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Competência performativa aos 34: não era burnout, era perfeccionismo

Mulher sentada no escritório com pilha de pastas, a olhar surpreendida para o ecrã do portátil.

É vista como competente, fiável, resiliente - no papel, a carreira corre-lhe às mil maravilhas. Por dentro, porém, sente-se como se estivesse numa auditoria permanente, sempre a um passo de “ser apanhada”. Aos 34 anos percebe: não é o trabalho que a está a destruir, é a representação contínua de segurança e controlo.

Quando ser “boa no trabalho” vira camuflagem

A ficha não cai numa sessão de coaching nem numa avaliação anual. Cai num passeio com o cão. O companheiro comenta, de forma casual, um novo software que ela “vai ter de aprender”. Em vez de responder com honestidade - “ainda não vi isso” -, desvia-se automaticamente para o que sabe de outra ferramenta. Mesmo em casa, com alguém que a ama, não consegue admitir que ainda não domina algo.

“Competência performativa: não é fingir que se é bom - é fingir que já se está sempre pronto.”

É assim que ela descreve o padrão dos últimos sete anos: é capaz e bem formada, mas lustra cada competência ao ponto de ninguém ver uma versão inacabada. Nada de pensar em voz alta nas reuniões; leva respostas “pré-instaladas”. Não envia um e-mail sem tripla verificação. E constrói perguntas de forma a parecerem testes - nunca verdadeiro não-saber.

Do lado de fora, isto parece “nível de profissionalismo 100”. Manuais de carreira aplaudiriam: preparação impecável, postura segura, sempre no ponto. Só que quase ninguém fala do preço que este tipo de funcionamento cobra.

Porque é que o cérebro trata “não saber” como perigo

Antes, ela trabalhou em neurociência, em estudos sobre declínio cognitivo. Conhece bem a evidência: o cérebro está implacavelmente orientado para detetar ameaças. E ameaças sociais - ridicularização, exposição, exclusão - ativam circuitos semelhantes aos da ameaça física.

Quem aprende que “ser apanhado a não saber” é perigoso, acaba por construir uma equação interna:

  • Se eu impressionar, estou segura.
  • Se eu estiver segura, posso ficar.

Esta lógica surge muitas vezes cedo, em famílias onde o valor está sobretudo ligado ao desempenho, à clareza e à utilidade. Quem não consegue explicar “perfeitamente” o que sabe, quem “ocupa espaço a mais” ou faz perguntas, é rapidamente desvalorizado. A competência visível transforma-se, assim, numa espécie de moeda de sobrevivência.

A investigação psicológica sobre perfeccionismo descreve este mecanismo como uma defesa contra vergonha e insegurança. O perfeccionismo funciona como um conjunto de comprimidos “mágicos” contra feridas antigas e uma ansiedade difusa sobre o futuro. A armadilha é óbvia: quando tudo conta, qualquer erro vira desastre. O balanço pessoal dela resume-se numa frase: “a ‘show’ de competência é perfeccionismo de blazer.”

Burnout ou apenas uma personagem permanente? Uma diferença crucial

Durante dois anos, ela atribui o esgotamento a burnout. Reconhece os clássicos: cansaço pesado, nervosismo antes do início da semana, concentração “como cimento” à quinta-feira. Testa tudo o que os guias recomendam: melhores rotinas de sono, mais natureza, menos ecrã.

Nada muda de forma consistente. Até que encontra estudos sobre trabalho emocional e sobre “gestão de impressões” (impression management). Aí fala-se do custo de viver no trabalho a regular emoções e apresentação pessoal, de forma contínua. Não é apenas a carga de tarefas que desgasta; é a auto-regulação sem pausa.

“Ela não estava cansada de trabalhar. Estava cansada de vigiar, o tempo todo, o efeito que causava.”

O conceito que lhe fica na cabeça não é “stress”, mas “regulação”. Não são as tarefas, os prazos ou os conflitos que drenam mais energia; é o corrigir interno, o filtrar, o alisar. A persona “tenho tudo sob controlo” fica em segundo plano como uma app a consumir recursos que nunca fecha.

O medo de fundo: não é incapacidade, é incerteza

O mais interessante é que, quando ela se descreve, não está a falar de dúvidas clássicas como na síndrome do impostor. Ela sabe que é objetivamente competente. O receio é mais profundo: o que acontece se os outros virem a versão dela sem filtro, ainda a meio do caminho?

Perguntas que lhe surgem:

  • Continuo a ser “suficiente”?
  • Perco o meu lugar se eu deixar de impressionar?
  • Existe uma versão de mim que é aceite sem camada de brilho?

Quem, em criança, só tinha paz quando era útil, obediente ou impressionante, liga o não-saber não só à vergonha, mas a uma ameaça existencial. Não brilhar deixa de ser “ficar mal visto” e passa a ser “não ter direito a estar na sala”.

E, ao contrário do enredo típico da síndrome do impostor, no caso dela não há um “fosso secreto” entre interior e exterior que ela reconheça e tema revelar. Ela mostra consistentemente, para fora, apenas partes concluídas e polidas. O inacabado nem chega a subir ao palco. Por fora parece vitória; por dentro soa a cerco.

O que acontece quando, no trabalho, se diz “não sei”

A viragem começa de forma surpreendentemente pequena. Numa conversa com uma colega, ela força-se a dizer a frase que sempre evitou: “Ainda não sei como isto funciona. Podes mostrar-me o processo?”

