Isto mesmo pode transformar-se num verdadeiro travão na carreira.
Quem quer destacar-se no trabalho tende a responder por impulso: “claro, eu trato disso” - a cada e-mail, a cada pedido, a cada novo projecto. Para quem está de fora, a atitude parece exemplar: profissionalismo, lealdade, disponibilidade total. Mas, segundo psicólogos, por trás deste comportamento “modelo” existe um mecanismo que pode minar a performance, a saúde e até as hipóteses de progressão.
O reflexo de carreira que, no escritório, é visto como heroísmo
Seja numa entrevista, durante o período experimental ou na reunião diária da equipa, muita gente sente que tem de parecer sempre motivada e resistente à pressão. Ninguém quer ficar marcado como lento, rígido ou pouco colaborativo. E, por isso, a mensagem implícita repete-se: “estou disponível, também consigo pegar nisto”.
É aqui que, na leitura psicológica, começa o reflexo perigoso: manter-se permanentemente em “modo de prontidão” em todas as frentes ao mesmo tempo. Em vez de escolher prioridades, acumulam-se frentes de trabalho, reuniões, mensagens e e-mails - tudo aparentemente em paralelo, tudo aparentemente urgente.
A vontade de estar em todo o lado parece empenho - mas, na prática, conduz directamente à sobrecarga e à mediania.
Multitasking – o mito do super-profissional
Em muitos escritórios, o multitasking continua a ser visto como prova de desempenho acima da média. Portátil, smartphone, chat, software de projecto - quem escreve, clica e responde em vários canais ao mesmo tempo passa uma imagem moderna e “rápida”. Só que a investigação aponta para o oposto.
Estudos em neurociência indicam que o cérebro não processa várias tarefas complexas em simultâneo. O que acontece é uma alternância muito rápida - mudança de tarefa (task switching), não multitasking real. E cada troca tem um custo: consome energia e reduz a concentração, mesmo quando quase não nos apercebemos dessas perdas.
As consequências:
- A taxa de erros aumenta e pormenores escapam
- Tarefas complexas demoram mais do que quando são feitas com foco
- A memória piora, sobretudo para conteúdos de longo prazo
- A capacidade de atenção diminui de forma mensurável
Quem passa os dias a saltar entre e-mails, apresentações, chats e redes sociais acaba por treinar o cérebro para a distracção constante - não para trabalho profundo.
O cansaço invisível por trás do colaborador “perfeito”
Quando a mente se vai queimando em silêncio
Do lado de fora, vê-se muitas vezes apenas a fachada: alguém organizado, que toma notas na reunião, “arruma” e-mails ao mesmo tempo e ainda responde no telemóvel. Por dentro, o programa é outro: stress contínuo.
O organismo liberta mais hormonas do stress, a frequência cardíaca sobe e a tensão muscular aumenta. Ao mesmo tempo, a situação parece controlada porque, de facto, tudo ainda “vai andando”. Precisamente essa sensação de controlo é o que torna o padrão tão traiçoeiro.
Sinais de alerta típicos, que muitos só reconhecem tarde:
- Lê o mesmo parágrafo três vezes porque a informação não fica
- Esquece pequenos detalhes que antes eram automáticos
- Responde com irritação quando alguém pede “só uma coisa rápida”
- Chega ao fim do dia vazio, sem ter feito esforço físico significativo
- Dorme pior, porque a cabeça não desliga
A fachada do incansável “team player” esconde muitas vezes uma exaustão mental lenta, que corrói o desempenho e a qualidade de vida.
Como o multitasking dilui a sua especialização
Neste contexto, psicólogos falam numa “diluição da especialização”. Quando a atenção se reparte permanentemente por dezenas de pequenas tarefas, torna-se difícil entrar num estado de foco sustentado. E é precisamente esse trabalho profundo que, ao longo do tempo, torna uma pessoa realmente reconhecida pela sua competência.
Em vez de entregar um projecto importante com grande qualidade, acaba-se a equilibrar dez temas “mais ou menos” bem. No papel, a pessoa está sempre ocupada; na percepção da liderança, fica frequentemente apenas a ideia: “faz muita coisa, mas nada verdadeiramente extraordinário”.
