A União Europeia prepara-se para alterar em profundidade a forma como se produz no setor automóvel através da estratégia Feito na Europa, que irá impor um limiar mínimo de materiais e componentes de origem local nos veículos fabricados no espaço comunitário.
Na prática, a intenção de Bruxelas é diminuir a dependência de fornecedores externos. Ainda assim, esta mudança pode ter efeitos colaterais: custos mais elevados para os automóveis e uma indústria europeia com mais dificuldades em competir.
Para entender o que está verdadeiramente em jogo, o Auto Rádio - o programa áudio da Razão Automóvel com o apoio do PiscaPisca.pt - recebeu José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel. Ora vejam:
Indústria sob pressão
Enquanto a Comissão Europeia define uma nova orientação industrial para os automóveis, rebentou um conflito entre EUA, Israel e Irão que voltou a colocar sob risco uma das ligações mais sensíveis da economia mundial: o Estreito de Ormuz.
Por esse corredor passam grandes volumes de matérias-primas essenciais para a indústria - não só petróleo e gás, mas também componentes e outros recursos críticos.
O episódio expõe um facto há muito conhecido: o setor automóvel europeu assenta de forma intensa em cadeias de abastecimento globais.
E a dependência não se resume aos materiais ligados às baterias, um segmento em que a China domina, concentrando mais de 70% da produção mundial de baterias para veículos elétricos. A questão estende-se aos semicondutores, processadores e a um vasto conjunto de componentes eletrónicos, cuja fabricação continua muito concentrada na Ásia.
Europa menos dependente
Para cortar esta dependência externa, a Comissão Europeia apresentou a estratégia Feito na Europa, integrada na Lei do Acelerador Industrial. O princípio é claro: os automóveis novos produzidos na Europa terão de incorporar um conteúdo mínimo de materiais e componentes de origem europeia.
A meta é que, até 2035, a produção industrial passe a representar 20% do PIB da União Europeia - bem acima dos 14% atuais -, com a criação de cerca de 150 mil novos postos de trabalho.
No setor automóvel, estas regras incidem sobretudo sobre veículos elétricos, híbridos de carregamento externo e veículos a hidrogénio (célula de combustível) adquiridos via concursos públicos ou no âmbito de programas de incentivo. Para serem enquadrados como de origem europeia, estes veículos terão de satisfazer vários critérios.
O primeiro é direto: o veículo tem de ser montado em estados-membros da União Europeia (Reino Unido e Japão também foram incluídos). Se isso não acontecer, o automóvel fica impedido de beneficiar de compras públicas ou de determinados incentivos.
O segundo critério fixa uma quota mínima de 70% de peças produzidas na União Europeia. O cálculo é feito com base no valor das peças à saída de fábrica. A bateria não entra nesta conta, uma vez que está sujeita a requisitos próprios.
Realidade portuguesa
Portugal, que em 2025 se afirmou como o nono país produtor de automóveis na Europa, não passa ao lado desta transformação - até porque dispõe de uma forte indústria de componentes que abastece a produção automóvel em múltiplos mercados: 98% dos automóveis fabricados na Europa incluem pelo menos um componente produzido em Portugal.
Não por acaso, o setor de componentes, por si só, pesa cerca de 5,2% do PIB português e gera, ano após ano, aproximadamente 14,7 mil milhões de euros. Foram estes números que o próprio José Couto, presidente da AFIA, destacou no Auto Rádio, onde ainda houve espaço para abordar outro pilar do tecido industrial nacional: os moldes para injeção de plástico.
Neste domínio, Portugal tem relevância internacional: somos o terceiro maior produtor na Europa e o oitavo a nível mundial.
Segundo a CEFAMOL - Associação Nacional da Indústria de Moldes, esta atividade atingiu 788 milhões de euros de faturação em 2024, com 80% da produção destinada à exportação.
E agora?
A indústria automóvel europeia atravessa uma fase determinante. Entre conflitos internacionais que perturbam rotas e cadeias de fornecimento essenciais, uma forte exposição a fornecedores externos e novas regras internas, o futuro do «velho continente» está a ser decidido agora.
Já não estamos apenas perante uma discussão industrial ou tecnológica. É uma questão estratégica e fundamental. Até porque está em causa um dos setores mais importantes da economia europeia, responsável por 13 milhões de empregos, milhares deles em Portugal.
Encontro marcado no Auto Rádio para a próxima semana
Razões não faltam, por isso, para ver/ouvir o episódio mais recente do Auto Rádio, que regressa na próxima semana às plataformas habituais: YouTube, Apple Podcasts e Spotify.
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