada” e desportiva da gama. Com este tom, o 600e dificilmente passa despercebido. Ainda assim, depois de o ver ao vivo, o Abarth 600e que eu levaria para casa era branco.
Falta mais diferenciação
Por dentro, fico dividido: por um lado, aprecio o cuidado nos detalhes, com acabamentos em Alcantara, bancos desportivos Sabelt com encosto de cabeça integrado e grafismos específicos no conjunto dos dois ecrãs (painel de instrumentos de 7” e ecrã multimédia de 10,25”); por outro, custa-me aceitar a partilha de alguns comandos físicos com outros modelos da Stellantis.
Eu sei que as sinergias empurram para esse caminho e que isto é frequente. Basta ver o que o Grupo Volkswagen fez durante tantos anos. Mas num produto com esta aura especial, estes pormenores tornam-se mais difíceis de engolir.
Dito isto, há que reconhecer o esforço da Abarth: a marca ouviu os comentários menos positivos sobre o 500e e acertou em certos pontos, como o do gerador acústico, que antes nos obrigava a navegar por menus e submenus do painel de instrumentos para o desligar. Agora, o processo é bem mais direto e rápido.
Fica, ainda, uma nota sobre os materiais: há muitos plásticos rígidos e menos agradáveis ao toque. Já sabemos que é comum no segmento, sobretudo em 100% elétricos, mas o preço pedido pela Abarth para este 600e também eleva a fasquia das expectativas. Ainda assim, a montagem parece sólida.
E o espaço?
Verdade seja dita: nunca um modelo da marca do escorpião ofereceu tanto espaço e tanta versatilidade como este 600e. Isso, porém, não quer dizer que a Abarth tenha passado a ter um «rei do espaço».
Atrás, há limitações claras: eu tenho 1,83 m de altura e só não fico com os joelhos encostados ao banco da frente por causa do recorte na parte traseira, que oferece aqueles centímetros extra - e bem preciosos.
Em altura, também fico muito perto do tejadilho; se forem mais altos do que eu, dificilmente se sentam lá atrás sem tocar no teto.
Na bagageira, a história não muda muito: o Abarth 600e anuncia 360 litros, menos 40 litros do que o Alfa Romeo Junior, mas mais 34 litros do que o Alpine A290. Não é um número impressionante, mas parece-me alinhado com o habitual nesta classe. Se a prioridade for capacidade de carga, provavelmente faz mais sentido considerar outro tipo de modelos.
Sem margem para dúvidas
Sem surpresa, se por fora parece um FIAT 600 “musculado”, os maiores trunfos do Abarth 600e estão debaixo da carroçaria - e começam logo no motor elétrico.
Ao contrário do que a Abarth tinha indicado inicialmente, o 600e não se fica pelos 240 cv: nesta versão Scorpionissima entrega 280 cv (e 345 Nm), tal como o “primo” Junior Veloce. O resultado é uma aceleração dos 0 aos 100 km/h em 5,85s e uma velocidade máxima de 200 km/h.
Há, contudo, um detalhe importante: o Scorpionissima é uma série limitada a apenas 1949 unidades.
A porta de entrada na gama faz-se com o 600e Turismo, que mantém os 175 kW (240 cv) anunciados inicialmente, mas com prestações ligeiramente abaixo: os 0 aos 100 km/h cumprem-se em 6,24s.
Como referi no início, para perceber este Abarth 600e é preciso olhar para lá das fichas técnicas e das prestações. Um pouco como já acontecia com o 500e, ainda que aqui isso seja muito mais evidente.
Isto porque, ao contrário do que senti em propostas como o Smart #1 Brabus ou o MG4 XPower, este Abarth 600e tem um chassis à altura das ambições da marca italiana: ser um dos elétricos mais divertidos de conduzir no seu segmento.
Zero compromissos
À semelhança do que já tinha acontecido com o Alfa Romeo Junior Veloce, a Stellantis tratou este escorpião com atenção especial: o chassis foi reforçado com uma barra estabilizadora traseira 140% mais firme e com uma suspensão 40% mais rígida.
