Não é preciso acreditar em maldições para reconhecer que poucas histórias do automobilismo (e de Hollywood) são tão persistentes como a do Porsche 550 Spyder de James Dean (1931-1955), o célebre “Little Bastard”.
Depois de ter dado os primeiros passos em competição com um 356 Speedster, James Dean concluiu rapidamente que precisava de algo mais veloz. A solução passou por trocar o 356 por um muito mais competitivo Porsche 550 Spyder, que lhe foi entregue a 21 de setembro de 1955.
Desde o primeiro contacto, porém, ficou claro que o novo carro não era fácil. Fotografias da época, com o ator ao lado do 550 Spyder, já mostram marcas na carroçaria, e Dean chegou mesmo a envolver-se em dois pequenos acidentes.
Esses incidentes deixaram o Porsche com uma ótica partida e com repinturas feitas sem grande cuidado. Noutro episódio, Dean despistou-se na conhecida Mulholland Drive, em Los Angeles, e bateu em caixotes do lixo, o que danificou a secção traseira do 550.
Apesar do estado do carro, não havia margem para arranjos a sério. Com uma prova em Salinas, na Califórnia, a aproximar-se, o 550 Spyder limitou-se a receber o número 130 pintado em ambas as portas e a inscrição “Little Bastard” no capô traseiro.
Tudo isto aconteceu durante a primeira semana de James Dean com o Porsche 550 Spyder - e, ainda assim, nada apontava para o que viria a seguir.
A caminho da prova
No final de setembro, já a caminho da sua primeira corrida em Salinas, o mecânico de Dean, Rolf Wütherich, aconselhou-o a conduzir o carro em vez de o levar num reboque. Assim, faria a rodagem do motor e ganharia familiaridade com o comportamento do Porsche 550 Spyder.
Durante a viagem, com Wütherich a acompanhá-lo, Dean foi multado por circular a mais de 130 km/h, mas não se deixou convencer a abrandar. Pouco depois, na Route 466, acabaria por colidir contra o lado do passageiro de outro veículo, no momento em que esse veículo virava à esquerda para entrar noutra estrada.
Com o impacto, Wütherich foi projetado para fora do Porsche 550 Spyder e sobreviveu. James Dean, no entanto, não resistiu, em consequência de fraturas no pescoço.
Considerado perda total, o Porsche 550 Spyder ficou num estado praticamente irrecuperável e, por indicação da seguradora, foi deixado num ferro-velho. Ainda assim, a história estava longe de terminar.
A «maldição» de Dean e do 550 Spyder
Passado algum tempo, a seguradora vendeu o Spyder a William Eschrich, que pretendia aproveitar componentes do carro. Um exemplo foi o motor boxer de quatro cilindros (#90059), instalado no seu Lotus Mark IX para correr em Pebble Beach, em 1956.
Para além do motor, várias peças - suspensão, direção, travões e a transmissão - foram entregues a Troy McHenry como sobressalentes, uma vez que ele também possuía um 550 Spyder.
A partir daí, a narrativa de tragédias voltou a ganhar força. Eschrich viria a sofrer um acidente grave com o Lotus, do qual saiu ferido. Já McHenry, ao volante do seu Porsche 550 Spyder, despistou-se e embateu numa árvore, não sobrevivendo ao choque.
Em 1957, George Barris, preparador norte-americano conhecido por “King of Kustoms” - o mesmo que transformou o Lincoln Futura no Batmobile para a série de televisão dos anos 60 -, comprou o Porsche 550 Spyder de James Dean, garantindo que o iria reconstruir.
Segundo Barris, contudo, o estado do carro estava muito para lá de qualquer recuperação. Em vez de avançar com a reconstrução, cedeu o Spyder ao National Safety Council, que o utilizou numa campanha de prevenção rodoviária mais sensacionalista entre 1957 e 1959.
Mesmo assim, os episódios estranhos associados ao “Little Bastard” continuaram. Em março de 1959, por exemplo, quando o carro estava guardado num armazém em Fresno, incendiou-se de forma misteriosa - embora com danos reduzidos.
Há ainda a história de dois pneus do Spyder que George Barris vendeu e que, alegadamente, rebentaram em simultâneo, causando o despiste do automóvel onde tinham sido montados.
Onde está o 550 Spyder?
Com o acumular de relatos bizarros, alguns com contornos trágicos, a «maldição» de James Dean e do “Little Bastard” tornou-se cada vez mais falada. Ainda assim, como acontece com muitas narrativas de Hollywood, grande parte não passou de histórias sem base sólida.
A onda de comentários à volta da maldição só diminuiu quando o Porsche 550 Spyder desapareceu sem deixar rasto, durante um transporte de Miami para Los Angeles, em 1960.
Hoje, quase 70 anos após o acidente fatal de James Dean, continua a desconhecer-se o paradeiro do Spyder - bem como o de grande parte dos seus componentes.
A pista mais recente foi divulgada pelo Volo Auto Museum há nove anos e sugere que o carro poderá estar em Washington.
De acordo com uma fonte não identificada - por razões óbvias - os destroços do Porsche 550 Spyder teriam sido escondidos pelo pai dessa pessoa, em 1961, entre as paredes de um edifício em Washington. A localização exata só seria revelada depois de estar garantida a recompensa de um milhão de dólares, anunciada em 2005.
O Porsche 550 Spyder com o chassis #550-0055 esteve com James Dean durante apenas nove dias. Ainda assim, o percurso destes dois protagonistas permanece envolto em mistério.
Continuam a existir perguntas por responder e, até que isso aconteça, é provável que a «maldição» continue a alimentar-se do desconhecido.
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