A Jaguar, marca inglesa, anda há alguns anos a trabalhar num opositor à armada alemã do segmento D. A questão é simples: fará sentido?
Gosto de história - de história dos automóveis e de história pura e dura. E, não, esta nota inicial não tem qualquer ligação à colaboração da Razão Automóvel com o Canal História; serve apenas para enquadrar o tema.
Como se sabe, não é de agora que ingleses, alemães e franceses vivem em clima de escaramuças. Os manuais estão cheios de guerras, conquistas e desavenças entre estas três potências: a primeira acumulou vitórias durante séculos, a segunda confirma o ditado de que «quem ri por último…», e a terceira, coitada, já atravessou tempos mais felizes.
Ingleses, alemães e franceses: do passado ao mercado actual
Se olharmos para os ingleses - velhos aliados de Portugal - é impossível esquecer que já tiveram uma das indústrias automóveis mais fortes do planeta. Entretanto, porém, perderam fôlego perante a Alemanha. Quanto aos franceses, ao seu estilo, ainda fizeram notar-se, mas hoje já não representam o contra-poder que em tempos fez frente aos alemães.
E como também é sabido, os ingleses não são propriamente de engolir sapos. Perante o domínio quase total das berlinas alemãs no luxo, a Jaguar - marca de Sua Majestade, actualmente nas mãos de uma antiga colónia, a Índia - está a preparar um concorrente directo para as referências germânicas. A pergunta mantém-se: devem mesmo entrar em confronto directo no segmento D? Na minha leitura, talvez não.
Jaguar no segmento D: competir de frente ou jogar diferente?
Claro que é um segmento apetecível. Em teoria, a fatia de vendas que daí poderia vir seria relevante para a marca. O problema é o custo do combate: o investimento necessário para enfrentar os colossos alemães ultrapassa largamente aquilo que a Jaguar consegue suportar - pelo menos se a intenção for discutir o mercado «olhos nos olhos».
No fim do exercício, o risco seria terminar com as finanças em frangalhos. E nem o músculo de Ratan Tata, o magnata indiano que detém a marca inglesa, é garantia de milagre. Hoje, os alemães são simplesmente demasiado competentes no que fazem.
Então o que resta à Jaguar? Desistir, voltar para casa, fazer chá e acompanhar com bolachas? Não obrigatoriamente. Podem tentar, mas a abordagem tem de ser outra. Em vez de copiar a receita alemã, a Jaguar deve criar um produto distinto, com um desenho marcante, porte aristocrático e «artesanato britânico».
Nesse caminho, podem - e talvez devam - relativizar preocupações como o espaço interior ou a capacidade da bagageira, caso isso permita um conjunto mais sedutor. Que façam um automóvel que mexa com quem o vê, e que seja diferente nos pormenores. São esses pormenores que separam os carros que são apenas carros daqueles que conseguem ser muito mais do que isso.
Onde estão as opções para quem quer apaixonar-se pelo automóvel?
Quem procura uma berlina de segmento D com veia desportiva escolhe um BMW Série 3; quem privilegia conforto aponta a um Mercedes Classe C; e quem quer um pouco de ambos os mundos tende a ir para um Audi A4. Certo… e, para quem quer um verdadeiro salão sobre rodas, há o Skoda Superb.
Mas para quem quer apaixonar-se pelo próprio automóvel - olhando para ele como algo muito além de «apenas um meio de transporte» - as opções não abundam. E é precisamente nesse nicho (que, para ser nicho, até é bem grande) que existe um campo de oportunidades para marcas como a Jaguar, ou até para a Alfa Romeo.
Seja como for, que a Jaguar nunca mais repita o hediondo X-Type. Uma berlina assente no já pouco inspirado Ford Mondeo, e que na Jaguar foi um capítulo para rasgar, queimar e esquecer. Credo… lagarto, lagarto, lagarto.
Marcas como a Jaguar - e também a Maserati ou a Alfa Romeo, que volto a mencionar para reforçar a ideia - têm algo que não se fabrica por encomenda: os ingleses chamam-lhe «legado». E o legado não se copia; aproveita-se.
É aí, quanto a mim, que estas marcas podem e devem continuar a destacar-se. Que venha de lá esse modelo de segmento D da Jaguar. Que venha, sim - mas não para tentar ser apenas mais um rival directo das referências do segmento. Que seja, antes, algo único: digno de ser lembrado e, acima de tudo, conduzido.
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