Além disso, face ao 600e da FIAT, este Abarth recebeu uma redução da altura ao solo e vias alargadas em 30 mm à frente e 25 mm atrás - mudanças que o tornam claramente mais estável e “assente” em estrada.
Mas é no eixo dianteiro que está a maior diferença. Aqui encontramos um diferencial mecânico Torsen, assinado pela JTEKT, solução que só é partilhada com o Junior e que transforma por completo o comportamento dinâmico.
À saída das curvas, sente-se o diferencial a trabalhar e a ajudar a colocar todo o binário no asfalto, com o apoio de uma traseira que roda ligeiramente. E tudo acontece de forma previsível, sem qualquer sensação de balanço excessivo.
Tendo também conduzido o Junior Veloce na mesma pista de Balocco há uns meses, a minha leitura é simples: se os engenheiros da Alfa Romeo aceitaram alguns compromissos em nome do conforto e do uso diário, no Abarth 600e houve liberdade para ir mais longe, com menos concessões e respostas mais imediatas.
Isso nota-se na rigidez do conjunto e no controlo da carroçaria, mas também na afinação da suspensão, na direção e, acima de tudo, na forma como os pedais estão calibrados.
O acelerador reage com mais sensibilidade - e eu gosto disso -, mas a resposta do motor é progressiva, fugindo à brusquidão típica dos 100% elétricos. Nota igualmente positiva para o pedal do travão, bem afinado e com um tato bastante mecânico.
No modo Scorpion Track (pensado para utilização em pista), a Abarth foi mais longe e desligou a travagem regenerativa, deixando-nos dependentes apenas do sistema hidráulico. O resultado é muito convincente, até porque temos travagem reforçada da Alcon, com discos de 380 mm de diâmetro e 32 mm de espessura.
E a autonomia?
Neste primeiro contacto, conduzi o Abarth 600e apenas em pista, por isso não seria justo tirar grandes conclusões sobre consumos e autonomia. Ainda assim, a Abarth anuncia até 334 km (ciclo WLTP) para o Turismo e até 317 km para o 600e Scorpionissima.
Naturalmente, se conduzirem como eu conduzi durante este vídeo, contem com menos - aliás, com muito menos.
Uma coisa, porém, ficou clara: nas várias voltas que fiz no complexo de testes de Balocco, sempre sem qualquer cuidado com consumos e a procurar o máximo do Abarth 600e, não senti qualquer quebra de rendimento do motor elétrico.
Essa era uma das grandes preocupações da equipa de desenvolvimento. A Abarth trabalhou em conjunto com a Stellantis Motorsport, que soma vários anos de experiência na Fórmula E, para criar um sistema de arrefecimento capaz de garantir que a bateria de 54 kWh não perdia desempenho, mesmo em sessões de pista.
Quanto custa?
As encomendas do Abarth 600e já estão abertas, mas as primeiras unidades só chegam ao mercado português em janeiro do próximo ano.
Os preços arrancam nos 45 mil euros para o 600e Turismo e nos 49 mil euros para a versão limitada Scorpionissima, que foi a que experimentei neste vídeo.
Estes valores são «chave na mão», ou seja, já incluem as habituais despesas de legalização e transporte. Não são preços baixos - tal como os do 500e também já não eram -, mas estão alinhados com o que a Alfa Romeo pede pela versão mais potente do Junior.
Ainda assim, acredito que este seja um dos maiores obstáculos para o Abarth 600e, que tem uma tarefa exigente.
Primeiro, precisa de se afirmar num segmento em que muitos clientes continuam desconfiados e a questionar se faz sentido escolher um pequeno elétrico desportivo em vez de um equivalente com motor de combustão.
Depois, sabemos que o 500e não está a ter o sucesso comercial que, talvez, a Abarth e a própria Stellantis esperavam. E isso levanta uma pergunta: será diferente com este 600e?
A resposta final ficará nas mãos do mercado, mas, no geral, o 600e é um carro mais capaz e cumpre integralmente aquilo que um Abarth deve ser.
Tanto que espero que a marca italiana já esteja a preparar uma versão mais intensa do 500e, com mais potência e, sobretudo, com diferencial autoblocante mecânico.
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