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Vitamina B2 (riboflavina) e ferroptose: um novo alvo no cancro

Cientista de bata branca observa placas de Petri com colónias bacterianas laranja em laboratório.

Investigadores descobriram que, ao cortar o acesso das células cancerígenas à vitamina B2, estas perdem uma defesa que as ajuda a evitar uma forma letal de autodestruição.

Este resultado transforma um nutriente comum num potencial ponto de pressão na luta contra tumores.

Uma defesa de sobrevivência escondida

Em modelos de células de cancro, esta fragilidade tornou-se visível quando a vitamina B2 deixou de proteger as células do colapso provocado pelo stress oxidativo.

Ao seguirem essa falha no laboratório, Vera Skafar, no Rudolf Virchow Center (RVZ), ligou a sobrevivência celular diretamente à riboflavina - o nome formal da vitamina B2.

O que parecia ser apenas apoio nutricional de rotina revelou-se, afinal, como parte da engrenagem que os tumores usam para se manterem vivos quando estão sob ameaça.

Para a investigação em tratamentos, a questão central já não é se a vitamina B2 tem impacto nas células cancerígenas, mas de que forma essa proteção poderá ser retirada sem prejudicar os tecidos saudáveis do organismo.

A função normal da vitamina

Fora do contexto tumoral, a vitamina B2 ajuda as células a converter os alimentos em energia utilizável, através de pequenos auxiliares químicos usados continuamente ao longo do dia.

A ingestão ocorre através de alimentos comuns, como leite, ovos, carne, espinafres, cogumelos e cereais fortificados.

Nas células saudáveis, a vitamina facilita a transferência de carga química durante reações que produzem energia e apoiam processos de reparação.

O problema surge no cancro quando essa mesma química reforça defesas que os tratamentos podem precisar de quebrar ao nível celular.

A armadilha da morte celular

Uma célula tumoral vulnerável pode morrer por ferroptose, um tipo de morte celular dependente de ferro que danifica membranas ricas em lípidos a partir do interior.

Durante este processo, o ferro contribui para gerar danos prejudiciais na membrana, e as barreiras externas da célula perdem estabilidade de dentro para fora.

Muitos tumores elevam as defesas antioxidantes - proteções contra stress químico lesivo - o que atrasa o dano antes de este atingir um ponto fatal.

Esta via de fuga torna a ferroptose um alvo apelativo para terapias oncológicas, mas também dificulta o seu controlo com segurança.

A ligação à FSP1

A equipa de Skafar concentrou-se na FSP1, uma proteína que ajuda as células a manter o dano de membrana sob controlo quando estão sob stress.

A riboflavina alimenta essa proteína ao facilitar a construção de uma pequena molécula auxiliar que sustenta a sua forma, localização e atividade.

Quando os níveis de riboflavina diminuíram, a FSP1 enfraqueceu e, em condições laboratoriais, as células cancerígenas tornaram-se mais fáceis de empurrar para a ferroptose.

“Vitamin B2 plays a crucial role in protecting cancer cells from ferroptosis, a special form of programmed cell death,” said Skafar.

Um isco bacteriano

Sem existir um fármaco bloqueador pronto a usar, os investigadores testaram a roseoflavina, um composto bacteriano que se assemelha à vitamina B2, mas não é um tratamento clínico.

As células cancerígenas pareceram captar o isco e, depois, convertê-lo em auxiliares químicos alterados, capazes de perturbar a FSP1 a partir de dentro.

Em baixas concentrações, a roseoflavina desencadeou ferroptose em modelos de células cancerígenas, dando à equipa uma prova de conceito inicial em laboratório.

Ainda assim, o sucesso no laboratório não significa que exista um tratamento, porque os medicamentos têm de demonstrar segurança e eficácia em animais e em pessoas, ao longo de testes repetidos.

Promessa e prudência

Para os doentes, a limitação mais relevante é direta: a experiência não avaliou a restrição de vitaminas como tratamento.

A vitamina B2 é necessária para os tecidos saudáveis, e a deficiência pode prejudicar o organismo muito antes de afetar tumores no dia a dia.

Uma futura terapia teria de atingir a química tumoral com uma precisão que a alimentação, por si só, não consegue oferecer.

Esta diferença mantém o achado útil, sem transformar a nutrição numa experiência caseira arriscada para doentes fora do contexto clínico.

Para além das células cancerígenas

A ferroptose também é importante fora da oncologia, porque o excesso de dano nas membranas pode lesar nervos e órgãos transplantados após uma agressão.

Nessas situações, travar a morte celular pode ajudar a proteger o tecido, em vez de destruir células perigosas durante doença ou cirurgia.

Já no tratamento do cancro, a lógica é inversa: os médicos podem querer que determinadas células percam a proteção, poupando ao mesmo tempo as células saudáveis nas proximidades.

Assim, um único mecanismo pode exigir duas estratégias diferentes, consoante a morte celular represente dano ou benefício em cada patologia.

Financiar a corrida

A Europa já canalizou financiamento relevante para a procura de formas de controlar a ferroptose em cancros difíceis.

Um projeto europeu arrancou em maio de 2024 e conta com quase dois milhões de euros de financiamento ao longo de cinco anos.

Este investimento apoia a busca de fármacos que possam expor células tumorais a esta via de morte em experiências futuras.

O dinheiro não garante um medicamento, mas pode acelerar a passagem de um resultado promissor em células para testes pré-clínicos - estudos realizados antes dos ensaios em humanos.

Os nutrientes têm dois lados

A vitamina B2 passa agora a integrar uma lista crescente de nutrientes comuns com papéis complexos dentro de células doentes.

As células não classificam a química como boa ou má; recorrem ao que lhes permite sobreviver em qualquer célula viva.

Nos tumores, uma via protetora pode transformar-se numa vulnerabilidade quando os cientistas aprendem a interrompê-la no momento certo.

Para o público, este resultado reforça a importância de medicamentos dirigidos e não o receio de um nutriente básico.

Próximos passos para o tratamento

Os dados ligam a química da dieta, a sobrevivência tumoral e a morte celular controlada através de uma rota protetora que pode ser alvo na terapêutica do cancro.

A seguir, será necessário desenvolver bloqueadores melhores e testar, em modelos rigorosos, se é possível atingir tumores sem enfraquecer tecido saudável.

A informação foi obtida a partir de um comunicado de imprensa da Universidade de Würzburg.

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