Eduardo Madeira passou praticamente uma vida inteira a polir a arte de fazer rir. Entre as muitas facetas do seu humor, há uma que se tornou particularmente reconhecível: a capacidade de imitar, de forma surpreendente, várias figuras públicas. Ficaram marcantes as suas imitações de Jorge Jesus, de Markl, do chef Ljubomir, de Trump ou até do busto do CR7.
Uma carreira de quase 30 anos no humor
Ao longo de quase 30 anos de percurso, fez um pouco de tudo: criou com Filipe Homem Fonseca o duo musical “Cebola Mole”, escreveu e subiu ao palco em inúmeras peças de teatro, e ainda passou por séries, filmes, espetáculos a solo de comédia de stand-up e programas de humor para televisão e rádio.
Antes desse caminho se impor, chegou a estudar para advogado na Faculdade de Direito. Mas um esquete enviado para as Produções Fictícias acertou em cheio e acabou por lhe mudar o rumo: a estreia foi imediata, com textos para Herman José no “Herman Enciclopédia”.
Um dos exemplos mais citados desse período é o bordão “Onde é que estavas no 25 de Abril”, repetido por Herman para satirizar Baptista Bastos (na versão Artista Bastos), e que é da autoria de Eduardo.
A partir daí, veio o alinhamento que muitos reconhecem: “Contra Informação”, “Conversa da Treta”, “Os Contemporâneos” e “Donos Disto Tudo” são apenas algumas das criações que tiveram a sua assinatura.
O novo solo de Eduardo Madeira: “Grande entre os Assassinos”
Com muitos espetáculos no corpo, Eduardo regressou este ano à estrada e aos palcos com um novo espetáculo a solo, escrito por si - doze anos depois do anterior.
Diz que este é, até hoje, o trabalho mais íntimo. Em “Grande entre os Assassinos”, expõe-se num texto que não existe apenas para animar: através da lente da comédia, partilha também episódios difíceis por que passou.
A sinopse de “Grande entre os Assassinos” promete várias revelações:
- O sexo
- a loucura
- os excessos
- a morte do irmão
- a morte da namorada
- a experiência gay
- como acabou por ser testemunha num processo de violência doméstica
- e uma ligação improvável… com assassinos.
A pergunta surge, inevitável: será este espetáculo uma espécie de purga do passado?
E se é verdade que rir é, muitas vezes, o melhor remédio, este solo vem com algumas contraindicações - e pode mesmo causar azia. Sobretudo entre os mais púdicos, os mais preconceituosos, os mais sensíveis e até alguns dos visados, incluindo antigos colegas de profissão.
Eduardo garante, no entanto, que isso não o incomoda. Faz parte do seu espetáculo.
Até porque - sem fazermos de conta que somos anjinhos - o humor que não aponta a mira a lado nenhum dificilmente acerta: não tem grande força, dá sono e não acrescenta. A questão central passa por saber para onde Eduardo escolhe apontar essa mira. Ele responde a isso na primeira parte desta conversa.
Datas e locais de “Grande entre os Assassinos”
Quanto ao espetáculo, fica a nota: “Grande entre os Assassinos” passa este sábado, dia 9 de maio, pelo Teatro Sá da Bandeira, no Porto, e a 29 de junho pelo Teatro Tivoli, em Lisboa.
Um “ambivertido”: extroversão e recolhimento
Eduardo diz ver-se como um “ambivertido”. Como certos champôs, é dois em um.
Isto é: tanto é extrovertido e dado ao convívio, como precisa do lado introvertido e solitário para recuperar energia, reorganizar as ideias e criar. Diz que necessita mesmo dessas duas dimensões - e que não sabe existir só numa.
Origens, fé e a função do riso
Recuperando o princípio da história, Eduardo nasceu em Bissau, durante a Guerra Colonial em África. O pai era militar, empresário e caçador de crocodilos. A mãe comia mangas, lia e tomava comprimidos para dormir.
Com a revolução e o fim da guerra, o regresso da família tornou-se inevitável, e foi em Coimbra que passou a infância. Lembra-se de ser um miúdo tímido, embora já nessa altura conseguisse prender a atenção dos outros com histórias inventadas e com graça. É a essas memórias mais antigas que ele volta aqui.
Há doze anos, Eduardo converteu-se ao catolicismo, na sequência de uma experiência de quase morte de alguém próximo. Como é, hoje, a sua relação com a fé? E será que Deus se ri de nós lá do alto?
Eduardo conta ainda que, de certa forma, a Inteligência Artificial o tem ajudado a sustentar essa fé, tantas vezes abalada. Isto porque, um dia, perguntou à IA se Deus existe. E o computador disse que sim.
Revela também que gosta do mar, de jazz, de ler, de comer bem e de fazer amor em todas as suas formas. “Sou efetiva e genuinamente um praticante do amor”.
E isto não é pouco - especialmente numa época de trincheiras, novas guerras, ódios e radicalismos.
Pode o humor tornar o ar mais respirável numa sala? Pode ser chão comum e linguagem partilhada? Que lugar tem a arte do riso quando a violência e a desumanização se tornam banais?
É por aqui que a conversa começa.
Nesta nova temporada, o genérico passa a ser assinado por A Garota Não. Os retratos são de Francisco Romão. E a sonoplastia deste programa é de Francisco Marujo.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
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