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Oficina de fundie7e3o de ferro com 2 400 anos no Senegal manteve-se activa quase 800 anos

Homem a escavar e examinar artefactos num sítio arqueológico em terra seca com árvores ao fundo.

Arqueólogos identificaram no Senegal uma oficina de redução de minério para produzir ferro com cerca de 2 400 anos, que continuou activa durante quase 800 anos.

A descoberta indica que alguns metalurgistas da 1frica Ocidental mantiveram, durante muito mais tempo do que muitos investigadores antecipavam, uma receita pr1tica e est1vel para transformar mine9rio em ferro.

O que o sedtio revelou

Em Dide9 West 1, no leste do Senegal, perto do vale do Fale9me9, a actividade deixou um monte com 100 toneladas de escf3ria e outros detritos de fundie7e3o.

A partir da leitura desse amontoado de resedduos, Me9lissa Morel, da Universidade de Genebra (UNIGE), associou os fornos e os tubos de ar em argila a uma tradie7e3o te9cnica duradoura.

Ao longo de quase oito se9culos, tanto o formato do forno como o sistema de entrada de ar sofreram alterae7f5es mednimas, apesar de a oficina, aos poucos, se ter deslocado para norte.

A combinae7e3o entre continuidade e pequenos ajustamentos ajuda a compreender porque e9 que comunidades antigas de produe7e3o de ferro conservaram determinadas escolhas.

Como o ar circulava

No interior da oficina, as tuye8res d tubos de argila que injectam ar no forno d forneciam oxige9nio na zona onde o fogo atingia as temperaturas mais elevadas.

Em vez de terminarem numa fanica abertura, estes tubos dividiam-se em ve1rias saeddas mais pequenas, distribuindo o ar pela base do forno.

Este arranjo permitia manter o calor concentrado no fundo, precisamente onde o mine9rio de ferro precisava de se transformar sob temperaturas intensas.

Como o mesmo desenho pouco comum se repete sucessivamente, o sedtio regista uma decise3o te9cnica na qual as pessoas voltaram a confiar vezes sem conta.

Resedduos que guardam pistas

Em muitos dos alicerces dos fornos, ainda se encontravam grandes blocos de escf3ria d o resedduo vitrificado que sobra apf3s a redue7e3o do mine9rio.

Esses vestedgios sugerem que ne3o se tratou de um fanico forno remendado ao longo dos se9culos, mas de uma instalae7e3o familiar reconstruedda repetidamente.

Cerca de 35 bases circulares, cada uma com aproximadamente 30 cm de profundidade, apontam para ve1rios episf3dios de produe7e3o, e ne3o para uma curta fase isolada.

A escala tere1 sido local, mas a quantidade e qualidade do que ficou preservado foi suficiente para expor rotinas que, em muitos outros contextos, se perderiam.

Sementes de palma por baixo

Um dos pormenores mais inesperados surgiu no fundo do forno: a equipa encontrou sementes de noz de palma compactadas.

Colocadas como enchimento, as sementes ocupavam o espae7o abaixo do mine9rio, enquanto acima delas se iam acumulando o calor e os resedduos da operae7e3o.

Segundo os investigadores, esta pre1tica ne3o tinha sido documentada anteriormente num sedtio de fundie7e3o de ferro, o que torna Dide9 West 1 particularmente elucidativo.

O detalhe, discreto mas significativo, transforma uma simples cavidade de forno numa prova de ajustamento deliberado, em vez de improviso grosseiro.

Uma oficina que se desloca

Com o passar do tempo, a prf3pria e1rea de trabalho avane7ou gradualmente para norte, deixando um rasto espacial dentro do sedtio.

Esse padre3o indica que o local foi reocupado em diferentes fases, em vez de funcionar como uma instalae7e3o fixa e ininterrupta.

A hipf3tese de uma fundie7e3o sazonal encaixa nos dados, uma vez que uma produe7e3o pequena e local tenderia a acompanhar ritmos de me3o-de-obra, disponibilidade de combustedvel e calende1rio agredcola.

Assim, o sedtio surge como um espae7o de trabalho ao qual se regressava quando o ferro fazia falta, e ne3o como uma estrutura fanica e imute1vel.

Ferramentas para campos prf3ximos

Tudo indica que a produe7e3o se manteve limitada e pragme1tica, orientada mais para as necessidades do quotidiano do que para o come9rcio a longa diste2ncia.

O ferro obtido em locais como Dide9 West 1 teria grande valor para fabricar ferramentas capazes de trabalhar terra, madeira e fibras.

Essa dimense3o local ajuda a explicar a longevidade da oficina, je1 que a capacidade de manter e reparar de forma fie1vel pode ter sido mais importante do que uma expanse3o re1pida.

Uma tecnologia de aldeia pode durar mais do que uma indfastria maior que cresce depressa e desaparece em pouco tempo.

Porque a estabilidade importa

Na arqueologia, a mudane7a tende a ser mais fe1cil de detectar do que a continuidade, porque novas formas e novos materiais sobressaem no registo.

Em contraste, Dide9 West 1 conserva um caso em que uma mesma abordagem foi aperfeie7oada sem ser abandonada.

O estado invulgarmente completo do sedtio influenciou tambe9m a forma como os resultados foram descritos, com a equipa a apresentar a descoberta em termos particularmente directos.

abOferece uma rara oportunidade para estudar a continuidade e a adaptae7e3o de uma te9cnica de fundie7e3o de ferro a longo prazobb, afirmou Morel.

c1frica para le1 de cronologias antigas

Rf3tulos europeus como Idade do Ferro ne3o se ajustam de forma linear e0 c1frica, onde a metalurgia se desenvolveu em cronologias regionais muito diferentes.

Uma vise3o mais ampla da histf3ria da metalurgia africana mostra que a produe7e3o inicial de ferro na c1frica Ocidental, Central e Oriental seguiu ve1rias trajectf3rias.

Dentro desse quadro mais vasto, a oficina do Senegal ganha importe2ncia por registar uma tradie7e3o local nos seus prf3prios termos.

Esta perspectiva afasta a narrativa das linhas temporais europeias e devolve o foco e0s escolhas efectivamente feitas por comunidades africanas.

O que a torna fanica

Se3o poucas as oficinas antigas, em qualquer parte, que preservam tantos indedcios de tantos ciclos de produe7e3o no mesmo lugar.

Entre o enorme monte de resedduos, as bases repetidas dos fornos, os tubos de ar fora do comum e o enchimento com sementes de palma, o sedtio conservou um sistema de trabalho praticamente completo.

abGrae7as ao seu estado de preservae7e3o excepcional, e0 sua idade, ao tempo durante o qual permaneceu em uso e e0s suas caracteredsticas te9cnicas distintivas, este sedtio e9 verdadeiramente fanicobb, afirmou Morel.

Aqui, abfanicobb ne3o significa maior do que todas as outras oficinas, mas sim mais claro quanto e0 forma como uma te9cnica conseguiu perdurar.

Fogo ao longo dos se9culos

Dide9 West 1 demonstra que uma histf3ria te9cnica longa pode sobreviver em reparae7f5es repetidas, he1bitos teimosos e num controlo cuidadoso do calor.

Trabalhos adicionais noutros sedtios senegaleses nas proximidades podere3o esclarecer se esta resisteancia foi um caso raro, um fenf3meno local ou parte de um padre3o mais amplo.

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