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Mali: ofensiva jiadista e tuaregue expõe fragilidade da junta no Sahel

Soldado em uniforme camuflado lê mapa em capô de viatura militar num cenário desértico com fumaça ao fundo.

Desde a queda do “califado” proclamado pelo autodenominado “Estado Islâmico” no Iraque e na Síria, o centro de gravidade do jiadismo mundial deslocou-se para o Sahel. Nesta vasta faixa africana, do Oceano Atlântico ao Mar Vermelho, múltiplas comunidades vivem comprimidas entre a repressão de juntas militares e a violência associada a dinâmicas jiadistas ou a movimentos separatistas.

Nos últimos 15 anos, o Mali passou a ser um dos principais focos de instabilidade: uma rebelião tuaregue armada no norte, dois golpes de Estado em Bamako, a expansão jiadista para países vizinhos (sobretudo Burkina Faso e Níger) e sucessivas intervenções militares externas. A escalada mais recente - com ataques no norte, no centro e no sul - espelha a degradação persistente da segurança no país.

O que aconteceu no Mali?

No dia 25 de abril, grupos armados lançaram uma ofensiva em seis grandes cidades: duas no norte (Kidal e Gao), duas no centro (Mopti e Sévaré) e ainda Bamako, a capital, e a cidade-guarnição de Kati - ou seja, polos centrais do poder político e militar. A dimensão desta operação também se mede pela distância: Bamako e Kidal, por exemplo, estão separadas por mais de 1500 quilómetros.

Apostando no fator surpresa, em alguns pontos recorreram a viaturas armadilhadas para penetrar em áreas de alta segurança ou para provocar explosões que abrissem caminho a pequenos grupos de combatentes, que tiravam partido do choque para abrir fogo e maximizar os estragos. Noutros teatros, adotaram táticas típicas de uma guerra convencional, com grandes contingentes a atacarem quartéis usando armamento pesado e até drones.

Que danos causaram?

Entre as seis cidades visadas, quase todas voltaram a ficar sob controlo do Governo. Em Bamako, a violência concentrou-se na zona do aeroporto internacional. Em Mopti, Sévaré e Gao, os jiadistas chegaram a controlar partes das localidades, mas acabaram afastados pelo exército, com apoio de paramilitares russos.

O ataque mais simbólico ocorreu em Kati, onde reside a maioria dos generais que comandam o país. Sadio Camara, o ministro da Defesa, de 47 anos, foi assassinado após a detonação de um veículo armadilhado junto à sua casa. O líder da junta, coronel Assimi Goita, de 42 anos, acumulou a pasta da Defesa e declarou a situação “sob controlo”.

Kidal foi a exceção: a cidade caiu nas mãos dos rebeldes. Depois de assumirem o comando local, prometeram uma retirada em segurança às forças derrotadas, desde que desistissem de continuar a lutar.

Que grupos armados são estes?

A vaga de ataques resultou de uma colaboração entre forças jiadistas e tuaregues. De um lado está o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligado à Al-Qaeda. O seu objetivo é impor a sharia (lei islâmica) em todo o Mali, no Sahel e mesmo para lá da região, estando particularmente ativo no Mali, no Burkina Faso e no Níger.

O outro eixo desta convergência é a Frente de Libertação de Azawad (FLA), movimento separatista liderado por tuaregues, que reclama a independência - ou, no mínimo, uma autonomia ampla - do território de Azawad. No norte do Mali, este espaço inclui Kidal, Gao e Timbuktu. A aspiração é anterior à própria independência do Mali, em 1960.

Face a ofensivas anteriores, “o que distingue esta ofensiva é a coordenação entre os dois grupos”, diz ao Expresso Ana Carina Franco, professora de Relações Internacionais no Instituto Piaget de Viseu. “Aliaram-se frente a um inimigo comum, que é a junta militar maliana”, embora tenham metas estratégicas de longo prazo diferentes.

O que motivou esta aliança?

O entendimento traduz uma demonstração de pragmatismo alimentada pelo descontentamento. No caso tuaregue, o ressentimento cresceu com o afastamento, por parte das autoridades, dos Acordos de Argel de 2015, que previam mais autonomia para as comunidades do norte e a integração de combatentes rebeldes nas forças de segurança nacionais.

“A partir do momento em que o exército voltou a ocupar o território do Norte [novembro de 2023], a junta mostrou que não tinha interesse em manter o estipulado nos Acordos de 2015, e descartou-o. A junta era soberana e mostrava que tinha o controlo do território, sem olhar a questões de autonomia ou de autodeterminação de povos”, explica a investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), da Universidade Nova de Lisboa.

A isto somam-se queixas históricas das populações relativamente à brutalidade do exército. “Quando falamos com populações do norte, recordam que, desde a sua infância, sempre que aparecia o exército, os seus pais, tios, avós, pediam que se escondessem.”

Do lado do JNIM, a capacidade de impor pressão tem sido evidente. Numa ação recente, em novembro passado, bloqueou estradas que ligam Bamako a países costeiros vizinhos, forçando a junta a negociar para garantir o abastecimento da capital. “O JNIM chegou ao ponto de aplicar a sharia dentro de autocarros, nesses eixos rodoviários - com separação entre homens e mulheres, uso do véu, etc. - para mostrar que controlavam”, diz Ana Carina Franco.

Porquê esta ofensiva agora?

Os ataques atuais encaixam num padrão observado ao longo do último ano: o JNIM - com bastiões nas áreas rurais - tem alargado o alcance geográfico e alterado o seu modo de atuação. Passou, por exemplo, a atacar rotas de transporte, abastecimentos de combustível e pontos-chave de acesso a zonas urbanas.

Ao atingir grandes cidades - seja com ataques diretos, seja condicionando o abastecimento - o JNIM expõe a incapacidade da junta, ganha margem para arrancar concessões ao Estado e obriga as forças governamentais a retraírem-se nas zonas rurais para acudirem as áreas urbanas.

“O JNIM concentra-se nas zonas rurais, onde há uma histórica provisão de segurança por atores não estatais: milícias, grupos locais, etc. O exército raramente lá chega. Esta ofensiva vai permitir que o JNIM ganhe fôlego nas zonas rurais porque o exército vai concentrar-se sobretudo no controlo das cidades”, diz a investigadora do IPRI.

Jiadistas e tuaregues convergem no objetivo de ver cair a junta militar, embora, para os primeiros, isso não implique necessariamente governar. “Parece-me que a ideia do JNIM não é tomar o poder a ponto de espoletar uma intervenção internacional. Seria contraproducente”, diz Franco. “A ideia é manter o que tem e conseguir estabelecer uma paragovernança nas zonas que controlam. Uma intervenção estrangeira acabaria por prejudicar o seu projeto.”

Jiadistas e tuaregues são aliados desde sempre?

Não. Em particular no norte, coexistem muitas vezes no mesmo espaço, pertencem à mesma comunidade - por vezes, com ligações familiares -, cooperam no combate à presença estrangeira e trocam informações, mas os seus objetivos finais não coincidem.

Os jiadistas e os rebeldes tuaregues são parceiros improváveis. Desentenderam-se em 2012, depois de terem ocupado brevemente o norte do Mali. Agora, voltaram a unir-se porque querem juntar forças para derrubar o governo militar em Bamako”, diz ao Expresso Ulf Laessing, responsável do programa para o Sahel do centro de estudos alemão Fundação Konrad Adenauer.

“O JNIM percebeu que não conseguiria tomar a capital sozinho. Não tem combatentes suficientes e não é bem visto em todo o país. Por isso, aceitou os tuaregues, que foram muito úteis na tomada de Kidal e de outras cidades em redor da fronteira norte com a Argélia”, acrescenta.

Desde novembro de 2023, quando o exército do Mali derrotou ambos os grupos em Kidal, têm existido esforços para que formem uma aliança. As conversações, porém, bloquearam porque nenhum lado aceita ceder: os separatistas exigem que o JNIM corte com a Al-Qaeda e se transforme num movimento local; os jiadistas pretendem que os tuaregues desistam da reivindicação separatista e aceitem a aplicação da sharia.

A coordenação mostrada nestes ataques surpreendeu até quem acompanha de perto a realidade maliana. Só o tempo dirá se há um entendimento sólido entre as duas fações que possa conduzir, inclusive, a uma partilha de poder em Kidal. O destino de outras grandes cidades do norte, como Timbuktu e Gao, ainda nas mãos do Estado, dará sinais sobre a robustez - ou fragilidade - do regime.

Kidal é simbólica por algum motivo?

Junto à fronteira com a Argélia, “Kidal é aquela cidade no norte onde o Estado maliano raramente esteve presente”, diz Ana Carina Franco. “Sempre foi, de alguma forma, um bastião nos grupos políticos do norte, sobretudo dos tuaregues. Também recebeu muitos grupos associados à Al-Qaeda que foram expulsos pelo Estado argelino.” O JNIM, criado em 2017, resulta dessa deslocação.

Depois de ter sido reconquistada pelas forças governamentais, em novembro de 2023, Kidal passou a funcionar como símbolo do poder militar e como pilar da narrativa soberanista do regime numa zona de tradição separatista. Voltar a perdê-la representa um golpe político e operacional.

Kidal acaba por ser um espelho do que se passa no resto do país e do controlo, ou falta dele, pelo Estado maliano. Sinaliza também como está a ser gerida a questão do Norte”, acrescenta a investigadora. Para os tuaregues, por sua vez, a recaptura de Kidal reanima a dinâmica independentista.

O revés em Kidal afeta a reputação da Rússia?

Apesar de Kidal ter caído, as restantes grandes cidades atacadas permaneceram sob controlo governamental com apoio russo. Ainda assim, a perda de Kidal fragiliza a imagem de Moscovo e, em particular, a sua credibilidade como parceira fiável de Bamako.

“Para a Rússia, é um grande golpe. Garantiu ao Mali que não precisava de outros parceiros, incentivou-o a terminar a relação com a ONU (MINUSMA) e com a França (operação Barkhane). E, no fim, não cumpriu a promessa. Os russos perderam parte do norte e nem sequer combateram”, analisa Ulf Laessing.

“Agora a Rússia tem de mostrar que consegue mesmo salvar este regime no sul, porque é a sua reputação que está em causa.” E recorda um episódio traumático para Moscovo: “Não conseguiram salvar Bashar al-Assad na Síria…”

A presença militar russa no Mali intensificou-se após o fim da operação antiterrorismo francesa (Barkhane, entre 2014 e 2022), em linha com a vontade das autoridades malianas. Bamako escolheu então a Rússia como parceira prioritária em matéria de segurança: primeiro através do Grupo Wagner, a força mercenária do oligarca Yevgeny Prigozhin, e depois, desde meados de 2025, por via do Africa Corps, força paramilitar subordinada ao Ministério da Defesa.

“As forças russas podiam ter feito mais, mas não quiseram. O Africa Corps não é o Grupo Wagner, que tinha uma atitude agressiva e implacável, e que não se esquivava a qualquer luta. O Africa Corps responde ao Ministério da Defesa. Tendo de lutar, estavam cientes de que poderia haver baixas. Não queriam essas imagens. Por isso, retiraram-se”, analisa Laessing.

É previsível uma ofensiva para recuperar Kidal?

“Não creio que Bamako tenha opções realistas para conseguir retomar Kidal. Precisaria dos russos, que foram fundamentais na tomada do bastião tuaregue no final de 2023. E os russos não o farão, foram humilhados lá”, diz o investigador alemão.

Em paralelo, “a Argélia não quer o Africa Corps perto da fronteira. Portanto, penso que, por enquanto, o regime ainda está em modo de sobrevivência. Tentará reconstruir a base de poder em Bamako e depois pensar nos próximos passos”.

Nos últimos anos, o Governo maliano afunilou a sua estratégia de segurança, que resultou num paradoxo. Perante o agravamento da ameaça islamita, afastou parceiros internacionais - forçando a saída dos militares franceses e dos capacetes azuis das Nações Unidas - e rompeu com a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que pressionava a junta a realizar eleições. O país tinha cerca de 20 mil soldados regionais e internacionais; passou a contar com não mais de 2500 efetivos nas forças russas.

“Quando não existe capacidade, a retirada é o melhor. E não existe capacidade. O número de efetivos russos não é suficiente para o território e para a sua complexidade”, conclui a investigadora do IPRI. “O apoio russo trouxe coisas que os parceiros ocidentais não deram: acompanham as tropas em combate no terreno e fornecem armas letais, por exemplo. Mas isso não é suficiente a longo prazo, sobretudo quando o descontentamento da população é grande. Os malianos queixam-se muito de retaliações contra certas etnias, pelo exército maliano, mas também pelos russos.”

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