Porque a disponibilidade constante pode deixar os seus chefes de pé atrás
A armadilha do “faz-tudo” simpático
Quem responde sempre, está sempre acessível e trata de cada pormenor acaba facilmente numa função que parece positiva à primeira vista: a do “faz-tudo” fiável. Só que esse papel, muitas vezes, bloqueia o próximo passo na carreira.
As chefias precisam de pessoas que saibam definir prioridades, organizar responsabilidades e, por vezes, dizer não quando algo não faz sentido do ponto de vista estratégico. Quem assume tudo o tempo todo transmite, sem intenção: “estou aqui para executar, não para orientar”.
Efeitos comuns no dia a dia:
- Recebe muitas tarefas urgentes, mas pouco valorizadas
- Projectos importantes e visíveis tendem a ir para colegas que se posicionam com mais clareza
- Nas reuniões, pedem-lhe mais ajuda operacional do que opinião sobre decisões estratégicas
Ser prestável sem limites faz com que pareça fiável, mas raramente com perfil de liderança.
Passo radical: que “competências” é melhor largar
O que deve desaprender de forma consciente
A chave não está em encaixar ainda mais truques de produtividade na rotina. A mudança decisiva acontece quando desaprende activamente certos comportamentos e os substitui por estratégias de foco.
O problema costuma estar em rotinas que se parecem com profissionalismo, mas que, na prática, só espalham a atenção. Repare em situações como:
- Começa dois projectos grandes ao mesmo tempo, em vez de priorizar um com critério
- Ouve um podcast enquanto constrói uma apresentação exigente
- Fala ao telefone com clientes e, em paralelo, escreve um relatório
- Durante uma conversa importante, mantém constantemente um ecrã “debaixo de olho”
- Faz scroll nas redes sociais enquanto, na reunião, se discutem conteúdos
- Finge que está a ouvir, mas por dentro já está a montar a próxima lista de tarefas
Reconhecer estes padrões é o primeiro passo. A seguir, o essencial é interrompê-los de propósito: fechar o ecrã, virar o telemóvel ao contrário, encurtar a lista de tarefas, espaçar compromissos e dar respostas mais claras.
Mono-tasking como impulsionador de carreira
Quem volta a permitir-se trabalhar numa única coisa com energia total costuma notar mudanças visíveis em pouco tempo:
- A qualidade sobe e os erros diminuem
- Os projectos ficam concluídos de forma limpa e mais depressa
- As conversas tornam-se mais claras e há menos mal-entendidos
- As chefias passam a vê-lo mais como especialista
Fazer menos coisas ao mesmo tempo pode parecer um recuo - mas, no resultado, aumenta claramente o seu impacto na empresa.
Estratégias concretas para o dia a dia no escritório
Três alavancas simples para ganhar foco
- Blocos de tempo claros: reserve 60–90 minutos para uma tarefa central, com e-mail e chats fechados durante esse período.
- Um “não” consciente: quando surgem novas tarefas, pergunte logo a prioridade e o prazo - e diga, com honestidade, o que é realista no momento.
- Limites visíveis: estado no chat em “focado”, aviso curto de indisponibilidade durante fases de trabalho profundo, reuniões sem portátil quando a sua contribuição de conteúdo é necessária.
Como abordar o tema com a sua chefia
Muita gente evita falar abertamente sobre limites. No entanto, em várias equipas, uma abordagem factual é bem recebida. Por exemplo:
“Reparei que estou a acompanhar muitos temas pequenos em paralelo e, por isso, não consigo aprofundar projectos estratégicos tanto quanto seria necessário. Gostava de agrupar parte dos pedidos ou redistribuir algumas tarefas, para conseguir entregar melhores resultados nos projectos centrais.”
Assim, não transmite comodismo - comunica exigência de qualidade e sentido de responsabilidade, duas características que as chefias tendem a valorizar.
Porque a concentração selectiva compensa mais a longo prazo
O impulso de aceitar tudo nasce muitas vezes do medo: medo de ser substituível, medo de não parecer empenhado. Só que, na prática, o que separa o “colaborador diligente” da “peça-chave da equipa” é o foco, a definição clara de prioridades e a gestão consciente da energia.
Quem passa a moldar activamente o seu papel na organização abdica, de forma deliberada, do estatuto de herói do multitasking. Em troca, aumenta a influência na área onde é realmente forte. O que antes era um desgaste silencioso passa a ser um contributo direccionado - e é isso que colegas e chefias acabam por reconhecer ao longo do tempo.
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