Numa manhã de terça-feira em Veneza, ainda antes de o calor se entranhar nos canais, Maria puxa o seu carrinho de compras por uma ponte que atravessa desde criança. De repente, pára. À sua frente, uma onda em movimento de malas de rodinhas, tripés e chapéus de sol entope a passagem. Dez minutos para avançar dez metros. Ninguém repara nela. Estão ocupados a filmar-se a “viver como um local” numa rua onde já quase nenhum local consegue pagar para viver.
Quando finalmente chega ao mercado, os legumes estão mais caros do que no ano passado, o peixeiro fala mais inglês do que italiano e a banca de gôndolas de plástico ocupou o lugar daquela que vendia sardinhas.
Ela paga mais por uma vida que encolhe, apertada por pessoas que desaparecem no domingo ao fim da tarde.
As cidades não são apenas destinos. São casas.
Quando uma cidade deixa de pertencer às suas próprias pessoas
Passeie pelo centro de Barcelona numa noite de verão e consegue ouvir o choque de mundos. Vizinhos a fechar as portadas para abafar os gritos de grupos bêbados em modo festa. Equipas de limpeza a iniciarem o turno noturno enquanto influenciadores fazem poses em soleiras de portas onde não vivem. A mesma cidade, duas realidades a colidirem no mesmo passeio.
É esta a tensão discreta por baixo de qualquer lista de “Top 10 escapadinhas urbanas”. Nas fotografias há pores-do-sol e cocktails. O que não aparece é o residente que tem de se levantar às 6 da manhã e contornar latas de cerveja para chegar ao autocarro. A pessoa que adora a sua cidade e, aos poucos, começa a evitar metade dela.
Em Lisboa, uma mulher de 72 anos que entrevistei apontou para o prédio: nove apartamentos, sete já em plataformas de alojamento de curta duração. O neto vive a quarenta minutos, empurrado para a periferia por preços que subiram mais depressa do que o salário. A padaria do rés do chão transformou-se num bar de iogurte gelado. A loja de ferragens é agora uma “loja-conceito” a vender sacos de pano com a palavra “Local”.
Os turistas fotografam o elétrico amarelo que continua a passar, a chiar, rua acima. O que não vêem é quantas pessoas como ela já tiveram de sair do bairro.
E não é só impressão. Em alguns bairros centrais, há hoje mais casas anunciadas para visitantes do que disponíveis para inquilinos de longa duração. É como convidar pessoas para um jantar e, a meio, perceber que já não sobra cadeira para os próprios filhos.
As cidades dobram sob esse peso. As rendas disparam porque a estadia curta dá dinheiro fácil. Os cafés mudam as ementas porque o mercado persegue o visitante com maior poder de compra. Os transportes são reorganizados a pensar em ligações ao aeroporto e terminais de cruzeiros, em vez de rotas escolares ou deslocações de quem trabalha.
Isto não tem a ver com odiar quem vem de fora. Trata-se de poder. Quem visita chega com liberdade total: para o ano escolhe outro lugar. Quem mora fica a lidar com as consequências.
Quando quem está de passagem passa a moldar mais as regras do que quem permanece, a cidade deixa de ser comunidade e começa a comportar-se como um parque temático.
Como é, na prática, dar mais direitos aos residentes
Algumas cidades estão, discretamente, a reescrever as regras sobre para quem é uma cidade. Em Amesterdão, foram impostos limites ao arrendamento de férias e as licenças são restringidas. Em Dubrovnik, há travões à entrada de cruzeiros para que as ruas medievais não se transformem num corredor em movimento de pulseiras e áudio-guias. Não são gestos para inglês ver: são formas de auto-defesa urbana.
Colocar os residentes em primeiro lugar pode começar de modo muito simples. Acesso prioritário à habitação para quem vive na cidade. Licenças mais exigentes para arrendamentos turísticos em bairros já saturados. Impostos mais altos para estadias curtas, com receitas a alimentarem diretamente transportes públicos, habitação social e respostas como creches.
Não se trata de fechar portas. Trata-se de decidir que os lugares da frente pertencem a quem paga a conta da eletricidade.
Se alguma vez tentou arrendar numa cidade “na moda”, conhece a sensação vazia de fazer scroll por anúncios que desaparecem em minutos ou custam mais de metade do rendimento. E, na mesma rua, ver fileiras de cofres de chaves para arrendamentos de curta duração, prontos a receber um novo conjunto de desconhecidos todos os fins de semana. Esse contraste sabe a estalada.
As cidades que levam a sério os direitos dos residentes enfrentam o problema sem rodeios. Definem um número máximo de noites por ano em que um imóvel pode ser arrendado a visitantes. Aplicam multas quando os proprietários ignoram as regras, em vez de assobiarem para o lado só porque o dinheiro do turismo fica bem em relatórios anuais.
E fazem algo simples e, ao mesmo tempo, radical: perguntam primeiro aos moradores de que precisam, antes de perguntarem aos lóbis hoteleiros o que desejam.
“Os turistas estão só de passagem”, disse-me um vizinho em Florença. “Nós é que ficamos e limpamos a confusão. Devíamos ser os primeiros a dizer o que acontece nas nossas ruas.”
- Direitos de habitação para residentes: prioridade e proteção para inquilinos de longa duração face aos arrendamentos turísticos de curta duração, sobretudo em zonas centrais.
- Espaço público com prioridade a quem mora: limites a grupos turísticos, esplanadas ruidosas e zonas de festa onde as pessoas efetivamente vivem e dormem.
- Fiscalidade turística justa: taxas pagas por visitantes com retorno claramente rastreável para escolas, hospitais, transportes e limpeza urbana.
- Equilíbrio sazonal: regras que distribuem o turismo pelos meses e pelos bairros, em vez de esmagarem sempre as mesmas zonas a cada fim de semana.
- Participação real: conselhos de bairro com poder legal para aprovar ou rejeitar projetos turísticos que afetem o quotidiano.
Repensar para quem as cidades são realmente construídas
Há uma pergunta difícil por trás de tudo isto: uma cidade é um produto para vender ou um lugar para viver? A resposta dita tudo, desde a lei do arrendamento até à hora a que aquele bar pode pôr música aos berros por baixo do quarto de uma criança. Se tratarmos as cidades como produtos, então quem paga mais fica com a vista.
Todos já sentimos esse momento: caminhar na nossa própria terra e perceber que, de repente, parecemos figurantes no meio de um anúncio de viagens. Essa picada não é nostalgia. É um sinal de que o equilíbrio se perdeu.
Sejamos francos: quando alguém procura uma escapadinha barata de fim de semana, raramente pensa em direitos de quem mora. Mas, sem esses direitos, os sítios que gostamos de visitar começam a esvaziar-se por dentro. Tornam-se cenários copiáveis e coláveis, fáceis de consumir e igualmente fáceis de esquecer.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Os direitos dos residentes vêm primeiro | Prioridade na habitação, no espaço público e na tomada de decisão para residentes, acima de visitantes de curta duração | Ajuda a manter as cidades preferidas autênticas, habitáveis e valiosas para visitar no longo prazo |
| O turismo precisa de limites | Tetos para arrendamentos, cruzeiros e zonas de festa em áreas já saturadas | Reduz ruído, sobrelotação e picos de preços que, silenciosamente, expulsam os locais |
| Os visitantes podem ser aliados | Escolher alojamentos de proprietários locais, visitar fora da época alta e ter comportamento respeitador em bairros habitados | Dá aos viajantes uma forma concreta de desfrutar das cidades sem contribuir para a sua erosão |
Perguntas frequentes:
- Os turistas estão mesmo a “arruinar” as cidades, ou isso é exagero? Não é cada turista, nem em todo o lado, mas o turismo de massas concentrado sempre nos mesmos bairros pode sobrecarregar habitação, preços e serviços. O problema não são as pessoas individualmente; é a escala e a fragilidade das regras.
- O que significa, na prática, “mais direitos para os residentes”? Pode significar controlos mais apertados sobre o alojamento de curta duração, zonas de estacionamento exclusivas para residentes, limites a grandes grupos de visitas guiadas, tetos para cruzeiros e processos formais onde os vizinhos influenciam a política de turismo.
- Restringir o turismo não prejudica a economia local? Um turismo sem travões cria economias frágeis, dependentes de uma única indústria. Modelos mais saudáveis favorecem emprego diversificado, estadias mais longas, turismo de maior qualidade e negócios que sirvam residentes e visitantes.
- Como viajante, como posso apoiar os direitos dos residentes? Fique em alojamento licenciado, evite zonas de festa em ruas residenciais, visite fora da época alta, use transportes públicos e gaste dinheiro em espaços detidos e trabalhados por pessoas da cidade.
- Isto é ser anti-turista ou anti-estrangeiro? Não. É reequilibrar poder. Os visitantes são bem-vindos, mas não devem ter mais impacto na habitação, no ruído e nos preços do que quem vive, trabalha e cria família ali durante todo o ano.
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