O cenário é encenado, mas tudo o resto é bem real: drones no ar, rádios a transmitir, bombeiros em prontidão. No terreno, repetem-se as rotinas de sempre - pás, enxadas, batedores e machados - só que num contexto pensado para testar procedimentos.
No exercício europeu “PT EUMODEX 2026”, participam mais de 700 operacionais oriundos do Chipre, Chéquia, Espanha, França, Polónia e Portugal. O objetivo passa por ensaiar formas de resposta a fogos florestais e, a partir daí, afinar métodos de atuação.
A área escolhida para as simulações - entre Lordosa, Barreiros, Cepões, Côta e Calde - não é aleatória: há cerca de 30 anos que, com maior ou menor intensidade, todos os verões arde uma parte deste perímetro florestal. A base operacional do exercício está instalada no Campo de Viriato, em Viseu.
PT EUMODEX 2026 no Campo de Viriato: meios no terreno e logística
O tenente-coronel João Fernandes, da GNR, guia-nos pelo acampamento que acolhe as várias forças e que funciona como “zona de concentração e reserva para acorrer aos pedidos de reforço de meios para o incêndio”.
À vista estão viaturas de bombeiros, drones e equipamento diverso, ao lado de várias bandeiras; no ar, multiplicam-se sotaques e línguas. O dispositivo está montado para responder a um grande incêndio florestal e, como explica o tenente-coronel, o “campo base tem um módulo para duches e sanitários com capacidade para 14 dias, 600 refeições por turno, um posto de comando móvel e um veículo de manutenção”.
É um tipo de capacidade pouco comum de observar nos grandes incêndios que têm marcado o país, e está a ser usada para receber as equipas estrangeiras, “acionadas ao abrigo do mecanismo europeu de proteção civil”, precisa Marcel Lucacin, observador romeno responsável por validar o desenrolar das operações.
Posto de comando, comunicações e decisão operacional
O posto de comando foi montado no Aeródromo Municipal. Há veículos de comunicações de grandes dimensões e antenas móveis, e o dispositivo inclui até um observador da Autoridade Nacional de Comunicações.
É neste centro que, como descreve João Cardoso, comandante de operações, “chegam os reportes com o evoluir das situações: há duas frentes, durante a noite foi evacuada uma aldeia, procedeu-se ao confinamento da população enquanto decorria o ataque às chamas”.
A forma de atuar é encarada como “um avanço na doutrina", comenta um bombeiro de Tondela, porque "por norma esperamos o fogo nas estradas ou protegemos pessoas e aldeias e o combate ao incêndio fica para depois”.
Criar doutrina para os fogos florestais
No centro do exercício - a funcionar no quartel dos Bombeiros Sapadores, em Viseu - detalha-se o que está a ser treinado. “Em Cabrum procedemos à evacuação da aldeia, pessoas e animais, enquanto outras forças combatiam as chamas”, relata a italiana Daniela Pani, diretora-geral da Proteção Civil na Sardenha.
De acordo com o que diz ao Expresso, “o objetivo do exercício é criar doutrina, a incluir nos treinos de todas as forças envolvidas no combate aos fogos florestais”.
Miguel David, comandante da Proteção Civil em Viseu e coordenador do exercício, sublinha que a preparação incluiu “vários cenários, com evacuação de aldeias, confinamento de pessoas, em simultâneo com as operações de supressão do incêndio”. Trata-se, aponta, de um progresso num contexto em que, desde 2017, sucessivas comissões técnicas de análise aos fogos florestais têm referido que, quando existe risco direto para aldeias, o combate às chamas acaba por ser interrompido.
Dessas conclusões resultou a necessidade de especialização, organizada segundo “dois eixos estratégicos: a proteção contra incêndios rurais de pessoas edificações e edificações e a prevenção e supressão”.
Apesar disso, essa abordagem nunca foi plenamente operacionalizada. Entre os bombeiros portugueses presentes - vindos de várias zonas do país - há quem admita que “proteger casas e pessoas e floresta, são objetivos diferentes e que convocam competências distintas, em particular nos incêndios complexos, mais exigentes na gestão das valências das forças”.
“Assim, com estes exercícios aprendemos a gerir todos os ângulos de um grande incêndio”, resume um bombeiro de Castro Daire.
Certificação de módulos e prontidão no Mecanismo Europeu de Proteção Civil
Promovido pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, através do Comando Sub-regional de Emergência e Proteção Civil de Viseu Dão Lafões, o treino também tem um propósito de certificação: validar “mais um módulo de socorro em fogos florestais, para juntar ao que já existe em Portugal”, acrescenta Marcel Lucacin.
Em contas diretas, o tenente-coronel João Fernandes explica: “são mais 59 homens e 19 viaturas que Portugal tem em prontidão, com autonomia para 14 dias e pronto a atuar em fogos florestais em qualquer país onde o Mecanismo Europeu de Proteção Civil entenda ser necessário”.
Miguel Ângelo reforça que importa “testar a cooperação e a coordenação, definir processos e modelos de comunicação", bem como "melhorar capacidades operacionais entre todas as forças, de Portugal e dos países do Mecanismo Europeu de Proteção Civil”.
Entre os pontos colocados à prova contam-se a autossuficiência dos módulos - alimentação, logística de transporte, dormidas e rotação de operacionais - e também a referida mudança de doutrina no combate aos fogos em Portugal, que deverá ser avaliada em próximos exercícios de âmbito nacional.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário