Saltar para o conteúdo

Como as plantações de palma de óleo estão a alterar a parceria entre formigas e Macaranga no Bornéu

Vespa em árvore oca com ninhos de formigas e ovos em ambiente natural de floresta.

As florestas tropicais escondem alianças que parecem simples à primeira vista, mas que foram moldadas ao longo de enormes períodos evolutivos. No Bornéu, uma dessas relações envolve formigas e árvores e tem servido, durante anos, como um exemplo claro de cooperação na natureza.

Investigação recente indica, contudo, que a ação humana está a mexer neste equilíbrio de formas inesperadas. Um estudo analisou como as plantações de palma de óleo estão a afetar uma ligação antiga entre formigas e árvores do género Macaranga, mostrando ainda que um novo inseto entrou no sistema e começou a reconfigurá‑lo.

Antiga parceria formiga-árvore

As árvores Macaranga oferecem às formigas Crematogaster abrigo e alimento.

As formigas instalam-se dentro de caules ocos e alimentam-se de corpos alimentares especiais produzidos pela planta. Em troca, defendem a árvore: atacam herbívoros e retiram lianas prejudiciais.

Esta associação mantém-se há milhões de anos e aumenta a sobrevivência de ambas as espécies num ambiente de floresta tropical altamente competitivo. Por isso, é frequentemente apresentada pelos cientistas como um caso clássico de mutualismo.

Uma vespa a invadir as cavidades das árvores

Ao estudarem estas árvores, os investigadores detetaram um elemento novo. Uma espécie de vespa chamada Dasyproctus agilis começou a fazer ninho no interior dos mesmos caules.

“Enquanto fazia o levantamento destas plantas com formigas, reparei que muitos caules tinham sido escavados de uma forma invulgar. Quando os abrimos, estavam cheios de moscas a serem devoradas vivas por larvas de vespas”, disse Dan Lestina, que liderou o estudo.

“Os adultos caçam e paralisam as moscas e depois armazenam-nas nas cavidades da planta como alimento para as suas crias.”

Este tipo de comportamento não tinha sido observado anteriormente nesta família de plantas. Também foi a primeira vez que vespas deste género utilizaram estes habitats associados a formigas.

Vespas preferem plantações

A equipa comparou ambientes distintos, analisando árvores em florestas sujeitas a exploração madeireira e em plantações de palma de óleo.

Os dados revelaram um padrão inequívoco: nas florestas exploradas, apenas uma árvore tinha vespas; nas plantações, eram muitas mais as árvores ocupadas.

Isto indica que o contexto das plantações favorece a expansão destas vespas.

As plantações de palma de óleo diferem profundamente das florestas naturais: apresentam uma estrutura de vegetação mais simples e condições mais uniformes. A temperatura e a humidade também se alteram.

Estas características parecem beneficiar espécies generalistas, como a vespa. Este inseto consegue adaptar-se a diferentes ambientes e chega mesmo a surgir como praga em sistemas agrícolas.

“As atividades humanas estão a transformar habitats em todo o mundo, e este tipo de alteração nas interações entre espécies é exatamente o que esperamos ver”, afirmou a coautora do estudo, Dra. Kalsum M. Yusah.

“Ainda não sabemos se esta vespa é nativa ou introduzida, mas a sua expansão está claramente associada a paisagens perturbadas.”

Vespas afastam as formigas

O estudo identificou ainda outra tendência relevante: as árvores com mais vespas apresentavam colónias de formigas mais pequenas.

Isto aponta para competição entre formigas e vespas pelo espaço. As cavidades no interior do caule são limitadas, e ambas as espécies dependem delas.

Ainda não é claro como a interação ocorre. As vespas podem chegar antes das formigas ou podem expulsá-las. Outros fatores ambientais também podem estar envolvidos.

Seria de esperar que menos formigas significassem mais danos na planta. No entanto, os resultados não mostraram um aumento forte de herbivoria.

Os investigadores sugerem que isso pode dever-se à pouca idade das árvores analisadas. Plantas mais pequenas poderão ainda não depender totalmente da proteção das formigas.

Em árvores mais velhas, os efeitos podem ser mais intensos. À medida que as árvores crescem, as formigas tornam-se mais importantes, pelo que qualquer perturbação tende a tornar-se mais visível com o tempo.

Uso do solo perturba mutualismos

Este exemplo chama a atenção para um problema mais amplo: mudanças no uso do solo provocadas pelo ser humano podem desestabilizar relações biológicas estabelecidas há muito tempo.

Quando os habitats se alteram, novas espécies podem entrar e modificar sistemas já existentes. No início, estas mudanças podem passar despercebidas, mas podem acumular-se ao longo do tempo.

As árvores Macaranga são importantes para a recuperação florestal. Se a sua saúde se deteriorar, a regeneração em áreas perturbadas pode abrandar.

Os cientistas referem também possíveis efeitos evolutivos. Se deixar de ser vantajoso alojar formigas, a árvore poderá deixar de investir nessas estruturas.

“Quando os benefícios mutualistas se desmoronam, isso pode impulsionar mudanças evolutivas a longo prazo”, disse o Dr. Tom M. Fayle, da Queen Mary University of London.

“Se estas estruturas se tornarem menos valiosas para as plantas porque as vespas as exploram, as plantas podem deixar de investir nelas. Estas consequências subtis e de longo prazo da atividade humana são muito menos compreendidas do que a simples perda de biodiversidade.”

Um equilíbrio ecológico em mudança

Este estudo ilustra quão frágeis podem ser as relações ecológicas. Mesmo uma parceria aparentemente estável pode alterar-se quando surgem novas pressões.

A entrada de uma única espécie, combinada com alterações de habitat impulsionadas pelo ser humano, é capaz de transformar todo um sistema. Aquilo que funcionou sem grandes sobressaltos durante milhões de anos pode agora enfrentar desafios diferentes.

À medida que as paisagens continuam a mudar, é provável que mais interações deste tipo venham a ser identificadas. Compreendê-las será essencial para proteger os ecossistemas no futuro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário