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O primeiro motor híbrido da Volkswagen chega com décadas de atraso

Carro elétrico verde VW híbrido estacionado junto a posto de carregamento numa sala moderna.

Imagino que, na sede da Volkswagen, em Wolfsburgo, tenha havido quem tenha ficado ligeiramente embaraçado com o atraso da semana passada. E todos sabemos como os alemães são picuinhas com horários. Refiro-me ao atraso na estreia do primeiro motor híbrido da Volkswagen. Desta vez, e ao contrário do que costuma acontecer nestas ocasiões, os responsáveis da marca alemã fizeram questão de passar despercebidos - como quem entra atrasado numa festa, ou já a meio de uma sessão de cinema, e tenta não chamar a atenção.

O problema é que a Volkswagen não entrou de mãos vazias: entrou com um motor híbrido ao colo. Um “volume” que, convenhamos, é bastante maior do que um balde de pipocas. Estamos a falar de uma mecânica prometida há muito tempo e cujas especificações técnicas só foram, finalmente, conhecidas na semana passada.

E, ainda assim, nada de apresentação em palco, nada de evento de lançamento, nem sequer um comunicado exuberante a enumerar as virtudes da nova «maravilha tecnológica» da marca. Não: limitaram-se a disponibilizar a informação - e ficou por aí.

Um motor híbrido da Volkswagen com três décadas de atraso

Como disse acima, o desconforto pode explicar-se pelo timing. Desconforto porque a Volkswagen está a colocar no mercado um motor híbrido com, mais ou menos, 30 anos de atraso. Sim, três décadas. Nem a minha esposa, que tem o hábito de se despachar em cima da hora, aparece tão tarde. Aqueles “são só mais cinco minutos” que nunca “são só mais cinco minutos”. Mas a minha mulher, ao contrário da Volkswagen, não é um dos motores da indústria europeia.

Foram precisos 30 anos para a Volkswagen avançar, a sério, para os motores híbridos - ou, se preferirem, para um híbrido completo - com um princípio de funcionamento semelhante ao que a Toyota apresentou em 1997 no Prius: um motor de combustão associado a um motor elétrico, ambos capazes de mover o automóvel de forma autónoma. Sem baterias gigantes, sem necessidade de carregamentos e com um consumo de combustível muito abaixo da média.

Diesel, Dieselgate e a viragem apressada para os elétricos

Este atraso até tem uma explicação parcial. Toda a gente sabe em que é que a Volkswagen esteve concentrada durante anos: motores Diesel. E resultou - aliás, resultou muito bem - até chegar a “notificação” da União Europeia: estavam a fazer demasiado fumo. E por “demasiado fumo” tanto posso estar a falar do Dieselgate como de uma reprogramação mais intempestiva do célebre e incansável 1.9 TDI PD130. Motor ao qual decidi (vale o que vale…) atribuir o título de melhor Diesel de sempre.

Já agora, o Dieselgate é precisamente outro cenário que os alemães detestam: serem apanhados na curva. A resposta foi do oito ao oitenta. Cortaram nos investimentos na combustão e colocaram quase todas as fichas no 100% elétrico. Com tal convicção que chegaram a anunciar o fim de modelos como o Golf. Foi este o pecado da Volkswagen: querer, outra vez, ser um exemplo.

Desde então, o empenho da Volkswagen na eletrificação foi total. Chamaram todas as marcas do grupo e têm vindo a lançar elétricos em praticamente todos os segmentos. Hoje, é o grupo que mais elétricos vende na Europa. Só que existe um problema diferente: nem toda a gente quer (ou consegue) viver com um 100% elétrico.

Porque é que a Volkswagen precisa agora de híbridos - e porquê começar em Palmela

E é assim que chegamos ao ponto em que estamos: a Volkswagen precisa de um motor híbrido. Precisa porque o mercado o pede e porque as regras de emissões o impõem.

A marca alemã tem de reduzir a sua média de emissões e os híbridos são - logo a seguir aos elétricos, naturalmente - a forma mais eficaz de o conseguir. Dito de forma ainda mais direta: a adoção do carro elétrico não está a acontecer à velocidade que toda a gente antecipava.

E isto não é apenas um tema europeu; na China está a verificar-se o mesmo. Os planos chineses continuam a prever automóveis com motor de combustão até, pelo menos, 2040. E é também nesse mercado que, curiosamente, a Volkswagen voltou a liderar nos últimos três meses. Foi episódico? Talvez. Mas um episódio destes já não acontecia há três anos.

Posto isto, a Volkswagen enganou-se. E, naturalmente, este motor híbrido não chega com 30 anos de atraso - a Toyota é que chegou cedo demais. Mas com seis anos de atraso, isso chegou seguramente. Agora é tempo de recuperar terreno e, por isso, uma das primeiras fábricas a receber este novo motor híbrido alemão é a Autoeuropa. A explicação é simples: é em Palmela que se produz o Volkswagen mais vendido na Europa.

Percebo que a Volkswagen tenha chegado tarde aos híbridos e, por isso, não tenha querido dar nas vistas. Mas, daqui para a frente, é altura de pôr o ego para trás das costas. Este motor não pode passar despercebido. Se passar, não serão apenas os egos em Wolfsburgo a ficar em maus lençóis.

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