O corpo reage como se tivesse acabado de evitar um acidente de viação: taquicardia, tensão, alarme. E depois - nada. A colega explica com simpatia e, no fim, parece até mais relaxada. Sem revirar de olhos, sem desvalorizar. Pelo contrário: quase um alívio por não ter de fingir que também sabe tudo.

“A autenticidade real numa equipa não nasce porque toda a gente é perfeita - nasce porque alguém, primeiro, admite que não é.”

Ela repete a experiência algumas vezes e o padrão mantém-se: sirenes internas, normalidade cá fora. Ninguém põe em causa a competência dela. Ninguém diz “Como assim, não sabe?” A catástrofe prevista não aparece.

Sempre disponível: o custo de uma “prontidão” constante

Depois de anos a desempenhar o papel de pessoa permanentemente competente, ela leva essa postura para o dia a dia. Torna-se a pessoa que tem sempre um plano, que conhece o restaurante certo, que tem a solução na ponta da língua - no escritório, mas também entre amigos e na relação.

O esforço não está tanto em aprender mais, mas em não poder admitir, em momento algum, que algo simplesmente lhe falta. A constatação final chega quando percebe que esta personagem já tinha invadido até o passeio matinal com o cão. Já não existe um espaço livre de performance interna.

Aspeto Competência real Competência performativa
Antes de reuniões Boa preparação, abertura a perguntas Respostas todas pré-formuladas, zero falhas permitidas
Erros Fonte de aprendizagem Perigo que tem de ser escondido
Sensação depois Cansaço, mas satisfação Exaustão, tensão, vigilância

Pequenos passos para sair da armadilha do perfeccionismo

Ela descreve vários “testes” para afrouxar gradualmente o padrão. Nada de confissões dramáticas; são ajustes práticos.

  • Nomear o não-saber uma vez por dia: num chat, numa chamada curta, numa reunião. Uma frase do tipo “não tenho a certeza disto, o que achas?” - deliberadamente como treino.
  • Observar a reação do corpo: presta atenção à tensão na mandíbula, ao ar preso, às palpitações, assim que sente: “agora eu iria inventar uma resposta perfeita.”
  • Separar preparação de sobre-preparação: pergunta a si mesma: isto serve o resultado - ou só serve o meu medo de parecer ignorante?
  • Testar a ‘exigência’ do contexto: questiona-se com mais honestidade: “este trabalho exige mesmo esta fachada brilhante, ou fui eu que a impus?”

Trabalhos de psicologia sobre pessimismo defensivo mostram como crenças negativas rígidas podem funcionar como proteção. De fora, parecem distorções; por dentro, sentem-se inevitáveis. Para ela, a convicção “nunca posso ser vista a aprender” foi, durante anos, tão óbvia como uma lei da natureza.

Ser competente sem usar armadura

Também são interessantes os termos que especialistas usam para descrever certas estruturas de personalidade. Em abordagens psicanalíticas fala-se de pessoas que organizam a vida sobretudo através do pensar e do fazer - à custa de sentir, notar o corpo, brincar, pausar. Por fora parecem colaboradoras ideais; por dentro vivem num estado de alerta constante.

É exatamente assim que esta mulher de 34 anos relata o quotidiano: cada interação vira um exame interno. Só quando responde sem falhas é que sente, por instantes, alguma segurança. E a “bateria emocional” quase não recarrega, porque até os momentos de descanso ficam atravessados por auditorias mentais.

“O momento em que os outros te veem a aprender parece, primeiro, perda de controlo - e logo a seguir, descanso.”

Da leitura da investigação e da própria história, ela retira duas ideias centrais:

  • O trabalho emocional - isto é, regular continuamente a impressão que se causa e a forma como se aparece - consome mais energia do que muitas tarefas objetivas.
  • O medo da incerteza não se apazigua com mais desempenho. Precisa de estratégias diferentes de “ser ainda mais perfeito”.

O que outras pessoas podem retirar desta história

Quem se reconhecer em partes desta narrativa pode começar com experiências pequenas, em vez de tentar mudar a vida inteira. Por exemplo, na próxima reunião, fazer uma pergunta de esclarecimento mesmo com receio de parecer “burro”. Ou, num e-mail, escrever sem rodeios: “Aqui preciso de mais input de X.”

Também pode ajudar definir, para si, conceitos como “trabalho emocional” e “gestão de impressões”. Para os tornar concretos, dá para observar o dia a dia: onde é que estou a representar um papel em vez de estar apenas a trabalhar no tema? Onde é que reformulo frases não para melhorar o conteúdo, mas para soar mais seguro?

Ao nível organizacional, equipas ganham muito com uma cultura em que perguntas, dúvidas e pensamentos ainda inacabados têm espaço. Os projetos tornam-se mais realistas, os riscos aparecem mais cedo, novas colaboradoras tornam-se produtivas mais depressa. E pessoas que, de outra forma, virariam facilmente “robôs de performance” aguentam mais tempo, porque podem estar presentes também como humanas.

Ela descreve como o quotidiano foi mudando, passo a passo, desde que se permitiu aprender à vista. Já não se prende a um ideal de infalibilidade, mas a uma versão realista: competente, empenhada e, às vezes, sem a mínima ideia. O cansaço não desapareceu de um dia para o outro, mas já se parece menos com um cerco e mais com a fadiga normal depois de trabalho real.

O ponto talvez mais importante: por baixo da fachada perfeita não aparece um “embuste”. Aparece alguém que sabe, de facto, fazer muita coisa - e que só se torna verdadeiramente interessante quando os outros a veem no processo, e não apenas no resultado.


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