Saltar para o conteúdo

Julie K. Brown, o "Miami Herald" e a Menção Especial dos Prémios Pulitzer pelo caso Jeffrey Epstein

Mulher a analisar documentos num escritório com monitores e jornal sobre a mesa.

Em Portugal, quase ninguém conhece Julie K. Brown, jornalista do "Miami Herald". Ainda assim, o impacto do seu trabalho é tão relevante que o júri dos Prémios Pulitzer - que todos os anos distingue escritores, cronistas, jornalistas e fotojornalistas - lhe atribuiu uma Menção Especial pela investigação aos abusos sexuais de raparigas cometidos por Jeffrey Epstein e pela forma como este conseguiu contornar a justiça, cumprindo apenas uma pena de 9 meses, período em que podia sair da prisão diariamente. Foi graças a uma apuração longa e minuciosa que Julie recuperou processos arquivados, reuniu ficheiros de relatórios policiais, localizou 80 vítimas, ouviu-as em entrevista e reconstituiu as atrocidades praticadas por Epstein e pela sua rede de cúmplices, onde sobressai Ghislaine Maxwell, até agora a única pessoa a cumprir pena de prisão pelos crimes cometidos.

Julie K. Brown e a Menção Especial dos Prémios Pulitzer

Julie nasceu em 1961, na cidade de Filadélfia. Criada por uma mãe solteira, cresceu a observar a progenitora a trabalhar sem descanso para a sustentar. Aos 16 anos, saiu de casa e passou por vários trabalhos temporários, que lhe permitiram pagar as propinas da faculdade. Em 1987, concluiu Jornalismo com louvor na Temple University.

A Menção Especial do Pulitzer não foi, contudo, o primeiro reconhecimento do seu percurso. Em 2014, venceu o George Polk Award por revelar abusos desumanos nas prisões da Florida - revelações que levaram à abertura de uma investigação federal e acabaram por provocar demissões no sistema prisional.

Investigação "Perversão da Justiça" sobre Jeffrey Epstein

Em 2017, começa a apurar o que acontecera com as vítimas de um milionário influente que vivia numa mansão luxuosa em Miami. A partir daí, publica várias reportagens sob o título "Perversão da Justiça". Bateu a portas em bairros pobres de Miami à procura de jovens, insistiu, ganhou confiança e conseguiu que falassem.

Quando percebeu a verdadeira escala do caso, avançou para uma tarefa de alto risco: expor em tribunal o acordo secreto entre Epstein e o secretário do Trabalho de Donald Trump, George Acosta - e venceu. Uma repórter, por conta própria, derruba um império de poder e dinheiro, num enredo que ecoa a narrativa recorrente: o jovem pastor David a derrotar o gigante Golias, contra todas as probabilidades.

Reconhecimento público, efeitos judiciais e o livro

A verdade foi a sua protecção; a coragem, a arma que a empurrou para a frente. Em 2020, a revista norte-americana "Time" incluiu-a na lista das 100 Personalidades Mais Influentes. Já em 2021, publica o livro: "Perversão da Justiça: a história de Jeffrey Epstein".

O seu trabalho descreveu o mecanismo em pirâmide montado por Epstein, que usava vítimas como recrutadoras. Ao levantar o véu, o caso expôs uma lista extensa de nomes, entre os quais Trump, Bill Gates, o casal Clinton e o Príncipe André.

Em 2019, Epstein é condenado e preso por tráfico sexual em Nova Ioque; George Acosta demite-se; e, em 2020, Ghislaine Maxwell é condenada a 20 anos de prisão. O procurador Geoffrey Berman, que reabriu o processo no Distrito Sul de Nova Iorque, agradeceu publicamente o trabalho exemplar do jornalismo de investigação neste caso.

Polémica nos Pulitzer: o prémio de fotografia em Gaza

Apesar disso, a lista de prémios atribuídos não decorreu sem contestação, em especial entre o povo judaico, dentro e fora de Israel. O Prémio Breaking News Photography foi atribuído ao fotógrafo palestiniano Saher Alghorra, colaborador do "New York Times", pela série "Apanhados em Gaza, entre o fogo e a fome". Nessa série surge uma fotografia de quatro terroristas do Hamas a transportarem um caixão com restos mortais de um refém israelita.

A imagem, pelo seu enquadramento cuidado e pela proximidade do fotógrafo, dá a entender que foi encenada e combinada. Não há ali nada de espontâneo nem de urgente - critérios que, em teoria, são essenciais para este prémio. E onde estão as fotografias dos 1200 judeus massacrados no ataque a Israel a 7 de outubro em 2023? O fogo e a fome em Gaza são consequência do massacre levado a cabo pelo Hamas contra Israel. Retirar esse dado do contexto não favorece a credibilidade de um jornalismo exigente.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário